O feminismo e a luta de classes

Foto de FOB Ceará (Fórum de Oposição pela Base) - 8 de Março Classista
Foto de FOB Ceará (Fórum de Oposição pela Base) - 8 de Março Classista

Foto de FOB Ceará (Fórum de Oposição pela Base) – 8 de Março Classista

“Women workers, take up your rifles” fonte: guity-novin.blogspot.com

Frequentemente vejo tecerem comentários e críticas ácidas ao feminismo em oposição à luta de classes. Como se um excluísse o outro: a luta de classes deve estar acima e, com isso, vinha um “segure o seu feminismo de umbigo!” ou “esse feminismo não me serve”! De homens de esquerda era comum ouvir, de mulheres não tanto, mas ainda via. E me preocupava.

Esse pensamento me deixa um pouco aturdida porque me parece tão raso quanto os “vai pra Cuba”, além de parecer uma maneira rebuscada de quem conhece os argumentos para desqualificar o movimento. Já dizia a frase: nada mais parecido com um machista de direita que um machista de esquerda! Como assim feminismo em oposição à luta de classes?!

É claro que existem segmentos burgueses dentro do feminismo. A mulher burguesa, por mais privilégios que tenha, não está livre das opressões de gênero. O feminismo não é uma exclusividade da mulher proletária. A cooptação de movimentos pela burguesia é inevitável, o que não exclui sua existência na classe operária nem diminui sua importância. Aliás, é até engraçado falar de cooptação se pensarmos que feminismo, socialismo, comunismo, entre outros, são teorias surgidas de berços burgueses porque, voilà, sempre foram eles os agraciados pela dádiva da educação, da informação, da formação intelectual – e não as classes subalternas.

É ingenuidade e até irracional imaginar que todo movimento de luta dar-se-á apenas na classe operária por ser essa a mais oprimida – lembremos, de passagem, que é justamente a burguesia, a classe média, que têm o privilégio do acesso à informação de qualidade para formar opinião. Não a classe operária. Esta aprende, via de regra, da materialidade, da vivência, da experiência e não de leituras acadêmicas e produções bibliográficas. Não é à toa que tão facilmente encontramos opiniões reacionárias entre os mais oprimidos. Ora, o que esperavam, afinal?

Entretanto, o fato de existirem segmentos cooptados pela burguesia – que obviamente não representam os anseios reais dos mais oprimidos na classe operária – em quase todo movimento de luta, não quer dizer que não exista o oposto: um sincero movimento de luta da classe oprimida, dos que mais precisam dessa informação, do empoderamento, da emancipação.

Quando a mulher diz “não sou feminista porque o feminismo é burguês” está ignorando uma trajetória histórica de luta que não é exclusiva da burguesia, mas que (independente da sua boa vontade de aceitação ou não) nasceu nela. Está ignorando conquistas que também refletiram na classe operária. Mas muito além disso: está enfraquecendo a sua própria militância dentro da luta de classes.

Não é possível fazer a luta de classes anti-capitalista sem derrubar com essa política econômica o sistema patriarcal. De nada vale um sistema político e econômico diferente se a estrutura patriarcal se mantiver. Não, não são diretamente ligados. A queda de um não é a queda do outro. Mas são intrinsecamente relacionados, é profundamente necessário que se execute em conjunto, pois a emancipação da mulher é sim um dos pilares da luta de classes. Sim, senhores. Qual a representação da mulher dentro do proletariado? Qual a porcentagem de mulheres dentro da sociedade? Metade deste mundo, metade deste sistema, metade desta horda de oprimidos que precisam estar na luta de classes pela derrubada do sistema econômico são mulheres. Sem mulheres não há revolução. Sem a emancipação da mulher, sem a derrubada do patriarcado, não há derrubada do capitalismo. Lenin era assertivo sobre isso. Selecionando alguns trechos importantes, vejamos:

“Em Petrogrado, em Moscou, nas cidades e nos centros industriais afastados, o comportamento das mulheres proletárias durante a revolução foi soberbo. Sem elas, muito provavelmente não teríamos vencido. (…) A primeira ditadura do proletariado abre verdadeiramente o caminho para a completa igualdade social da mulher. Elimina mais preconceitos que a montanha de escritos sobre, a igualdade feminina. E apesar de tudo isso, não possuímos ainda um movimento feminino comunista internacional. Mas devemos chegar a formá-lo, a todo custo. Devemos proceder imediatamente à sua organização. Sem esse movimento, o trabalho de nossa Internacional e das suas seções será incompleto e assim permanecerá. (…) Somente se milhões de mulheres estiverem conosco poderemos exercer a ditadura do proletariado, poderemos construir segunda diretrizes comunistas. Devemos encontrar a maneira de uni-las, devemos estudar para encontrar essa maneira. Por isso é justo formular reivindicações em favor das mulheres: já não se trata de um programa mínimo, de um programa de reformas, no sentido dos social-democratas da II Internacional. Não é um reconhecimento da eternidade ou pelo menos da longa duração do poder da burguesia e da sua forma estatal. Não é uma tentativa de satisfazer as mulheres com reformas e desviá-las do caminho da luta revolucionária. Não se trata disso nem de outros truques reformistas. Nossas exigências se apoiam nas conclusões práticas que tiramos das necessidades prementes, da vergonhosa humilhação da mulher e dos privilégios do homem.” (fonte: O Socialismo e a Emancipação da Mulher).

Pensemos, então, a questão do feminismo e os direitos da mulher na experiência soviética. Inicialmente, a URSS representou o maior avanço na emancipação feminina: a começar que as mulheres também engrossaram as fileiras da revolução, não apenas como enfermeiras, mas também como combatentes; depois, o primeiro país do mundo a garantir o aborto legal; a instituição do casamento civil em substituição ao religioso e o direito ao divórcio a pedido de qualquer um dos cônjuges; direito à educação, socialização do trabalho doméstico, criação de creches, direitos iguais, isonomia salarial, trabalho – antes função exclusivamente masculina, e isso inclui postos políticos. Enfim, a revolução também foi uma revolução feminina. Mas isso num primeiro momento.

A professora e historiadora Wendy Goldman conta que a facilidade para divorciar levou muitos homens soviéticos a terem relacionamentos breves com mulheres, engravidá-las e abandoná-las. Nisso não há nada de revolucionário, é o patriarcado ainda presente. Consequentemente, um retrocesso se deu quando Stalin, em ’36, decretou um conjunto de leis conservadoras para remediar a situação. Perdeu-se o direito ao aborto, dificultou-se o divórcio, fortaleceram a instituição familiar das noções conservadoras.

Compreendo a crítica de que o movimento se perde, por vezes, nas questões sexuais sim. Compreendo e concordo com Lenin e tantos outros escritores da linha que essa pauta levada ao patamar mais alto não é nada marxista, não é materialista. Sim, é uma preocupação pequeno burguesa. Entretanto não posso concordar que apenas se ataquem essas pautas – que devem existir, mesmo que secundariamente, mas devem – sem que se faça um trabalho de base. Ou seja, pessoas atacam sem estar, por sua vez, fazendo qualquer trabalho de base com a própria classe proletária, sem estar militando pela luta de classes. Não passa, pois, de pura demagogia.

Como mulher, reconheço que cada aspecto compreendido das opressões que me são impostas – dos mais supérfluos aos mais complexos – me abrem a mente e conectam às mais diversas questões. São importantes pra mim para reconhecer minhas opressões de gênero e identificar de que forma elas dialogam com as consequências do sistema político e econômico, das construções burguesas e afins. Então sim, na minha militância, são fundamentais. Não são minha pauta principal, mas são essenciais pra minha conscientização, minhas formulações, minha emancipação e construção identitária sobre minha autonomia, meu espaço na sociedade e nas concepções de mundo, principalmente num sistema que consegue reduzir tudo à noção de propriedade e mercadoria.

Vejo como dois contextos: micro e macro. O micro é a esfera íntima, mais próxima, pessoal, particular; o macro é o social, interligado a outros sistemas externos. Uma mulher que não consegue refletir sua própria autonomia, sua consciência, sua liberdade pessoal, seu direito individual, seu corpo, pensa-la a si mesma na sua vida e na relação com o restante; como se espera que essa mulher, alienada de si própria, possa ter forças e consciência para lutar pelas opressões de classe, do sistema econômico, do que está fora da sua esfera íntima?

Por fim, invés de desqualificar o movimento, abandonar e atacar como um empecilho à luta de classes, perdem as mulheres e os homens que o marginalizam, que segregam, excluem e abandonam. Perdem porque deveriam, em primeira instância, fazer um trabalho de classe dentro desse movimento. Deveriam disputá-lo, cooptá-lo, politizá-lo com o recorte de classe dentro do materialismo ao invés de simplesmente deixar que se perca, ignorando anos de construção, nos ideais burgueses que muito se servem dessa manobra.

Feminista sim. Pelas minhas liberdades individuais sim. Mas, principalmente, por um feminismo classista, interseccional e internacional.

Qual a função da educação formal?

Fonte: Publico.pt

Fonte: Publico.pt

Somos enviados desde muito pequenos à escola para receber a educação formal. Nós criamos a escola mas, para os mais novos, parece que foi há tanto tempo que é como se ela sempre tivesse estado ali: algo natural e fatídico. Não é como se a escola fosse uma invenção humana, um produto da ação humana e, como tal, com uma finalidade e objetivo definidos.

Desde a mais tenra idade, sem saber por que, lá estamos nós. Nossos pais nos mandam e vamos. E continuamos na escola toda nossa juventude nos esforçando para entrar na faculdade, outro tipo de escola. E passamos a vida escolar em função disso. Quem não quer fazer faculdade ou não consegue entrar sabe bem o que é a (re)pressão social, a necessidade de feedback dos familiares e amigos. Eles esperam que você faça isso, como todos. Porque – e muitos julgarão que é essa a função da escola – precisamos dela para ter melhores condições de vida, para sermos mais, para podermos mais. “Para ser alguém”, diz o jargão. Será?

