Minha língua mãe é uma língua estrangeira

Aline Rossi. Brasileira por nascimento, crescimento e excelência. Falante da língua portuguesa. Por quê?

Na Inglaterra, falar inglês; no Japão, falar japonês; na Grécia, falar grego; e no Brasil, falar português. Não que seja um problema, mas nem por isso deve ser uma questão ignorada; mas por ser “polêmica” e levantar tantas divergências, acaba sempre em procrastinação e nunca em conclusão. É um projeto sempre engavetado.

NA ESCOLA

 

Quando pequena, ao longo dos anos escolares, aprendi que os portugueses colonizaram o Brasil e acabamos por falar português – embora gostasse de aprender as línguas indígenas, das quais só conhecia algumas palavras que sobraram e que eu ouvia e falava no meu dia-a-dia: pacu, mandioca, cupim, abacaxi, guri, xará e por aí vai.

A partir do momento que conheci os pronomes e verbos, passei a ter problema com as pessoas com quem se fala: o “tu” e o “vós”. Conjugar verbo para mim, para ele/a e para nós era fácil, porque usava essas formas todos os dias. Mas como sou natural de Cuiabá (Mato Grosso), não lembrava de ter ouvido ninguém, na minha longa vida de criança estudante, falar “tu és um bocó” ou “vós sois uns bocós” – que, por acaso, até ficava engraçado –: minha mãe sempre dizia “você é uma bocó” ou “vocês são uns bocós”. Por que, então, eu não aprendia a conjugar o “você”? Por que ele não estava entre a lista de pronomes? Por que eu tinha que decorar aquelas coisas que eu nunca ouvira ou vira no meu cotidiano? Por que nem os meus professores falavam aquelas coisas? Por quê?

As coisas não melhoraram quando os pronomes resolveram se unir aos verbos com seus hífens. O certo, diziam os professores, era falar “empresta-me a borracha”; mas todos à minha volta pediam “me empresta a borracha, Aline?”. Quando descobri os piores então…! “Apressar-me-ei para não atrasar”: nunca vi mais gordo. Sempre falei assim, com uma cambada de verbos: vou me apressar pra não me atrasar. Me desculpem, professores, mas são frases completamente diferentes.

Eu sabia que falava língua portuguesa, mas nunca tinha ouvido um português falar. Ou eu falava uma língua diferente ou ninguém da minha comunidade tinha ido à escola.

FACULDADE

Talvez ninguém prestasse atenção nessas peculiaridades linguística, mas foi por causa delas que entrei na faculdade de Letras, foco em língua e literatura portuguesa. Segunda comprovação: mesmo na faculdade, ninguém usava a segunda pessoa do plural. Já a segunda pessoa do singular (tu), vi que algumas regiões brasileiras falavam, mas que conjugavam de forma diferente daquela proposta pela gramática.

Com a cabeça cheia de teorias de diversos ramos da linguística (principalmente da sociolinguística), de estudos do modernismo na literatura brasileira e dos enérgicos textos de Marcos Bagno, comecei a desconfiar daquela suposta língua portuguesa. Tinha alguma coisa errada.

Ficou mais interessante quando ganhei a bolsa do Programa de Licenciaturas Internacionais: eu ia para Portugal, a pátria-mãe da minha língua, fazer graduação-sanduíche em Língua e Literatura Portuguesa. Podia ser mais conveniente?

O INTERCÂMBIO

 

Para o campo da linguística, as coisas ficaram mais complexas. No Brasil, como disse antes, sempre ouvi e reproduzi que falamos “língua portuguesa”. Em Portugal, no entanto, eles diziam “ela fala brasileiro” – comecei a reparar que também os softwares, jogos e programas, selecionavam a língua de instalação diferenciando entre PT-PT e PT-BR.

Isso era muito comum nas conversas informais – o que não implicava graus de instruções baixos da parte dos meus amigos, ouvia isso mesmo na faculdade –, quando a covnersa exigia mais cuidado da parte do falante, nas aulas de linguística (por exemplo), eles falavam “a variante do português do Brasil.

Eles marcavam a diferença. E não sei se eu discordava, porque elas eram muito mais perceptíveis agora que estava aqui e ouvia a forma deles falarem. E o português, na sua terra-mãe, era complicadíssimo de entender nos primeiros meses de adaptação, era preciso muita repetição e muita atenção para saber o que eles estavam dizendo – mesmo entre os professores. Nos filmes, precisava das legendas.

