Ler e questionar: a verdade é sempre parcial nos registros

“Raramente a verdade é pura. E nunca é simples”.

 A frase acima é do autor Oscar Wilde e vai servir de ilustração e abertura pra esse post. Não vou filosofar sobre o que é verdade ou o que é mentira, mas… Você questiona o que lê?

Já vou adiantando: as pessoas tem uma mania bem engraçada de desconfiar de tudo o que os outros falam, mas acreditam em tudo o que escrevem. Por quê? Só por que está escrito é verdade? Isso é sempre um milhão de vezes pior quando se trata de jornal, revista ou qualquer coisa burocratizada que pareça trazer um certo status de importância.

Eles não são os donos da verdade e você não é nenhum idiota para aceitar tudo calado.

Sim. Em tese, as matérias deveriam trazer fatos verídicos. Algumas não levam isso tão a sério, outras encaram como um fardo obrigatório e, apesar de transmiti-los, distorcem o máximo possível para que apareçam como eles querem. E este último é o mais comum.

Vamos pensar um pouco… revista, jornal ou periódico, nenhuma dessas publicações surgiram do nada. Alguém teve a ideia de publicar seus pensamentos, opiniões ou notícias e resolveu criá-las. Mas sabe aquele dito popular: “não inventa, só aumenta”? É bem por aí. Adaptado, quero dizer. O dono dessa compilação de publicações, a direção, a equipe “de cima”, tem uma visão sobre os fatos. O periódico é dele e ele publica o que quiser e como quiser. Acha que o dono aceitaria que algum escritor colaborador desse periódico publicasse algo que o prejudicasse ou fosse contra a ideologia dele? Claro que não! Portanto, os colaboradores trabalham pra ele. Dependem dele. Publicam conforme as diretrizes dele.

Por isso é importante questionar. Não é por ter vindo de alguém letrado e bem informado que tudo o que esse alguém disser será verdade. Caso contrário não haveria discussões e a faculdade não seria o maior espaço dialético. Não haveria pontos de vista! Você não é obrigado a concordar com ele, só porque ele é o escritor e você o leitor.

QUESTIONE!

 ANALISANDO ALGUMAS REVISTAS BRASILEIRAS

Só para salientar essa visão, recolhi capas de 4 revistas brasileiras bem conhecidas. São elas: a Isto É, Época, Carta Capital e Veja. Vamos analisar o que eu disse até agora a partir da capa das revistas.

1. Revista Veja

Como não é novidade pra ninguém, a revista Veja assume notadamente a posição do bloco de direita e é uma aliada fortíssima do partido tucano, o PSDB. Não posso provar nada, mas também outra “desnovidade” que esse partido compra muitas das informações vendidas pela Veja. Portanto, você pode achar infinitas capas e notícias falando contra o PT, o partido da esquerda, de Lula e Dilma. Você pode absorver essas informações e, ao final do artigo, concordar veementemente com tudo o que dizem, mas… não é questionável? Eles jamais apresentariam boas notícias do PT, porque apoiam o maior rival desse partido. Logo, só publicam artigos que convêm ao seu posicionamento e que possam favorecê-los.

2. Revista Carta Capital

Essa é exatamente o oposto da revista anterior. Enquanto a Veja é direitista, a Carta Capital é assumidamente do bloco de esquerda. Apesar de já ter emitido publicações que apontavam falhas no governo petista, a Carta se posiciona (na maioria das vezes) bastante favorável ao partido. Recentemente, inclusive, houve uma balbúrdia por conta de uma notícia afirmando que a revista era ligada (diretamente) ao PT. Aliás, essa capa que postei acima foi alvo de críticas intensas dos editores da Veja, que se doeram até os ossos por conta da “notícia atacando o Serra”, e principalmente dos deputados do PSDB, como vocês podem ver clicando aqui. Repito o que eu disse na nota anterior: você pode concordar com o que a revista diz, mas ela jamais falará bem do PSDB e de políticas direitistas, porque sua ótica é exatamente o contrário. Você pode achar que eles apresentam verdades, mas, claro, é a verdade deles.

3. Revista ISTOÉ

Creio que a capa já diz tudo (ainda mais depois de termos passado pela revista de direita e a revista de esquerda). A Revista ISTOÉ não apoia nem um nem outro, aparece aqui lançando a candidata mais “alternativa” das eleições passadas, se é que vocês se lembram. Reparem no canto, considerando que é a CAPA e que vem em letrinhas brancas num fundo preto, o comentário destacado: “o voto não é de Lula nem Serra”. Ressalto logo que a ISTOÉ também tem a sua versão focada em economia, a ISTOÉ Dinheiro, que tem como principal rival a revista Exame, da Editora Abril (editora que publica a Veja).

4. Revista Época

Como última ilustração das comparações e não menos famosa, a Revista Época. Não preciso dizer o posicionamento político dessa revista, basta dizer a quem pertence: Globo. Como já bati na tecla muitas vezes: se você simplesmente acredita no que lê, sem questionar, será levado pela verdade do outro, que não necessariamente é a realidade ou verdade de fato. Vamos analisar pela capa dessa edição (de 10 de maio) como eles “preparam o pasto” para o leitor e te induzem, através do jogo de palavras, a aceitar a visão deles.

Primeiramente, o título da revista, que é o que vai direcionar e guiar a sua leitura e informação:  1Quem manda mesmo nessa máquina, fazendo clara referência ao governo brasileiro, como vemos no mapa desenhado com engrenagens e etc. Essa chamada do título será relacionada logo que você ler o próximo tópico escrito na página: 2. “como os sidicalistas ganharam poder, influência e 2 mil cargos na Era Lula”. Já sabemos quem vai ser o alvo da vez. Portanto, temos até aqui: sobre o que vão falar e de quem vai falar. O próximo tópico, em vermelho e reivindicando exclusividade, é: 3. “o país perde R$ 41,5 bilhões por ano para a corrupção.”. Fique tranquilo que o seu cérebro vai fazer o trabalho e a ligação por você: o que querem falar, a quem querem acusar e do que querem acusar.

Só para concluir o post, espero que tenha ficado clara a relação entre escritor x escrito e como isso exige cautela no momento da sua leitura. Como os registros refletem diretamente o posicionamento de quem está a escrever e como isso molda de forma parcial a verdade que está posta em causa (ou que está sendo vendida). Antes de absorver essa informação e sair gritando, como verdade absoluta, aos quatro ventos (porque é o que fazemos com o conhecimento que temos: passamos pra frente, por querer ou sem querer), pense a respeito, reflita e avalie criticamente aquela informação. É sempre importante saber o que você está lendo, qual a finalidade daquilo e quem foi que o escreveu. Isso tudo é o texto, não só letras e frases organizadas em parágrafos e espaçamentos.

Se você não questiona o que lê, o que vê e o que ouve… você se torna um alvo facilmente alienável.

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