Eis a escolarização. Nada existe fora dos muros de uma educação formal. Muitos sequer saberão que existem outros moldes educacionais, outros conceitos pedagógicos escolares, que não aquele tradicional: 30 a 40 alunos por sala, estudando para obter nota satisfatória, estudando para passar na prova, estudando para passar no ENEM, estudando para ser aprovado na faculdade. Estudando para obter um diploma que define sua vida. O objetivo final, para o aluno, não é o conhecimento, mas a nota, a aprovação, o papel timbrado. O objetivo final, para o Estado, será o conhecimento?

Cada aluno e aluna, criança e jovem, tem hoje sua genialidade, existência, vida e inteligência reduzidas ao boletim bimestral, semestral, anual. Ao certificado que diz: aprovado. Ao diploma que diz: graduado. Não importa suas qualidades, habilidades e ideias. Importa a nota, o papel com os dizeres corretos: decorou, escreveu o que alguém queria ler e passou de ano. Parabéns.

Finda o ensino médio, mais um trabalhador comum no mercado. Finda a faculdade, mais um trabalhador comum talvez no mercado, talvez no funcionalismo público. Finda o ensino técnico, mais um trabalhador na indústria. E o término destes ciclos, vê-se logo, não está necessariamente ligado a melhores condições de vida – como nos vendeu a propaganda social – ou à satisfação pessoal. Muitas vezes o que encontramos, fora da faculdade, é o desemprego que o diploma não resolve e, dentro dela, um questionamento de: será que é isso mesmo o que quero da vida? As pessoas parecem completamente perdidas.

Mas então qual a função da educação formal? Sejamos mais profundos do que “para formar cidadãos”. Para que serve a educação formal? E se serve a algo, também serve alguém. A quem ou a que serve a escola? Qual o seu objetivo? Por que andamos sempre nisto tanto tempo de nossas vidas sem saber se sentiremos, de fato, alguma realização pessoal?

Não é por mero “aprendizado” que, convenhamos, fica muito limitado se reduzido ao caráter institucional. O aprendizado se dá a todo momento, a cada segundo, é um processo inato e vivo no ser humano, constante, num fluxo impossível de ser estanque. Enquanto estamos vivos, enquanto estamos em contato com o meio, estamos aprendendo. Escola não é sinônimo de aprendizado. Escola não é sinônimo de educação. Então, se aprendemos fora da escola, por que precisamos aprender dentro da escola? Existe educação fora da escola?

Treinamento militar em Esparta: a educação da época.

Treinamento militar em Esparta: a educação da época.

Não é verdade, como muitos aceitam com excessiva e natural passividade, que a escola sempre esteve lá. A educação, esta sim, sempre existiu. Sob muitas formas. Pensemos a antiguidade: em Esparta, crianças eram educadas desde os 6 ou 7 anos na arte da guerra. Aprendiam a lutar, usar armaduras e armas. Era a educação militar, pois era essa a necessidade da sociedade da época: em era de guerras, onde o poder se fazia por meio de lutas, a casta dominante precisava de soldados, de guerreiros. Ensinava-se a guerra, formavam-se soldados. Em Atenas, sabidamente mais aberta e menos militar que Esparta, aprendia-se filosofia, oratória, argumentação, tese, antítese. Aprendia-se a falar, pois era também uma necessidade da sociedade em questão: Atenas desenvolvia-se como uma gigante em termos de democracia, a primeira numa organização política tão avançada – tanto que deles ainda bebemos muito à fonte também para criar a estrutura de república. A educação era humanista, política, filosófica.

Na mudança da Antiguidade para a Idade Média, uma nova configuração se fazia. Novo sistema econômico, novo sistema político. Novas formas das sociedades se organizarem. Os maiores poderes que governavam a sociedade eram a Igreja e a Nobreza. De modo que a educação era só para nobres e para o clero, mas a direção estava inteiramente sob os cuidados da Igreja. Na busca pela hegemonia, tentando equalizar as antigas crenças e se consolidar, a Igreja formava sua base resgatando textos clássicos da antiguidade e adaptando-os à sua conveniência: a escola religiosa formava novas lideranças religiosas. A nobreza era a outra face do poder, a única com acesso a essa escola – conforme aprovação dos bispos e diretos das escolas eclesiásticas. Lembrando que a Idade Média compreende um período de mil anos, portanto muita coisa se passou: na arte, nas línguas, na literatura, surgiram as universidades!

Entretanto, devo ressaltar que a instituição educacional nunca foi um direito natural das pessoas, da Antiguidade à Idade Moderna. Pelo contrário: era um privilégio dos nobres e poderosos. A escola era só para quem podia arcar com as despesas. Na Antiguidade, os sofistas cobravam pelas suas aulas e exatamente por isso Sócrates foi bastante perseguido (pois não cobrava por nada, andava pelas ruas e falava com quem quer que se interessasse), por exemplo. O povo não recebia qualquer instrução, sua função era servir e trabalhar – seja como escravo, como vassalo ou, posteriormente, como assalariados nas fábricas da burguesia.

Vejam, até aqui vimos a escola como um espaço financiado por um poder – Estado ou Igreja aliada/supervisionada pelo Estado – e com o objetivo de educar pessoas para aquilo que o contexto exigia: militares, oradores, médicos ou lideranças religiosas. Sempre acompanhando as mudanças da sociedade no panorama político e econômico. Pensando a Antiguidade, não havia necessidade de formar lideranças religiosas quando não havia a Igreja, por exemplo. Já na Idade Média, com o surto de doenças e pragas que reduziam a expectativa de vida para míseros 35 anos, obviamente urgia formarem médicos e não só toneladas de militares. Portanto, as pessoas sempre foram mandadas para atender uma determinada necessidade aplicada à conjuntura do poder da época. O poder é religioso, precisa-se de religiosos. O poder é militar, precisa-se de militares. E agora, qual é a nossa época?

A partir do século XVIII, com a chegada das revoluções industriais, o ocidente muda por completo. Seu contexto político e econômico passa por uma verdadeira revolução: a burguesia – os antigos mercadores livres da Idade Média – derruba o Absolutismo Monárquico e se torna a nova classe dominante, a nobreza do novo século; os mercadores, antigamente, viviam da venda de sua mercadoria, mas o trabalho manual, como faziam os artesãos, era pouco para atender a demanda. Pouco e lento. Para conseguir mais lucro, precisava-se de algo mais rápido. Assim vieram as máquinas e a revolução industrial, com linhas de produção muito maiores e mais rápidas que as mãos dos artesãos, gerando mais mercadorias e, consequentemente, mais lucro. Essa era a nova ordem mundial: indústria e burguesia. Consolidava-se o capitalismo, sistema econômico baseado no lucro e na mais-valia.

Ainda havia a Igreja, ainda existia seu poderio, mas não tanto quanto na Idade Média. A burguesia tratou de colocá-la em seu devido lugar, mas nunca deixando, de fato, de se aliar a ela. Antes um aliado que um inimigo poderoso, não é verdade? Portanto, a educação religiosa continuava a existir. Mas agora havia a necessidade de formar mão-de-obra especializada para as fábricas. Não podia mais ser os artesãos, não tinha mais essa de trabalhar nos campos dos senhores feudais. Não havia mais suseranos. Os camponeses, sem campo, viram-se perdidos e obrigados a trabalhar na fábrica. A burguesia e o capitalismo reinventaram, então, a escola para a nova necessidade da época: mão-de-obra técnica. Trabalhadores para o novo sistema econômico.

Marx (1992, p. 15) fala dessa mudança promovida pela Primeira Revolução Industrial. Por exemplo, no caso de um relógio que era inteiramente produzido por um único artesão, com as linhas de produção industrializadas, passa a ser produzido por vários trabalhadores, uma vez que o trabalhador já não tem mais o domínio do todo e sim da parte apenas. Marx ainda explicita que “devido à divisão de trabalho no interior dos diferentes ramos, assiste-se ao desenvolvimento de diversas subdivisões entre os indivíduos que cooperam em trabalhos determinados”. São essas subdivisões criadas pela indústria, da necessidade de produção na lógica de lucro e demanda do Capital, que também é adaptada a educação formal: a educação especializada em coisas muito específicas, não mais a educação genérica da Antiguidade ou da Idade Média. Essa foi a Primeira Revolução Industrial. A segunda viria perto de 1900, seria a da metalurgia, do aço, da química, a linha de produção das fábricas automobilísticas. Qual era a necessidade então? Uma escola técnica, profissionalizante, capaz de formar mão de obra qualificada e trabalhadores mecânicos – nada de muito raciocínio, apenas mecânico. A escola e a linha de produção.

Espere aí! 1900 não está tão longe assim…

Emile Durkheim, por acaso muito parecido com Freud e Lenin.

Emile Durkheim, por acaso muito parecido com Freud.

Apresento-vos, Durkheim. Talvez já tenham ouvido falar desse nome. Émile Durkheim foi um sociólogo francês, um dos nomes mais fortes nas ciências sociais. Vale a pena lembrar que a Sociologia, como disciplina e ciência, de fato nasce após a Revolução Francesa e a Revolução Industrial com o objetivo de encontrar respostas e reorganizar aquela nova sociedade que se apresentava, perdida com a mudança tão radical: camponeses sem campo, nova ordem política, a implantação da indústria e todos os prós e contras que isso trouxe. Veio então Marx, com sua análise do novo sistema econômico, totalmente pessimista em relação ao capitalismo. E após ele, Durkheim, completamente a favor do novo sistema. Durkheim aperfeiçoou o positivismo de Comte e propunha novas ideias para a organização daquela sociedade com promessas prósperas.