As conversas eram motivos de risos e de muita curiosidade, prestando atenção nos vocábulos novos (fixe, que para nós seria o equivalente da gíria legal), nos vocábulos velhos com formas diferentes (fato aqui é facto, e fato é um conjunto de roupas – fato de treino, por exemplo, ou terno), na aplicação dos tempos verbais (enquanto eu estava falando, eles estavam a falar; o meu gerúndio parecia não existir aqui, completamente substituído pelo infinitivo antecedido da preposição “a”) e outros aspectos interessantes que eu poderia descrever exaustivamente e fazer um estudo só para eles.

Foi ainda motivo de riso para muitos brasileiros, descobrir que quando queriam falar “a água” eles adicionavam uma vogal /i/ e juntavam tudo numa palavra só: aiágua. Mais ainda quando ouvimos trocarem o /v/ por /b/: baca (vaca). E transformar coração em coraçom.

De fato, eram muitas diferenças. Comecei a sondar meus amigos, perguntar o que eles achavam sobre a separação da língua: transformar a variante numa língua independente: a língua brasileira. Todos aceitavam que as diferenças eram muitas, indiscutivelmente, mas também era unânime o levantar da questão: eram suficientes para separar as duas línguas?

A partida, grande parte dos portugueses que eu sondava diziam que não. Que isso era desnecessário e só iria causar mais distanciamento entre os povos. Mas isso me era muito contraditório, uma vez que eles eram sempre os primeiros a demarcar as diferenças e nos taxar como falantes de brasileiro ou “brasileirês”. Posso estar sendo equivocada, mas parecia conter muito orgulho no discurso deles. Nada melhorava quando via, em muitas discussões na internet e também nas ruas, portugueses dizendo para estrangeiros não aprenderem a língua com os brasileiros, pois falávamos tudo “errado”.

Não parecia errado para mim, todos a minha volta falavam daquela maneira. E em todas as outras regiões também. Então todos os brasileiros falam errado? Se sim, então não falam aquela língua. Talvez não fosse considerado errado se eu não tivesse que seguir a norma de um país do outro lado do oceano com o qual eu nunca tinha tido contato. Talvez não fosse errado se assumissem que todos no meu país falam assim na realidade.

Cheguei à conclusão que tem sim diferenças o bastante e se não são consideradas suficientes é só porque ainda tentam, de forma utópica e forçada, prender a minha língua – que já está há/em muito modificada nos seus poucos séculos de vida – à língua dos meus irmãos lusitanos.

EXPRESSÃO PORTUGUESA?

Para endossar meu ponto de vista, farei um salto para as literaturas africanas, focando num país específico: Angola. Esse país passou pela colonização portuguesa desde o século XIV e só se tornou independente na última quinzena do século XX (em 1975) com a queda da ditadura salazariana em Portugal. Portanto, assim como o Brasil, Angola também adotou o português como sua língua oficial, resultado da colonização.

No entanto, enquanto no Brasil as línguas indígenas desapareceram ou foram restritas e reduzidas a pequenos grupos, na Angola mantiveram o uso das línguas que já lá estavam antes dos portugueses (chamadas de línguas nacionais), como o umbundu, kimbundu e o kikongo. Mesmo assim, por motivos históricos, políticos, econômicos, entre outros, a literatura produzida em Angola – na sua primeira fase, uma literatura de intervenção forte que funcionou como arma importante para o estímulo do pensamento e dos movimentos independentistas – era produzida em língua portuguesa, mas recheada de palavras e expressões das línguas nacionais, dificultando a compreensão para os colonizadores e facilitando para o povo angolano: uma espécie de literatura codificada.

Assim sendo, foi rotulada de “literatura africana de expressão portuguesa”.

Pronto, agora vocês estão contextualizados. Então vou citar a 1ª Bienal do Livro e da Leitura, que é meu real interesse nesse tópico e que começou no dia 14 de Abril e vai até o dia 23 de 2012. Na Bienal, houve um seminário sobre literatura africana para o qual foram convidados diversos escritores de representação importante, entre eles Ondjaki.

Na discussão, o autor chamou a atenção de todos negando o rótulo de “escritor de expressão portuguesa”: “eu sou angolano, de expressão angolana”, disse ele. Mais a frente, depois de dizer que escreve suas obras usando a “Língua Desportuguesa”, Ondjaki também diz que a língua é um idioma artístico no qual ele tem necessidade de escrever.

