Novo Acordo Ortográfico: mitos e desavenças entre Brasil e Portugal

 Semana passada fui com um amigo meu até a Feira do Livro, que está acontecendo aqui em  Coimbra (Portugal), e chegamos a tempo de ouvir um quadro que estava sendo apresentado sobre o Novo Acordo Ortográfico. Como bons estudantes da língua portuguesa, ficamos para observar – claro!
Três pessoas sentavam-se no palco de apresentação: uma mulher que só segurava o notebook, um senhor de idade que deve ter falado, mas não ouvimos (não chegamos no começo) e um outro que estava apresentando no momento. Para não interromper ou atrapalhar, eu e Sheltom ficamos em pé, no fundo, acompanhando a apresentação e já ficando indignados com o que o homem dizia.
Vou ressaltar que as cinco ou seis fileiras destinadas à plateia estavam quase todas cheias, com exceção de alguns lugares na primeira fila, e eram todos visivelmente portugueses. E foi perceptível como a nossa presença, ao fundo, sem esconder a expressão indignada, incomodou o homem que apresentava, porque ele começou aparentar alguns sinais de nervosismo e lançar olhares frequentes em nossa direção. Decidimos sentar. Na frente, claro, primeira fileira. Porque eram os únicos lugares vagos. Isso deixou-o um pouco mais desconfortável.

Por quê o desconforto?

Somos brasileiros e isso era tão visível quanto a lusitanidade da plateia que assistia (ainda mais porque o senhor Sheltom vestia a camisa do seu time de futebol, Vitória). E o discurso daquele apresentador era um ataque frontal ao novo acordo ortográfico, marcando como jogada política que favorecia exclusivamente o Brasil. Como assim, rapaz?!
O homem discorria sobre como políticos não deviam alterar a língua quando não tinham conhecimentos científicos que os qualificassem para tal (parte que eu concordo com uma certeza que ninguém me tira) e que o acordo tinha sido uma mera troca de contrato, no qual Portugal vendera sua língua para o Brasil a troco de favores econômicos. Frisou ainda, com claras palavras, que isso não passava de um abrasileiramento da língua e que era uma destruição absurda da língua portuguesa – adicione aqui fundos e fundos de nacionalismo e preconceito linguístico , além de como o acordo era incoerente na sua consistência e não se autossustentava. Como assim, rapaz?!²
Adianto agora, para evitar mal-entendidos, que não sou a favor do novo acordo. Também não sou nenhuma resistente linguística, sou antes indiferente por achar desnecessário – embora compreenda a finalidade utópica para qual o estipularam. Mas agora vou atacar o discurso desse fanfarrão que vitimizou Portugal, colocou o Brasil de carrasco e mascarou o Novo Acordo com muito, mas muito mesmo, preconceito linguístico.


O Novo Acordo Ortográfico não é tão novo assim. Na verdade, trata-se de um acordo existente desde 1990 e que só entrou em vigor recentemente, em 2009, embora ainda haja resistência. O Brasil constitui 85% dos falantes de Língua Portuguesa, como já tinha dito num outro artigo que postei aqui no blog, e isso desembocou numa ortografia diferente legislada – diga-se de passagem que a Língua Portuguesa era a única língua com duas ortografias oficiais (o inglês e o castelhano, mesmo com divergências, não tinham uma ortografia que fosse objeto de regulação estatal legislada). Portanto, para acabar com essa graça, já que era tudo a mesma língua apesar das variantes, unificaram as ortografias para aumentar a representatividade da língua – com um dedo bem grandão da política externa aqui, óbvio.
Esse acordo não foi uma barra-forçada da parte do Brasil, nenhum representante foi obrigado a aceitar essa Nova Ortografia de cara fechada e pensando “poxa vida, vai mudar tudo que eu aprendi até agora”. Não senhor, bonitões. O acordo foi um tratado internacional e foi assinado por representantes oficiais da Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe em Lisboa, em 16 de dezembro de 1990. Portanto, um de cada país, pessoas bem grandinhas e educadas que sabiam o que estavam fazendo.
O acordo foi uma jogada política? Claro que foi! Para beneficiar só o Brasil? Acho que não, campeão. A unificação dá maior prestígio pra língua, aumentando a sua representatividade e sua expressa porcentagem significativa de falantes no mundo. Portanto, uma ótima jogada de política externa para todos os países de língua oficial portuguesa e também (ou principalmente?) para Portugal, que é sabidamente a mamãe da nossa língua.
Reclamar de algumas consoantes que caíram ou surgiram nas palavras e dizer que isso é abrasileiramento é muita idiotice, me perdôe a sinceridade. Recepção, no Brasil, se fala com o p bem explícito, já em Portugal não, nem pronunciam o coitado do fonema oclusivo (receção). Portanto, se fosse o caso do desaparecimento do p, isso seria um abrasileiramento? Acho que não. Ainda mais se eu contar pra vocês que essa consoante em uso-e-desuso não caiu, mas tornou-se opcional. Você pode pô-la ou não. Trema é consensual: poucos usavam. Quanto aos hífens e prefixos, posso garantir que ninguém no Brasil está feliz com isso também. Não é uma “norma brasileira específica”, sabe?
Portanto, o senhor apresentador tem todo o direito de ir contra o Novo Acordo Ortográfico, de incitar a resistência e dizer “vamos pressionar até que deixe de vigorar” – e eu, como boa separatista da língua que sou, daria todo meu apoio e diria: que lindo! –, mas não coloque Portugal como vítima, não jogue a culpa em cima do Brasil e não critique sem conhecimento (já que fez questão de dizer que sua formação científica não era nessa área). Pense que sem o novo acordo e com o distanciamento cada vez mais acentuado da variante brasileira da sua língua portuguesa, o Brasil viria a conseguir a independência linguística com que sonham muitos (socio)linguistas da atualidade e Portugal perderia 85% da representatividade que tem hoje. Língua é política, língua é poder e língua é, acima de tudo, identidade. O Brasil ganharia muito mais com o afastamento das línguas do que com a unificação delas, acredite. Portanto, se essa jogada política pende pra algum lado da balança, com certeza não é o lado brasileiro.
Me chateia que esse discurso seja repetido de boca em boca, que tenha ganhado expressão nas ruas e nas universidades, que deveria ser um espaço de diálogo inteligente e não reproduções impensadas. Fico ainda mais chateada quando reconheço, no discurso de um falante lusitano, o preconceito declarando abertamente que o falar brasileiro suja ou desfigura, de alguma forma, a língua de Camões. A beleza da língua está nas suas diferenças. Como qualquer outra coisa, o sempre igual cansa e o novo encanta. Mas o novo é diferente e para além de encantar, assusta. Mas nunca suja, porque são muito diferentes em si e não se sobrepõe.

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Um comentário

  1. Eu,
    Detestando quem difere de mim.
    Eu, tão cheio de ego,
    Eu, e meu altivo coração.
    Eu, gritando bem alto:
    Separação!

    Eu, você, nós, e os nossos preconceitos,
    Ostentando no peito,
    Toda esta ostentação
    Junto com a petulância e a arrogância,
    Sem essa de “nosso irmão”!

    Mas, e quando tudo acabar?
    E se o mundo acabasse amanhã?
    Pois se o além é o nosso destino,
    O que de mim restará?

    Renascerei noutro corpo saudável,
    Ou quem sabe num canto da terra
    Onde a fartura abundante
    Seja o mote a me exaltar

    Quem sabe lá, não haja nenhum diferente.
    Para sorver este ego e sentir-se o rei
    Para que não repare o quanto é estranho
    Igual a quem critiquei.

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