Segundo Durkheim, a sociedade é comparada a um organismo vivo, como um corpo humano, que é composto por diferentes partes, cada qual com sua função específica, mas dependendo umas das outras. Todas as partes trabalhariam unidas para a saúde do corpo, que deveria estar integrado, em harmonia, em ordem para que pudesse haver o desenvolvimento, ou seja, o progresso. É este o funcionalismo, todos trabalhando, cada qual limitado ao seu campo, para que tudo funcione perfeitamente. E o ponto mais pesado e importante da teoria de Durkheim para a educação: a consciência una e múltipla. Una porque é unitária, toda uma classe receberia a mesma educação para que tivesse consciência coletiva; e múltipla porque cada classe teria a sua, diferentes de uma pra outra. E quais eram as classes? Burguesia e proletariado.

Portanto, a burguesia receberia a educação conforme sua classe e os trabalhos privilegiados que lhes competiam e a o proletário receberia uma educação diferenciada, porque era outra classe e com outras funções, para exercer o trabalho que lhe cabia. Tudo muito quadrado dentro da sua caixinha, cada qual conformado em seu canto para o perfeito funcionamento do corpo vivo chamado Capitalismo. Logo, a escola inculca valores para a consciência una da classe para que produza o resultado esperado.

Seria isso tão diferente do que temos hoje?

Pensando o caso brasileiro, por exemplo, dificilmente o positivismo de Comte e Durkheim, alastrado pela Europa numa rapidez impressionante, não chegaria aqui. Primeiro por estarmos sob total domínio de Portugal, depois porque tendo iniciado a exploração em 1500, com 200 anos de educação jesuíta, só no século XIX chegariam as primeiras universidades brasileiras. Até então, quem quisesse cursar a academia precisava ir até a Europa. Quem podia bancar a educação dos filhos, bancava – ou seja, novamente só os nobres – sua ida a Portugal, França, Inglaterra para que fizessem seus estudos. A França era um destino comum e, sendo esta a cidade natal de Durkheim e berço da Revolução Burguesa, obviamente respira os ares mais empolgados do positivismo. Praticamente tudo aquilo que tínhamos no Brasil era uma cópia daquilo que se fazia na Europa, trazida pelos próprios portugueses que a replicavam aqui ou por aqueles que iam estudar fora e voltavam “doutos”, admirados pelos seus novos conhecimento metropolitanos, modernos e revolucionários.

Na prática, isto se dá de forma muito mais explícita do que imaginamos. A “democratização” da escola, no Brasil, veio bem tardiamente, por volta dos anos 30 e 40. Resumindo com Anísio Teixeira:

Somente no século dezenove é que o Estado entra maciçamente a interferir na educação e, a princípio, apenas para oferecer um mínimo de educação escolar, considerado necessário para a nova vida em comum, complexa e progressiva da civilização industrial moderna.
Esse mínimo, que logo se faz compulsório, não tem, entretanto, o antigo caráter de manter alto ou elevar o status social do educando, mas visa, tão somente, e nunca é demais repetir, dar a todos, aquele treino mínimo, considerado indispensável para a vida comum do novo cidadão no estado democrático e industrial. (…) A longa associação da educação escolar com as classes mais abastadas da sociedade determinou que só em mínima parte a escola se fizesse realmente selecionadora de valores. Forçada a receber todos os alunos, cujos pais estivessem em condições de arcar com os ônus de uma educação prolongada dos filhos, independente da sua capacidade individual, a escola desenvolveu uma filosofia de educação, que qualificaríamos de extremamente curiosa, se a ela não estivéssemos tão habituados. Tal filosofia era a de que quanto mais inúteis fossem os estudos escolares, mais formadores seriam eles da chamada elite que às escolas fora confiadaNão se sabia o que seus alunos iriam fazer, salvo que deveriam continuar a pertencer às classes mais ou menos abastadas a que pertenciam. Logo, se se devotassem os alunos a estudos, inúteis em si mesmos, mas reputadamente formadores da mente, deveriam, depois, ficar aptos a fazer qualquer cousa que tivessem de fazer, na sua função de componentes do chamado escol social… E assim se afastou da escola qualquer premência do fator “eficiência”, chegando-se a considerar tudo que se pudesse chamar de “prático” ou “utilitário” como de pouco educativo.

Vemos, novamente, que a escola era uma ferramenta do Estado, aprisionando seus alunos às suas classes, como idealizava Durkheim, para o bom funcionamento da economia – formando mão de obra para a indústria e o Capital. Percebe-se que o surgimento da escola e das universidades no Brasil sempre foram fatores relacionados às necessidades de uma elite aristocrática e da sua preservação.

Ainda mais prático que isso, posso oferecer-vos uma imagem daquilo que era a educação formal na década de 50, 60 e começo de 70 (perceba: a escola “para todos” era recém implantada, visto que os movimentos ganharam força no fim da década de 40): dois eram os caminhos da educação formal, sendo eles o ensino técnico ou o ensino regular (para vestibular). Quem cursasse o ensino técnico, que formava mão de obra especializada para a indústria, não poderia prestar vestibular para entrar na academia, a não ser que começasse tudo de novo, do zero. O Prof. Luís Carlos, da USP, conta um pouco sobre o ensino regular:

(…) a função central das escolas públicas de ensino médio regular, não-profissionalizante, era principalmente a de preparar, para as universidades, jovens de uma elite cultural, originários da elite econômica e de classes médias em ascensão. Eram escolas altamente seletivas, com exigentes exames de ingresso, que filtravam uma “nata da nata”, uma vez que mesmo para o acesso ao antigo ginásio, que hoje corresponderia à passagem para a quinta série do ensino fundamental, havia exame de admissão.

Portanto, temos uma escola mais acessível que forma mão-de-obra para a indústria e uma escola excludentemente seletiva para a elite que formava os acadêmicos, a sequência da elite. É ou não é exatamente o que pregava Durkheim e o seu funcionalismo para manutenção do Capitalismo?

“Hoje não é assim”, talvez você me diga. Lembro que falamos de uma geração atrás, apenas, a geração de nossos pais. Não faz muito tempo, quanto mudou? Mais que nunca vemos aparecer aos milhões centros de cursos técnicos, escolas técnicas, institutos científicos, prontos para formar atendentes de call center, mecânicos, empregados da indústria automobilística e vemos, também, a universidade com uma porta de entrada, chamada ENEM, que cobra um conteúdo que está longe do alcance da classe pobre que precisou da escola pública precária fornecendo um ensino fundamental precário, um ensino médio ruim e resultando num ensino superior (quando resulta) porco.

Tão diferente assim?

Portanto, depois de tudo isso, pergunto novamente: para que e a quem serve a escola? Para realização pessoal das pessoas, busca de conhecimento, melhorar sua condição de vida OU para reproduzir a ideologia do Estado, manter rigidamente a divisão de classes sociais e produzir mão de obra para o Capitalismo?

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Quem se importa com a violência contra as mulheres?

Bárbara Richardelle, assassinada no canteiro de uma obra em Vila Velha no dia 17 de março de 2014 pelo namorado. Teve o corpo abandonado às margens da Rodovia Darly Santos. Encontrada com sinais de estrangulamento, com o olho roxo e uma lesão na cabeça. O assassino, Christian Cunha, contou que se alimentou de churrasquinho e guaraná ao lado do corpo. Fonte: G1

Esse não é um texto como todos os outros que faço, com suas partes bem delimitadas. Esse será feito de relatos e reflexões, não preciso buscar muitos depoimentos pra falar de violência contra mulheres, porque eu própria sou parte desse círculo. Num dos posts sobre feminismo aqui do blog, alguém comentou que “o feminismo só quer resolver o problema das mulheres, não resolve os reais problemas do Brasil”. Então a violência e opressão contra as mulheres não é um “real problema”? É um problema menor, mínimo, secundário? Vamos lá pensar sobre isso…

Quando eu era criança, andava com meus sobrinhos – já que minhas irmãs eram muito mais velhas que eu. Lembro que meu ex-cunhado, pai de três dos meus sobrinhos, nos levava pra passear e, no carro, ensinava os filhos e seus primos a mexerem com as mulheres e meninas na rua. Chamavam de “courinho” (de “couro”; como se fosse um pedaço de carne andando e eles animais babando prontos para atacar). Eu, na minha criancice, não questionava isso. Não me perguntava se aquelas mulheres gostavam ou não disso, não perguntava por que eles faziam aquilo. Eu ficava quieta, porque menina não mexe com ninguém na rua. Ninguém me ensinou a chamar meninos de “courinho”, de “gatinhos”, de “gostosos”. Ainda bem, mas é um pormenor curioso. Hoje sou eu quem não gosta desses caras que mexem comigo na rua e converso muito com meus sobrinhos para que não o façam também.