Vou ressaltar as palavras-chave mais importantes até agora: expressão portuguesa, língua desportuguesa, idioma artístico.

LUSOFONIA, LÍNGUA E PODER

“Não sei o que é lusofonia. Para ir a qualquer outro destes países eu preciso de visto. Por que um senegalês é francófono e um francês não é senagalófono? No meu caso, ou sou angolano ou sou cidadão do mundo”, Ondjaki na Bienal do Livro e da Leitura.

A língua portuguesa é a única língua falada nos 5 continentes e por países que não fazem fronteira entre si; resultado da assombrosa expansão marítima do império português na era dos descobrimentos. E, para quem não conhece, a lusofonia é um conceito ou uma designação que abarca os países nesses cinco continentes, seja o português sua língua materna ou não.

Não vou apresentar isso como verdade suprema, desde o começo esse artigo traz a minha opinião e só. Sendo assim, a lusofonia é, para mim, outra coisa apaixonada e utópica, um conceito muito vago e falho que não é suficiente para colocar quase 273 milhões de pessoas das mais variadas etnias e culturas num mesmo barco. Impossível.

Mas para muito além do conceito apaixonado de caráter cultural, a Lusofonia me parece uma jogada política. Uma carta na manga do Estado Português. Por quê?

Língua é poder. Indiscutível. Assim como o inglês é, hoje, a “língua mundial”, refletindo a importância e influência do Reino Unido e dos Estados Unidos atualmente, e também como já o foi a língua francesa – que era a segunda língua ensinada nas escolas na época da 2ª Guerra Mundial. Você pode estar no Japão ou na França: se não sabe a língua oficial daquele lugar, fale em inglês que eles te entenderão, só não pode é ficar sem se comunicar. Aqueles que deixam seus países e vão para o “exterior”, sentem a necessidade de saber a língua inglesa para se comunicar. É como se faltasse um braço.

Portanto, se cada um dos países que têm, hoje, como oficial a Língua Portuguesa tornasse uma língua nacional independente ou assumisse apenas aquela de raiz como língua oficial – por exemplo: Umbundu na Angola, Tétum no Timor-Leste, a Emakhuwa em Moçambique, e o Crioulo Guineense em Guiné-Bissau –, Portugal perderia imensamente, considerando que tem um território diminuto e conta apenas com cerca de 10 milhões e meio de habitantes. Uma dimensão tão pequena tornaria a língua portuguesa, então língua oficial tão somente de Portugal (nessa suposição), tão ou menos influente/importante que a língua húngara, que tem cerca de 14 milhões de falantes. E, convenhamos, não é todo dia que vemos um falante de húngaro.

Sendo o Brasil, por outro lado, o maior país “lusófono” do mundo, é também responsável por grande parte (pela maior parte, aliás) da influência da língua portuguesa: é a variante da língua portuguesa mais estudada, lida e escrita no mundo.

Depois de tudo isso, não preciso falar da influência política que exerce esse mundo que é o Brasil, responsável por 85% dos falantes da língua portuguesa.

Portanto, a lusofonia é aquela “carta na manga” na medida em que é, ao meu ver, uma tentativa quase desesperada e forçosa de manter a união de países que estão espalhados por continentes variados e separados por identidades culturais muito peculiares e diferentes. Logo, questões que vão muito além da geografia.

Trata-se de uma evolução natural que as línguas tomarão e que escapam às mãos políticas, não importa quantos acordos ortográficos sejam firmados na tentativa de mantê-las unidas. A escrita não acompanha a fala.

O QUE O BRASIL GANHA COM ISSO?

Influência, representação e um traço identitário que já o pertence, mas que tentam, loucamente, apagar ou disfarçar. Pagamos por isso sendo marcados sempre como “aqueles que falam errado” ou que “degradam” a língua portuguesa.

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2 comentários

  1. Oi Aline.
    Sou moçambicano e simplesmente amei o post. Concordei com cada linha escrita.
    Meus sinceros parabéns. Muitos parabéns.

    • Oi Idelson!! Que visita boa! É bom ouvir isso de alguém que não seja do meu país, mas que também tenha língua portuguesa de onde vem. Os amigos portugueses não gostaram muito do meu post rs

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