Esse ex-cunhado me assediou sexualmente durante quase uma década. Quando começou, eu tinha apenas sete anos. Lembro de ele me por sentada no seu colo, com meus dois sobrinhos por perto (todos mais novos que eu, um dos irmãos ainda não tinha nascido), minha irmã lavava a louça no outro cômodo. Ele passava a mão no meu cabelo e fazia carícias que me deixavam desconfortável. Eu me perguntava, bastante confusa, se adulto fazia carinho assim, se era porque ele era da família, mas meu pai não fazia e nem minha mãe… Isso me confundia e me fazia calar. Mas os anos passaram e os carinhos não paravam: passava a mão na minha perna quando estava dirigindo (porque eu era a mais velha e ia na frente, embora tentasse não ir por causa dele), ficava passando a mão no meu cabelo, nos meus braços… Lembro de uma fase em que comecei a falar palavrões, muitos palavrões, sempre que ele se referia a mim. Isso não é normal na minha família, que era muito conservadora: eu detestava palavrões! Tão feios, custava muito a sair! Mas fazia isso porque acreditava e me baseava naquelas repreensões que ouvia: “ninguém gosta de criança mal educada que fala palavrão”. Então esperava que ele, por causa da minha “má educação”, ficasse bravo e saísse de perto de mim, desgostasse de mim. Nunca fui estuprada, mas ir me deitar já foi um dos momentos mais medonhos da minha vida. Porque eu tinha medo, e sabia, que ele viria à noite. Que eu acordaria com ele me apalpando à noite e que não conseguiria gritar, porque o medo e o sentimento de impotência travavam meus dentes – e poucas vezes, com um esforço hercúleo, conseguia dizer “sai daqui”. E eu não podia contar pra ninguém, não queria acabar com o casamento da minha irmã e deixar meus sobrinhos sem pai (não sabia o favor que faria, mas felizmente o casamento acabou há uns anos). Não queria carregar essa culpa. Esse cara fazia a mesma coisa com minha outra irmã, minha sobrinha, a amiga da minha irmã (nossa vizinha). Era pedófilo mesmo. E eu tinha que conviver com sua presença dentro de casa, conversando e respeitando como crianças devem fazer com adultos, como se nada tivesse acontecido. Ele era sócio do meu pai, ainda tinha mais essa. Tudo amarrado para eu me sentir culpada demais pra falar qualquer coisa e estragar tudo isso. E quem se culpava por estragar minha infância e adolescência? Por não me deixar desabrochar a feminilidade, descobrir minha sexualidade e me manter afastada de meninos e homens, como potenciais parceiros, por muito tempo? Quem seria culpado por eu ir dormir com medo e, até hoje, olhar cuidadosa e amedrontada para brechas de portas para ter certeza que ninguém está me espionando?

Às vezes ouço da minha colega de trabalho que mulher que engravida de cara novo ou desempregado é muito burra, porque devia saber que vai ser mãe solteira. Eles não vão mudar e vai sobrar tudo pra ela. É um tom de “realista, mas determinista” como se nada pudesse mudar, sempre foi assim e sempre será. Culpa nossa porque engravidamos, culpa nossa porque ele nos deixou, culpa nossa porque ele não vai ser pai, culpa nossa porque devíamos saber disso e seremos mães solteiras. Por culpa nossa, teremos que trabalhar dobrado para arcar com as despesas, porque o pai é jovem e desempregado (ou ganha pouco) e não vai dar pensão óbvio. Culpa a nossa que por causa do trabalho dobrado, tenhamos pouco tempo pro filho e ele cresça sem pai. Culpa nossa por engravidar e não poder abortar porque “escolhemos” engravidar, mesmo que não planejado. Existe remédio, afinal. Mas o aborto dele tudo bem, porque ele não carrega sobre si o peso do ideal romântico de “mãe” que tem que amar incondicionalmente ainda que isso custe sua vida e muitas dores…

Às vezes ouço de muitas mulheres as coisas que ouviram quando foram ter filhos: “na hora de fazer não gritou, né?”, “se continuar gritando, vou te deixar aí até amanhã”, “não faço parto com dor” (fala de um médico que não faz parto sem aplicar injeção de analgesia na mulher, mesmo que ela não peça… poxa, a dor não é dela? Ou ele é que sente?), “não tenho o dia todo” (dizem os médicos que fazem cortes com bisturi no períneo – região entre a vagina e o ânus – para o bebê descer mais rápido; ou o que forçou com o braço (manobra de Kristeller), às vezes subindo em cima da barriga da mulher em plena fase de expulsão do parto, para empurrar o bebê para fora).

Nada disso importa a ninguém, só vejo mesmo as próprias mulheres pedirem por mudança – e muitas vezes são taxadas de vitimistas e tratadas como quem faz tempestade em copo d’água. Porque os homens também sofrem violência, então tudo bem sofrermos também…

Ontem acompanhei um colega de trabalho, motorista do sistema penitenciário, até duas unidades prisionais da minha cidade. Ele precisava levar de volta às unidades, três reeducandos que trabalham aqui para redimir a pena. No carro, falamos da situação dos presídios, dos agentes penitenciários e dos presidiários. Ele criticava meu discurso, dizendo que sou muito idealista: “É porque você não conhece as figuras; eu que fiquei lá na tranca quantos anos… só ouvindo ameaça, insulto, palhaçada de preso. É porque esse aqui (disse ele se referindo ao preso sentado atrás de mim) não dá trabalho nenhum. Não é que nem esses outros que tem lá, que mexe com droga, assalto e não sei o quê. Ele é gente boa, trabalhador que caiu nos caminhos da vida, mas não dá trabalho nenhum. Porque o resto… humpf!”. Quando deixamos o preso na unidade dele e voltamos para o carro, perguntei qual era o delito daquele homem trabalhador. Por que ele estava preso? “Incesto”, me disse ele. Um eufemismo pra dizer que o cara abusava e estuprava as próprias filhas. Fiquei pensando na construção daquele pensamento e discurso: os presos que traficam e assaltam são Satanás na terra, mas o estuprador não. Porque ele é honesto e trabalhador, que caiu “nos caminhos da vida”.

Um estupro tão diminuído. Estuprar as próprias filhas não era quase nada. Aliás, não é nada comparado a um assalto. Roubar bens materiais ou vender drogas é bem pior que estupro. Será que meu corpo vale menos que um celular ou o caixa de um supermercado? Quanto vale minha integridade, meu psicológico, minha vida, minha autonomia, minha sexualidade, meu respeito? Menos que um furto. Menos que alguns quilos de maconha ou pasta-base.

Amanda Bueno, funkeira brutalmente assassinada pelo noivo depois de ter descoberto traição do mesmo. Os vídeos registram quando Milton pega a vítima pelo pescoço, bate com a cabeça dela 11 vezes em uma pedra do jardim e dá 10 coronhadas na cabeça dela. Em seguida, entra em casa, veste o colete à prova de balas e se arma com um revólver, três pistolas e uma espingarda calibre 12. Ao passar pelo corpo, dá tiros com a pistola e com a espingarda no rosto da vítima. Fonte: G1

Amanda Bueno, funkeira brutalmente assassinada pelo noivo depois de ter descoberto traição do mesmo. Os vídeos registram quando Milton pega a vítima pelo pescoço, bate com a cabeça dela 11 vezes em uma pedra do jardim e dá 10 coronhadas na cabeça dela. Em seguida, entra em casa, veste o colete à prova de balas e se arma com um revólver, três pistolas e uma espingarda calibre 12. Ao passar pelo corpo, dá tiros com a pistola e com a espingarda no rosto da vítima. Fonte: G1

Outro dia, meu sobrinho voltou do hospital depois de um tombo de moto. Sentou e me contou, chocado, ter encontrado uma mulher que estava toda ferida. Ela estava lá porque um cara, numa caminhonete 4×4, estava mexendo com ela e ela não lhe deu atenção. Como somos sempre ensinadas: não retruque, fique calada e deixa falar (sempre baixe a cabeça…). O cara não gostou, continuou mexendo. Como ela não parecia “ceder aos seus encantos”, ele a fechou. Ela, que estava numa biz, foi encantoada no meio-fio, caiu e quebrou uns tantos ossos, se ralou toda e foi parar no Pronto Atendimento do hospital com ajuda de outros, já que ele saiu sem prestar socorro.

Essa semana, no ônibus a caminho do trabalho, o veículo parecia empacar a cada freada. Aquela maravilha de transporte coletivo, pelo qual ainda pagamos caro. Duas senhoras do meu lado riam entre si “é igual mulher de bandido, só funciona na porrada”. A violência tão naturalizada, tão diminuída, nem parece que é agressão a alguém, que mata, que traumatiza, que aprisiona, que causa traumas… É tão comum, tão aceitável, tão corriqueira que dá pra comparar até com um ônibus velho e rir.

Ainda esse mês vi a notícia de um cara que matou sua esposa a facadas porque ela fritou poucas batatas fritas; outra notícia, do mês passado, contava de um cara que fez a mesma coisa com a esposa grávida porque ela se recusou a fazer o jantar (afinal, é obrigação dela enquanto mulher, né? Nasceu pra isso).

Bárbara Richardelle, assassinada no canteiro de uma obra em Vila Velha no dia 17 de março de 2014 pelo namorado. Teve o corpo abandonado às margens da Rodovia Darly Santos. Encontrada com sinais de estrangulamento, com o olho roxo e uma lesão na cabeça. O assassino, Christian Cunha, contou que se alimentou de churrasquinho e guaraná ao lado do corpo. Fonte: G1

Bárbara Richardelle, assassinada no canteiro de uma obra em Vila Velha no dia 17 de março de 2014 pelo namorado. Teve o corpo abandonado às margens da Rodovia Darly Santos. Encontrada com sinais de estrangulamento, com o olho roxo e uma lesão na cabeça. O assassino, Christian Cunha, contou que se alimentou de churrasquinho e guaraná ao lado do corpo. Fonte: G1

Minha irmã, em Sinop, em fevereiro veio me pedir ajuda porque uma irmã da igreja estava desesperada. Ela morava com o marido e os três filhos deles, mas ele estava tirando tudo de casa para vender e comprar droga, além de ameaça-la. Ela não tinha família na cidade, era sozinha com os filhos. Foi até a delegacia denunciar e, lá, o policial lhe disse que não podia fazer nada, porque eles moravam juntos, então as coisas também eram dele; e se ela achasse ruim, que “botasse outro macho dentro de casa” (nessas palavras).

Talvez eu seja muita ingênua, talvez pense assim por ser mulher e estar na reta da vulnerabilidade (talvez homens não consigam se por no meu lugar ou imaginar como é isso), mas muito me choca ainda ouvir tanto a expressão “crime passional”. Afinal, o que há de passional em matar alguém, espancar alguém, violar alguém? “Passional” vem de “paixão”. Estamos assumindo que é possível eufemizar o crime, torna-lo mais leve e romântico, por que foi por “amor”? Não é só ilógica essa configuração, mas assustadora que ela seja aceita e perpetuada no judiciário. Aliás, pensar que até pouquíssimo tempo era considerado legítimo que um homem matasse uma mulher “em defesa da honra”, me faz pensar que a lei do feminicídio demorou até demais pra ser criada.

Quando eu vejo que tantas amigas do meu círculo próximo assumem ter sido estupradas ou assediadas sexualmente por homens da família ou amigos da família; quando eu lembro dos quase 10 anos que sofri na mão de um pedófilo e sei que escapei de um estupro por muita sorte; quando eu ouço gente dizendo que estupro é “cair nos caminhos da vida” e um crime mais aceitável que assalto ou tráfico; quando leio que uma mulher é morta a cada 1h30 no Brasil; quando leio que uma mulher é estuprada a cada quatro minutos no meu país; quando me dizem que eu estou lutando por privilégios e não direitos; quando bradam que estou exagerando e querendo diminuir os homens; quando me comparam a um nazista… Eu me pergunto: quem se importa com a violência contra as mulheres?

A culpabilização e silenciamento da mulher

Fonte: Cristina Rastafare

Para falar desse assunto é preciso erguer, sobretudo, o fato de que vivemos numa sociedade patriarcal. O que isso quer dizer? Patriarcalismo é a supremacia do homem nas relações sociais. Isso é visível das coisas mais abstratas às mais concretas, das menores às maiores.

A lógica patriarcalista estabeleceu o poder de uma autoridade religiosa masculina sobre seus subordinados. Mas estende-se também à situações em que os homens dominam familiares, empregados ou aspectos políticos de uma organização social. Assim, as pessoas passam a dever obediência à imagem do homem dominante. O patriarca manteve o poder, ao longo da história, sobre qualquer indivíduo na organização social de que fazia parte. Poderia ser sua mulher, seus filhos, seus súditos, seus escravos ou seu povo. Cabendo-lhe o poder de decisões cruciais de forma inquestionável no seio da sociedade. Assim, na vigência do patriarcalismo, as relações humanas são estabelecidas em patamares desiguais e hierarquizados. O patriarca representa a autoridade maior determinando as condições que justificam seu status de superioridade e o status de inferioridade dos outros indivíduos. (Fonte aqui)

Quando nos referimos ao ser humano, falamos “o homem”; quando duas pessoas estão juntas, mesmo que de sexos diferentes, falamos delas no masculino;o Deus vigente é homem, é o “Deus pai”, quando já foi uma Deusa Mãe e, na língua original, apresentava-se este mesmo deus como “mãe” (origem da palavra Elohim, ligada à noção de maternidade); o chefe da família é o homem;no mundo dos negócios e da política, ele é, sem sombra de dúvidas, o sexo mais presente. Aliás, anteriormente era uma esfera unicamente sua. Afirmava-se categoricamente que as mulheres não entendiam disso, não serviam pra isso ou não tinham aptidão para isso (leia-se: inteligência suficiente). Há pouco tempo atrás, nem mesmo votar ou estudar era permitido às mulheres. Essas ficavam em casa, cuidando dos filhos, limpando tudo e preparando a comida, servindo ao marido.

Mas essa história de diminuição e opressão da mulher não é de agora. Vem, na verdade, de muito, muito tempo atrás…

Os deuses criaram a mulher para as funções domésticas, o homem para todas as outras. Os Deuses a puseram nos serviços caseiros, porque elas suportam menos bem o frio, o calor e a guerra. As mulheres que ficam em casa são honestas e as que vagueiam pelas ruas são desonestas. (Xenofonte: 427 –355 a.C.)

Platão e Aristóteles já falavam da inferioridade das mulheres em relação ao homem – não é por nada que a Igreja Católica, na Idade Média, vai buscar os textos de Platão para respaldar seu dogma bíblico. Na Grécia antiga, enquanto o homem era o modelo do forte, do poder, do belo, do admirável, mulheres eram tidas como aquelas que deviam cuidar da casa e que serviam apenas para procriar (não para sexo como divertimento, para isso havia as prostitutas); elas não votavam – apenas os homens constituíam as assembleias e assumiam cargos políticos, ficando proibida a participação de mulheres e escravos –, casavam assim que chegavam à puberdade (normalmente, a partir dos 13 anos) e não podiam ser vistas nas ruas, ou poderiam ser confundidas com prostitutas e escravas.

No século das luzes, os iluministas eram bastante taxativos. Immanuel Kant dizia que a mulher era naturalmente mais bonita que o homem e pouco capaz de pensar. Rousseau dizia que a mulher só deveria cultivar a razão se essa faculdade pudesse lhe garantir o cumprimento de seus deveres considerados como “naturais”, ou seja, obedecer e ser fiel ao marido e cuidar dos filhos e da casa. Segundo esse autor, a mulher que ousasse se dedicar à vida intelectual deveria permanecer solteira.

Nos anos 60, período de pós-guerra, o estereótipo da dona-de-casa feliz e submissa ao marido é intensivamente reforçado pela publicidade.

Nos anos 60, período de pós-guerra, o estereótipo da dona-de-casa feliz e submissa ao marido é intensivamente reforçado pela publicidade.

É nessa configuração que o patriarcalismo se firma nas estruturas sociais e psicológicas, formando padrões, preconceitos e dogmas, enraizando culturas fortemente machistas. É nessa conjuntura que, independente do que aconteça, à mulher cabe a culpa e o silêncio. Apenas.

Isso é algo tão visceral que, há alguns dias atrás, estava vendo a postagem de um ex-aluno meu que compartilhara um vídeo em que um homem proferia animosamente contra o pai da Mc Melody – uma garota de 8 anos que canta letras de funk completamente desapropriadas para sua idade e que tem sua imagem supersexualizada pelo próprio pai, que lucra com isso indiferente se a expõem a pedófilos ou o mal que faz à menina – e um amigo dele comentou: “acho que se fizesse funk realmente com algum significado tudo bem, mas se for pra ir na TV falar besteira, não dá! Senão, põe pra ser atriz pornô logo, ela quer”. Aqui é bastante claro como a culpa recai sobre a mulher e, mais assustador ainda, isso independe de sua idade.

Uma menina de 8 anos que certamente não tem consciência de seus atos, não pode responder por si, inteiramente alienada pelo próprio pai e que não sabe a que riscos está sendo exposta, essa mesma menina é ilustrada como quem deseja ser atriz de filme pornô (aqui colocado de forma bem pejorativa) por conta da imagem construída pelo pai.

A questão da culpabilidade começa, então, desde a infância. É uma questão ligada diretamente ao gênero feminino. É Eva a culpada por Adão comer a fruta e cometer o pecado, pois ela o induziu. É culpa de Eva, e através dela, queos homens (ser humano) já nascem pecadores neste mundo.

É muito comum, por exemplo, que se culpe a criança-menina em casos de pedofilia dentro de casa: foi ela quem provocou. Mais tarde, quando adolescente, jovem e/ou adulta, essa mesma menina vai ser ensinada a não usar roupas curtas para não provocar um estupro, para não chamar atenção de estupradores. Ou seja, a responsável pelo estupro é ela, que provocou. Não o estuprador, que cometeu.

Essa mulher vai descobrir, mais tarde, que a culpa também é dela se uma foto ou vídeo íntimo vazou. Porque ela quis tirar a foto e fazer o vídeo e isso não é um direito dela (só dos homens, porque pra eles não só é um fetiche como algo para contar vantagem). Não é culpa de quem espalhou indevidamente, quem viralizou sem permissão e expôs a imagem da mulher.

Essa mulher vai descobrir, mais tarde, que a culpa é dela se engravidar inesperadamente. A gravidez é algo que ela fez a si mesma, ela escolheu. Não importa que o preservativo masculino seja o mais seguro: se ele não usou, a culpa é dela por deixar. A gravidez não planejada é culpa dela. E se abortar e morrer (coisa que só acontece em países onde isso é proibido, como o Brasil), a culpa é dela também por não querer ser mãe. E mais: ela merece.

Se essa mulher for traída, a culpa será dela por não “dar assistência”, e não do homem que traiu. E até pouco tempo atrás, se ela fosse assassinada pelo cônjuge em crime passional, ele seria inocentado por ter cometido o crime “em defesa da honra”. Para a lei, era um crime passional; para o homem, era defesa da honra; para ela não era nada, pois já morreu e não teria voz. Como sempre.

Inclusive, para vergonha da ciência, é muito comum que mães de crianças autistas sejam culpadas pela doença do filho. A Psicanálise insiste em afirmar que o autismo é uma psicose causada pela rejeição materna/paterna e, frequentemente, nas clínicas, é a mãe quem paga o pato. Nos anos 40, Leo Kanner, numa releitura freudiana (onde mulher é aquela pessoa sem pênis e o homem é tudo nessa vida), colocou a culpa do autismo nas “mães geladeiras”. Eram mães que tinham dificuldades de brincar com os filhos justamente por eles serem autistas, mas para Kanner, eles eram autistas porque essas mamães monstras não brincavam com eles. Nos anos 60, Lacan apareceria para dizer que não, não eram geladeiras, eram “crocodilas”. Lacan descreveu crianças autistas como “vítimas da alienação de uma mãe psicogênica que é incapaz de se separar de uma criança que é um substituto para o pênis que ela nasceu sem”. Graças aos nossos queridos cientistas, sabemos que o autismo é genético, portanto sua origem não tem hipótese de ser culpa da mãe-geladeira, da mãe-crocodilo, como afirmam os psicanalistas. A mamãe do blog A Lagarta Virou Pupa nos conta como no Brasil ainda é comum que as mães ouçam do pediatra que isso é “falta de estímulo”, “excesso de TV e DVD” e as condições precárias que os autistas encaram na França, por ser um país muito ligado à psicanálise.

Exposto esse quadro de horrores, no qual quem sai de “patinho feio” é sempre a mulher, chego à conclusão que a pergunta certa a fazermos não é se a mulher nunca é culpada, mas sim por que a culpa é sempre da mulher?

Fonte: Cristina Rastafare

Fonte: Cristina Rastafare

Nesse cenário está também a questão do silenciamento,decorrente do patriarcalismo e do machismo enraizados. A mulher é ensinada desde sempre a se calar, submeter, ignorar, “deixar pra lá”.

O pai que diz que “bate porque ama”, “bate para não sofrer mais pra frente” será espelhado mais tarde no discurso do companheiro violento. A filha terá aprendido a se submeter também num relacionamento em que sofre violências – que não precisam ser necessariamente físicas, mas podem chegar a isso ou pior – e se manterá calada sabendo que é “por amor”.

As cantadas de rua, alvo de muitas críticas (finalmente), são outro exemplo de silenciamento da mulher. Ainda que nos incomode, ainda que nos causem medo, ainda que nos causem repulsa ou raiva, aprendemos que o melhor é ignorar. Deixar pra lá. Passarmos quietas e fingirmos que não ouvimos, enquanto o “galanteador” (ou o desrespeitoso que infringiu nosso espaço?) se sobressai na cena: soberano e “másculo”. E continuamos a não responder, porque ainda existe o medo do estupro, da agressão, do revide do macho transgredido pela fêmea que ousou enfrentá-lo.

Fonte: Escreva Lola, Escreva!

Fonte: Escreva Lola, Escreva!

O silenciamento também está presente no parto, nas violências obstétricas. A mulher que não tem voz contra o sistema obstétrico, que não pode dizer “eu me informei e sei que parir de cócoras é o melhor para meu corpo, não quero parir deitada”, a mulher que é obrigada a assumir a posição passiva, deitada na maca, que é pior para o seu corpo e para o procedimento do parto, mas melhor para o médico que vai observar e intervir. A mulher que ouve “na hora de fazer não gritou, né?”, até mesmo de outra mulher, que aprendeu com o modelo vigente a reproduzir essas opressões e perpetuar o silenciamento e culpabilização das suas iguais.

A religião é um dos fatores mais fortes nessa questão. Com um histórico marcante nas questões de gênero, dogmatizando o androcentrismo (homem no centro de tudo) e marginalizando, ou melhor, subalternizando a ele todos os outros (mulheres, crianças, homossexuais), os “não-homens”, ela é um fator decisivo na construção e entranhamento do machismo na sociedade. Ainda hoje se fala da submissão da mulher ao marido, pois é bíblico – justifica-se com o texto de uma sociedade que viveu há milênios atrás, com outros costumes, outros padrões, outras regras.

Em 2013, a Universal lançaria um jornal, que eu mesma recebi na rua, com uma matéria destacada, ilustrada com uma foto enorme, dizendo “Submissão de verdade é liberdade”, falando da mulher que é submissa ao marido. Ainda este mês, ouvindo a rádio gospel com minha mãe – que é evangélica assembleiana – ouvi o VJ do rádio, um pastor, dizendo que o chefe da casa é o marido e acima dele está Deus, o chefe de todos, e todos devem ser submissos aos chefes. A mulher ao marido e o marido a Deus. Em pleno 2015?

Resolver a questão de gênero, de culpabilização e silenciamento da mulher, não é só, então, destruir a igreja e está tudo certo. É uma mudança radical nos pensamentos enraizados há milhares de anos, justificados em vasta literatura (machista) de filósofos e cientistas – marcadamente homens – e apropriadas por um sistema político e econômico que lucra e se aproveita dessas diferenças. Não há, pois, calcinhas anti-estupro? E os ônibus-rosa? E os sprays de pimenta recomendados às mulheres à noite? E o sistema de leis que admitia o crime em defesa da honra e a ideia de crime passional, falava de uma “mulher de bem” e lhe negava o direito de registrar o filho sem a presença do pai (mas permitia ao pai registrar sozinho)? E as cotas de mulheres exigidas, muito recentemente, para que os partidos participassem das eleições (mas que nada mudaram, pois ainda focam homens e usam as mulheres para cumprir a exigência)? Não são tudo isso medidas que remediam a situação, mas não cortam a raiz do problema, perpetuando a culpa das mulheres e transferindo para elas a responsabilidade do crime de outro?

A defesa da igualdade é urgente, é dever de todos, e passa pela queda de todos esses padrões vigentes: religiosos, culturais, políticos e econômicos. Não precisamos de uma sociedade matriarcal ou uma sociedade patriarcal, precisamos de uma sociedade igualitária, onde não sejamos privilegiados ou discriminados apenas por nascer com ou sem pênis, isso Freud não explica. Precisamos sim do feminismo e mais ainda de uma revolução social, econômica, cultural e ideológica para derrubar esses padrões. Façamos valer a máxima: a revolução será feminista ou não será.

Bolsa Família não estimula os pobres a terem mais filhos, diz pesquisa do IBGE

Hum Historiador

Sabe aquele argumento de que o programa Bolsa Família estimula os mais pobres a terem muitos filhos para que possam ganhar mais benefícios do governo? Então, números do IBGE comprovam definitivamente aquilo que já sabíamos: trata-se de puro preconceito e má fé de quem os utiliza.

Na última sexta-feira (27), o Portal Metrópole publicou notícia trazendo os números divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, tendo como base as edições de 2003 a 2013 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), realizado pela IBGE.

O Hum Historiador traz abaixo a íntegra da notícia tal como publicada no site do Portal Metrópole.

IBGE DERRUBA TESE PRECONCEITUOSA DE QUE “POBRES FAZEM FILHOS PARA CONSEGUIR BOLSA FAMÍLIA”
publicado originalmente no Portal Metrópole em 27.mar.2015

Levantamento realizado pelo IBGE revela que foi exatamente junto aos 20% mais pobres do país que se registrou a maior redução no número…

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A criança: incompreendida e ignorada

Frustração. Fonte: http://gracinhatristao51.blogspot.com.br

Casa, conta, carro, ônibus, faculdade, escola, trabalho, almoço, jantar, limpeza, banho, telefone, internet… Filhos. Crianças. Muitas coisas passam despercebidas a todo segundo nos nossos dias. Muitas coisas ainda passam despercebidas do conhecimento humano, da medicina, da pedagogia, da física, da química, da matemática. Há coisas que são quase um pecado por passarem despercebidas.

A criança passa despercebida por quase todos. Alguns médicos, alguns pedagogos, alguns filósofos: algumas poucas pessoas no mundo se atentaram verdadeiramente à criança, sua psicologia, sua fisiologia, suas necessidades. É claro, a ciência já lhe desvendou o corpo, a mente, as doenças que afligem e como tratar. Mas poucos desvendaram o espírito, o que a criança realmente precisa.

Perspectiva. Karigurashi no Arrietty (O mundo dos pequeninos) conta a história de Arrietty e sua família, seres muito pequeninos, que vivem escondidos sob o sótão de uma família.

Perspectiva. Karigurashi no Arrietty (O mundo dos pequeninos) conta a história de Arrietty e sua família, seres muito pequeninos, que vivem escondidos sob o sótão de uma família.

A criança é veementemente ignorada no mundo, que é um lugar de adultos. O próprio cenário é qualquer coisa próxima de um filme fantástico, análogo à Polegarzinha ou João e o Pé-de-Feijão. João é a criança no mundo do adulto, o gigante. As coisas não estão voltadas à sua perspectiva, os assuntos não são dirigidos pra ela, as perguntas não são pra ela e as respostas válidas não são aquelas dadas por ela. É como se não participasse ativamente no mundo. A criança não está no mundo?! Ou somente o adulto é considerado um ser ativo?

Mesmo a interpretação do seu comportamento é vista tendo o adulto como referencial – incapaz de se por no lugar do outro, ignorando a diferença abismal do estágio de desenvolvimento deste e daquele. Por exemplo, a criança que está fora do seu espaço conhecido, com gente desconhecida, está desconfortável e sente falta do domínio sobre um ambiente que conheça (mesmo que esse não esteja preparado para ela e sim, novamente, para o adulto): ela chora! Chora por quê? Porque tudo isso causa frustração, como nos causa também a impossibilidade de fazer algo que muito desejamos. Tentamos e simplesmente não podemos. Frustramo-nos ao ponto de chorar. Mas nós já domesticamos nossos impulsos, nossos instintos; aprendemos que devemos controlar quando estamos no convívio social. A criança não! Ela é transparente como água e dependente do adulto: então chora. Chora e alto, chora forte, soluça, fica vermelha… Porque ali não é o seu espaço, ali ela não pertence, ali não tem autonomia, ali a ordem das coisas não corresponde ao que sua memória gravou, com muito esforço, repetindo o olhar todos os dias. Para a criança, aquela aflição é enorme. E a resposta do adulto para esse comportamento é impaciência, raiva, voz grossa, autoritarismo (muitas vezes, também, violência e castigo). Culpa a criança porque é “mimada” e não a si mesmo, por coloca-la naquela situação, e a resposta é impor que “se comporte” (leia-se: fique quieta e imóvel). A frustração do adulto é compreendida, a frustração da criança é “mimo”. Aliás, para tudo aquilo que o adulto não compreende no comportamento infantil dá-se o nome de “mimo”, a efetiva falta de comunicação e esforço.

O movimento, a experimentação, o uso expressivo dos cinco sentidos é condição essencial deste pequeno ser – pois está ainda em desenvolvimento, conhecendo o mundo ao seu redor. Está se construindo através daquelas experiências: não conhece as texturas, os cheiros, os gostos, a imagem, a causa e o efeito. Para o adulto, este é um estágio já ultrapassado. Aqui o adulto atrapalha, quando deveria auxiliar, pois a movimentação e inquietude (próprias de um ser que está em descoberta e não porque é mal comportado) são inconvenientes ao seu conforto, exigem de si paciência, tempo e empenho. Novamente, a criança “comportada” e “boazinha” que o adulto deseja é a criança imóvel e muda, mas esta não pode se desenvolver naturalmente sob essas condições.

Outro exemplo, que acontece o tempo todo, é a seguinte cena: a criança está entretida fazendo qualquer coisa (abrindo uma porta, vendo um livro, usando um brinquedo) e o adulto, por alguma razão (pra mostrar a alguém, para ir a algum lado de seu interesse) simplesmente a pega e sai. Interrompe o que ela estava fazendo, como qualquer coisa inútil, e a leva consigo. Parece algo bobo, não é? Imagine-se nessa situação, onde você está trabalhando em algo ou fazendo o que quer e alguém simplesmente o interrompe e arranca bruscamente por motivos pessoais. Vou fazer uma analogia boba: é como se o adulto fosse um jogador de The Sims com total controle e poder de escolher, definir e cancelar as ações da criança quando bem entender como se essa estivesse unicamente sob sua vontade, uma sombra de sua existência.

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Acho que avancei demais, preciso voltar um pouco atrás. Pois essa almazinha é ignorada muito antes de tudo isso, começa antes até da sua chegada ao mundo.

O parto! O parto é cercado de muitos mitos, muitas desinformações, muitos interesses políticos e econômicos. A desinformação da mãe – que não é culpa dela, insisto –, a falta de profissionalismo dos médicos e a desumanização do sistema prejudicam a criança. Ignora-se que ela tem seu tempo pra nascer e precisa passar por aquele ritual, a expulsão do corpo, passar pelo sexo da mãe de onde receberá toda proteção que a natureza poderia oferecer, precisa do contato com a pele da sua progenitora para acalmar os batimentos e reconhecer alguém nesse novo mundo. Mesmo quando é necessária intervenção cirúrgica, o correto seria um parto que respeitasse à mãe a o bebê. Idealmente, o parto deveria ser sem drogas, sem cortes, sem intervenções desnecessárias, respeitando o tempo e o corpo de ambos. Mas não é assim. A taxa de cesarianas elevadíssima mostra que a criança é ignorada por mais gente do que se imagina: retirada abruptamente de seu ambiente de proteção, onde se formou e viveu até então no escuro e conforto, e trazida (normalmente) para o local super-iluminado e frio da sala de cirurgia, ou qualquer ambiente hospitalar, sendo manejada indiferentemente pelos médicos, como se fosse mais um objeto e não um ser humano que inicia ali sua trajetória. Procedimentos invasivos são feitos, passa-se a criança de uma mão para a outra e essas são as primeiras horas de vida externa de um bebê. Para tantos objetos temos o cuidado imenso de manejar, até de esterilizar as mãos e usar luvas, mas para o bebê tanto faz. A lógica impressiona. Daí a necessidade de fortalecer os movimentos de humanização do parto: pelas mães e pelas crianças. Já se sabe que a vida psíquica da criança começa desde a barriga e que ela sofre com traumas trazidos desde o ventre por inúmeras razões. Não seria também o parto um momento para se pensar na vida psíquica da criança? Se o estresse da mãe, por exemplo, gera traumas na vida do feto que ainda reside no útero, não traumatiza também o parto antinatural e violento? Não é de se esperar que tenha consequências?

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Não é que a criança seja um ser divino e todos tenham que abdicar de suas vidas para cuidar somente dela, mas, pelo contrário, que esse cuidar não significa termos que abdicar de nossas vidas e sim preparar-nos enquanto adultos e referências de seus mundos.

Agora que fiz esse recorte, podemos prosseguir.

Tenho usado a palavra “ignorar” quando isso, na verdade, não é realmente possível. Não é possível para o adulto simplesmente ficar assistindo a criança chorar, admiti-la explorar fora de seu campo de visão, vê-la descuidadamente quebrar algo enquanto descobre, vê-la tocar aquilo que não deve ser tocado, vê-la tirar do lugar coisas que ele quer que fique ali, vê-la comer o que não deve ser comido… O adulto não fica inerte às ações da criança. É preciso calar, aquietar, sossegar. Mas de que forma isso é feito? Invés de compreender a situação e tentar atender da melhor forma possível, sem prejuízos, o adulto tenta contornar da forma que lhe é mais conveniente. Daí tantas crianças, hoje, apresentadas tão precocemente à televisão, aos tablets, celulares, DVDs portáteis, aos brinquedos que brincam sozinhos. A criança é calada, imobilizada (assim, posta na condição de “bom comportamento”) com algo que a torne expectadora, que prenda sua atenção sem atender aos seus anseios e necessidades. Algo lá dentro ficou lacunoso, ficou incompleto, sem resposta, sem preenchimento.

Fonte: sounoticia.com.br

Fonte: sounoticia.com.br

Assim, sucessivamente, amortizando e sufocando suas necessidades mais básicas, vamos acumulando lacunas no espírito e na mente da criança. A parte complexa é que o ser humano não é unidimensional e atemporal. Ele não existe somente naquele momento e naquele espaço, sendo outro completamente diferente quando em outro instante e outro local. Ele é cumulativo, suas vivências se acumulam e formam aquilo que ele é, constroem sua identidade. Logo, todas essas lacunas, essas falhas, essas não-respostas e incompletudes um dia se traduzirão na personalidade da criança. Crescerá e se formará não somente, mas também sobre isto que o adulto criou sobre si. Ela será também um adulto. E que adulto será essa criança incompleta, proibida de se desenvolver sadiamente nas condições que seu corpo e mente exigem naturalmente?

Portanto, essas questões são do interesse de todos enquanto indivíduos sociais. Não somente dos pais, da família, dos educadores. Bem colocado está no artigo 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente que “é dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária”. Preocupar-nos não só porque integrarão a sociedade enquanto adultos construídos por ela própria, mas antes porque já integram a sociedade, ainda que crianças. Preocupar-nos porque se tratam de vidas, de seres humanos, e isso deveria bastar.

O autoritarismo na educação: por que não formamos mais pensadores?

Obs: Esse artigo está recheado de referências (vídeos e textos) interessantíssimos e, em sua maioria, de não ocupam muito tempo. Recomendo fortemente a leitura/visualização.

Fonte: jornalggn.com.br

Fonte: jornalggn.com.br

“A educação é um ato político, mas antes disso é um ato de amor”, disse Paulo Freire. E bem o disse! Colocação apropriada pra essa nossa escola que, há muito tempo e ainda hoje, continua sendo um lugar de más políticas e vazio de amor.

No desbaratino das informações, no desobjetivo da instituição escolar, perdeu-se a linha de raciocínio: para que serve a escola? O que formamos nas escolas? O que queremos dela? E dos alunos?

Encontramos nas (lotadas) salas de aulas, públicas e privadas, um contingente de alunos e alunas desinteressados, desnorteados e desmotivados. Não sabem por que estão ali (ou sabem: é porque os pais obrigam!) e não querem estar ali. Em contraposição à rua, ao lazer ou a qualquer outro projeto pedagógico/cultural (a aula de dança, de canto, o esporte, etc), a escola é algo negativo na vida do aluno. É uma referência ruim – com exceção dos amigos! São eles a melhor parte da escola! Ou seja, o melhor momento dentro da instituição é o recreio: é estar fora da sala de aula. Não há prazer em estudar.

Não é pra menos. Maria Montessori, em seu livro Pedagogia Científica, fala do esforço dos cientistas (antropólogos, médicos, higienistas) em preparar a escola para a criança: pensaram nos bancos, por exemplo: fixos, para que não se movessem, com a altura certa para que as crianças não desenvolvessem escoliose (!), com abas laterais, para que o aluno não pudesse sair de um lado ou outro. O banco é a melhor representação da escola: pensado para manter o aluno imóvel e para prevenir até problemas de saúde que possam ser causados pela própria imposição rígida. Completamente artificial e estranho ao aluno e sua condição natural enquanto ser humano.

No espaço escolar, imobilidade e silêncio são boas características. Obrigatórias e essenciais para a transmissão do conhecimento. O professor, detentor de todo o saber, é quem vai transmitir tudo que o aluno precisa saber – desconsidera, ele, pois, que o aluno não é uma página em branco e tem experiências trazidas de sua vivência? A escola não é um espaço de debate: a conversa é punível! “Silêncio!”, pedem os professores. O movimento é punível! “Vai sentar no seu lugar”, ordenam os professores. O autoritarismo está em tudo, inclusive e principalmente na falta de liberdade de movimento e de expressão. Tudo que se preza é a hierarquia autoritária do professor e do próprio espaço e o bom comportamento (que se traduz em silêncio e imobilidade) por parte do aluno.

Há alguns dias, durante uma aula na UFMT, a professora (estarrecida por não ser a primeira vez que falava disso) chamou a atenção da turma: “vocês estão explicando e traduzindo o trecho que retiraram do texto, mas eu pedi que refletissem sobre, não que explicassem o que já está lá no próprio texto”. Um colega se desculpou: “desculpe, professora, mas eu vim, e creio que a maioria dos meus colegas aqui também vieram, de um ensino médio em que não devia pensar, devia copiar e resumir os textos dados pelo professor; não fomos ensinados ou estimulados a pensar, aí chego aqui e não sei fazer isso que você pede”. A cultura da memorização e não da produção. É essa a falta de diálogo entre o ensino básico e o ensino superior que tratei em conjunto com meu amigo Sheltom de Aragão no texto “Enem e ensino básico: a educação em crise”.

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É essa, talvez, também a escola que Sir Ken Robinson diz que mata a criatividade. Essa escola deseja a criatividade? Ou deseja a repetição de padrões pré-estabelecidos impostos? Montessori, após anos de estudos e observação da criança, diz que o movimento é condição essencial para a vivência desse pequeno ser em construção. Diz mais: que o caminho do intelecto passa pelas mãos. A construção do saber se dá nos cinco sentidos e não apenas no campo das ideias, a decoreba de textos e o armazenamento que é tido como conhecimento intelectual. Pode a escola limitar o saber à teoria e exigir dos alunos que se mantenham interessados, producentes e apaixonados pelos estudos quando limitam que se movimentem, questionem, reflitam e que estejam em contato direto com seu objeto de estudo?

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Sentados e quietos, desde a mais tenra idade, riscamos por cima dos traços, pintamos dentro das bordas, preenchemos os padrões, cortamos em cima da linha… Fazemos tudo conforme o que foi pré-estabelecido, conforme o padrão. Não criamos: seguimos ordens. Como diz Paulo Freire, a escola é livresca e verborrágica.c21

Se voltarmos uns milênios atrás, na desenvolvida cidade de Atenas, as escolas gregas (scholé) eram espaços abertos em que se estimulavam os debates, defesa de teses, contraposição de discursos, enfim, a retórica e a oratória eram cruciais. As escolas formavam pensadores, formavam filósofos – aqueles que amam o conhecimento, na tradução literária do termo. Para aquele tempo, a retórica era importantíssima tanto para os que quisessem seguir carreira política quanto para os que precisavam, simplesmente, fazer valer seus interesses nas assembleias ou se defender das acusações jurídicas. Falar bem, pensar, argumentar e debater eram pontos muito valorizados na sociedade grega. E a escola de hoje o que precisa formar? O que lhe é programado formar?

O que se perdeu no desenvolver da escola? Talvez com a revolução industrial, a necessidade de mão de obra especializada alimentando os mercados da burguesia, a necessidade de técnicos, tudo isso tenha transmutado a escola de um espaço de pensadores para uma fábrica de trabalhadores? Sobre isso, tratei no artigo “A escola pública é ruim de propósito?”, postado aqui no blog.

A escola é uma gaiola que corta as asas dos alunos e os domestica. E não se engane quem pensa que isto é condição única e exclusiva da escola pública, pois se trata de um modelo adotado e imposto que é seguido também pelas escolas privadas, embora comumente se crie a dicotomia escola pública ruim vs escola privada boa – dicotomia esta que, aliás, serve confortavelmente ao mercado privado. Transformar a educação em mercadoria é uma das coisas mais funestas que concebemos na sociedade, no mesmo patamar, provavelmente, só está a privatização da saúde e, consequentemente, a mercantilização da vida.

Paulo Freire e Maria Montessori têm trajetos pedagógicos bem distintos, mas suas pedagogias andam lado a lado quando se trata de autonomia: eles sabem que foi negada, até aqui, a autonomia ao aluno. A autonomia para estudar, pensar, dialogar, construir, pesquisar, descobrir, ser. E os dois pedagogos trazem propostas que devolvem essa autonomia aos aprendizes, criando métodos e ferramentas que auxiliam no processo de aprendizagem. Para Montessori, o professor é um observador da criança e só deve interferir quando necessário ou quando requisitado. Ele não é a figura central da cena, este é o aluno! Para Paulo Freire e sua Pedagogia da Autonomia, educar não se trata de um ato de transmissão de conhecimentos, mas sim criação de oportunidades para a construção dos saberes. Dois revolucionários exaltados na teoria e ignorados na prática.

Essa escola autoritária que não permite ao aluno se desenvolver e construir sadiamente seus saberes é a mesma escola carente de democracia. Para muitos pode parecer estranho o conceito de democracia na escola, porque não estamos acostumados a ver. Todavia, isso está intrinsecamente ligado à amortização da criatividade. É essa mesma escola autoritária que não permite a criação de grêmios, é a escola que proíbe qualquer ato político por parte dos alunos – como um simples abaixo-assinado –, é a escola que não elege Conselho, que dá suspensões e expulsões compulsoriamente sem justificativa apresentada aos pais, que não sabe lidar com indisciplinas na sala de aula, que esconde o seu regimento, que não elabora as regras junto dos alunos e uma infinidade de outras práticas muito comuns nas escolas brasileiras que dariam uma lista extensa demais para se colocar aqui. No blog EducaForum, são incontáveis os relatos de alunos, responsáveis de alunos e professores que denunciam o autoritarismo dentro do ambiente escolar e que provam, paulatinamente, que a escola não sabe lidar com alunos críticos, inteligentes, questionadores.

Retirando um trecho do artigo “Escola olhando para a pobreza”, do blog citado:

Pedir às classes formadoras de opinião, cujos filhos estudam na rede particular, que se preocupem com a inclusão e a educação dos filhos “dos outros”, é demais… E essa omissão provocou outro fenômeno muito interessante: de “terra de ninguém”, a escola pública virou propriedade da pior classe “docente”, que através da assessoria de imprensa de seus sindicatos convenceu a sociedade de que o fracasso da escola é culpa do aluno e de sua família. Isso mesmo! Aluno pobre, família sem cultura e desestruturada = fracasso escolar. De modo geral, a escola espera que o aluno fracasse e é disso que falamos sempre aqui. Os verdadeiros educadores são a minoria e se calam, esmagados pela arrogância e truculência dos demais.

Também já foi falado, em artigos anteriores aqui do blog, sobre a politicagem exercida sobre a educação enquanto números. Ou seja, a educação usada para propaganda política. Despreza-se a qualidade, o importante é a quantidade para ser usada como fator positivo que se apresenta pra população na “prestação de contas”. Assim, a Escola vai deixando seu viés idealista e pedagógico de lado (pecado!) e se institucionalizando de tal forma que sua única função é a escolarização, a certificação, não a formação em si, a qualidade, o cidadão que formou, o pensador que devolveu à sociedade. Sobre isso, um trecho muito lúcido de outro blog, o Desmascarando a Escola Pública:

Sim, a cada inscrição em concurso, em vestibular, lá está a cópia do histórico de segundo grau. Hoje, é exatamente isso que as autoridades querem. Escolarização. O certificado que se guarda na gaveta. As pedagogas olham a nota e, por ela, formam sua opinião sobre o sucesso do aluno e do professor. As notas vermelhas passam de quatro? Se forem, o professor está errado. O diretor atenta para um número: reprovados. Não saberia sequer dizer qual o resultado das turmas nos exames oficiais, que competências a escola está desenvolvendo, onde estão as falhas, nem elaborar um projeto. Mas o certificado é como o rótulo posto no produto no final da esteira de produção. Só que produto pode ser rejeitado lá fora, e a indústria ser fechada; a escola, ao contrário, acredita que cumpriu sua função ao escolarizar; se não houve aprendizagem, não é algo que a preocupe. Aluno só existe na escola; a vida como membro da sociedade não interessa a ela. Isso tudo não muda. Existia nos anos 80. E hoje aquele tempo é visto como modelar pelas pessoas que atuam na educação. As provas são as mesmas, com as mesmas exigências. Não há construção de conhecimentos ou avaliações autênticas. Todos os parâmetros e propostas curriculares passaram incólumes pela escola. Só o aluno mudou: ele diz que não vai fazer nada do que for pedido. E a escola precisa, a todo custo, escolarizá-lo, mesmo sem uma atividade que corresponda a uma avaliação real. Problemas maiores começam aí: a corrupção hoje está longe de estar na cola. Está profissionalizada. Quesito em que a educação nacional humilharia o resto do mundo nos testes internacionais.

É difícil apontar uma solução para o problema da escola e educação pública, entretanto. Isto porque parece não haver a devida preocupação com o estado atual, como se estivesse num estágio satisfatório: serve bem para formação de mão-de-obra e serve bem ao cenário político. Existem escolas democráticas, existem pedagogias diferentes, existem escolas que se preocupam com uma formação diferente do ensino proposto (verborrágico, livresco, memorizador): mas elas não estão “disponíveis” ao público, não são moldes incentivados, adotados, promovidos, acolhidos pelo Estado. São da iniciativa privada. Só tem uma educação diferenciada quem puder pagar por isso, quem puder arcar com o preço. A escola mais idealista que utiliza uma linha pedagógica que foge à tradicional é também uma bolha social, é elitista. São exemplos, no Brasil e no mundo, as escolas Montessori, as escolas Waldorf, a escola Summerhill, a Escola da Ponte (uma exceção, pois integra o sistema público de ensino há algum tempo recente), entre outras tão ilustres quanto.

Portanto, um novo panorama é possível e as críticas, ferramentas e contribuições pedagógicas estão aí, extremamente acessíveis. Bastam interesse e investimento do Poder Público e uma população consciente da importância dessa renovação no modelo escolar. Sigamos o exemplo da Holanda, que utiliza o método Montessori nas escolas públicas. Ou, melhor, da Finlândia, que – embora independente há apenas 90 anos – ocupa sucessivamente o primeiro lugar do PISA (o Brasil está em 52º de 56 países). O país conta com 98% dos jovens na rede pública de ensino, baseia sua educação na autonomia e liberdade, alimentação e material escolar são gratuitos, 100% subsidiados pelo governo, valorização e qualificação do professor – e isso reflete na qualidade de ensino, pois as escolas têm autonomia em compor o currículo e os professores têm liberdade metodológica para colocá-lo em prática (o ministério de educação finlandês não inspeciona desde 1990).

Esse post vem em uma data pertinente, pois hoje, dia 26 de março, é o Dia Nacional da Luta pela Educação. E você? Tem lutado por ela?