Deficiências do ensino brasileiro e propostas de aplicação

Como estudante e futura professora, vejo alguns pontos (entre tantos outros) no ensino brasileiro que podiam ser melhor trabalhados. Vou partir de onde brotaram as ideias…

OBSERVANDO O ENSINO EM PORTUGAL

Cursando disciplinas pedagógicas e em constante contato com os amigos lusitanos, os brasileiros que aqui estão – pelo mesmo programa de intercâmbio que eu, voltado aos cursos de licenciatura e com o propósito de formar professores – ficam sempre surpresos quando descobrem o modelo de ensino utilizado em Portugal. Isto porque o ensino fundamental e médio é pré-universitário, ou seja, eles optam por grandes áreas de afinidade de estudo para ter um ensino já direcionado para o que irão escolher na faculdade. Assim, podem escolher entre ciências e tecnologias, artes visuais, ciências sócio-econômicas e línguas e humanidades. Não há uniformidade nos assuntos lecionados; quem tiver ido pra área de ciências e tecnologias terá um currículo muito mais forte nas áreas exatas e biológicas, embora não deixe de ter o currículo essencial das outras disciplinas (e.g: eles terão, obviamente, aulas de literatura e língua portuguesa, mas não da mesma forma que será lecionado para a turma que escolher línguas e humanidades, que terá um ensino mais aprofundado nessa parte).
Hipoteticamente, a ideia é bastante boa e deve gerar (novamente, em tese) alunos mais bem preparados para a área de atuação. Mas será que uma criança entre seus 12 e 15 anos sabe exatamente o que quer seguir? A indecisão e a mudança de opinião é algo comum nessa fase e uma escolha mal feita resultará num caminho sem volta e criará exatamente o contrário da ideia inicial: alunos bem instruídos que detestam o que fazem.
Vamos supor um aluno que goste muito do seu professor de Biologia e, influenciado por isso, opta pela área de Ciências e Tecnologias. Mais tarde, esse mesmo aluno descobre que não é aquilo que quer seguir e, supondo, queira estudar Educação Artística. Mas já está nos exames finais e a ponto de entrar pra faculdade. Uma vez que seu currículo do ensino fundamental e médio apontavam para a área oposta, ele têm uma deficiência de muitos anos de ensino na área de Artes, não tendo a base que necessitaria para entrar no curso que quer.
Observação: quando eu disse que o modelo de ensino é pré-universitário, referia-me também ao fato de a entrada na faculdade depender das suas notas e escolhas feitas no ensino médio. Daí esse último parágrafo sobre o aluno de ciências que queria cursar artes.

Enfim, ainda assim, muitos dos estudantes brasileiros que aqui estão, maravilhados com o sistema de ensino daqui, pensam que o nosso deveria ser feito da mesma forma. Discordo. Tanto pelas razões já apresentadas quanto por não me arrepender em nada do ensino que tive. Quanto menos idade tivermos, maior é a capacidade de absorção de informação do nosso cérebro. Passei pelas matérias sem problemas, apesar de serem muitas e todas, supostamente, aprofundadas na medida do possível.
No entanto, acho que poderíamos aprender algumas coisas com o modelo daqui e aplicar, de forma diferente, no Brasil. Por isso, lá vai minha opinião e minhas considerações.

PROPOSTAS PARA O ENSINO FUNDAMENTAL E MÉDIO

Como já falei, não aprovo o modelo direcionado de ensino porque dando liberdade ao aluno de escolher agora, em meio às suas dúvidas de adolescente, tira a liberdade de escolher depois, quando já sabe do que gosta e do que não gosta. E aí será tarde demais, danou-se o projeto todo!
E mesmo assim, acho que o ensino brasileiro tem uma deficiência notável na parte prática. A não ser que sejam alunos de caríssimas escolas particulares, as crianças quase nunca têm a opção de ter uma formação extracurricular ou paralela à formação teórica dada em sala de aula. Estou falando de ensino in door e ensino out door. E por que não proporcionar isso?

PRIMEIRA PROPOSTA

Sou a favor da implementação em todas as escolas de atividades extracurriculares divididas nas grandes áreas (humanas, exatas e biológicas), que não sejam de escolha obrigatória e irrevogável por parte da criança. Mas que ela se sinta à vontade para escolher e experimentar todas as áreas de forma continuada, para que possa desenvolver, pouco a pouco, habilidades em todas até poder definir qual a área com que tem mais afinidade – e não escolher porque nessa disciplina o professor era muito mais legal e, consequentemente, acabava gostando, mas só até trocar de professor (sabemos que isso acontece muito).

SEGUNDA PROPOSTA

A segunda proposta não é ideia minha, mas de um amigo que mora comigo aqui em Portugal e está pelo mesmo programa de intercâmbio – Jefferson Nascimento.
O que ele ressaltou (e nem precisava, porque é tão claro como água) é que o ensino brasileiro perde loucamente na área de pesquisa científica e tecnológica quando comparado a outros lugares. Perde na falta de incentivo, perde no estímulo, perde no investimento e perde no planejamento. O que temos nessa área é restrito à poucos e só começa muito tarde, no nível técnico ou ensino superior. Deveria existir mais e começar antes.
Sabe aquela Feira de Ciências que tem uma vez por ano na escola? Pois é. Lembro de quando andava em fase escolar e adorava feira de ciências, hora de fazer pesquisa, de montar trabalho em equipe e apresentar. Todos os meus amigos adoravam. Mas era uma vez só por ano e pouca prática não era suficiente para desenvolver habilidades/afinidades e ainda fazia com que esquecêssemos facilmente como nos sentíamos bem fazendo aquilo.
Portanto, Jefferson propõe que seja desenvolvido nas escolas uma espécie de Feira de Ciências Contínua, estruturada em competições por níveis. Visando projetos de verdade, adequado à idade das crianças, para promover o gosto e o incentivo à pesquisa científica e tecnológica. Assim, teriam projetos de feira de ciências montados e apresentados nas competições interescolares a nível municipal, regional, estadual e nacional. Não seria bom?
É difícil alcançar um nível “asiático” nessa área, mas o fato de dar passos à frente já é bastante bom. Todavia, por enquanto, estamos estacionados. A proposto de Jefferson, se implantada, deveria dar mais estímulo, incentivo e investimento do governo na área científica e tecnológica (consequentemente na educação também, pois é um projeto desenvolvido nas escolas e que exige estudos para que seja possível). Ciência, tecnologia e educação são uma ótima base para um país evoluir. Diria até que são essenciais.

TERCEIRA PROPOSTA

Toda escola deveria ter obrigatoriamente a disciplina Política, tão importante quanto ter aulas de matemática ou português, se considerar que a escola forma cidadãos. O ensino deve ser sequencial e adequado às idades do público-alvo. Por exemplo: Ética e Sociedade, Introdução à Política, História da Política Brasileira, Política Econômica, Sócio-política, Política Global, etc. Algo do tipo.
Por quê? Eu preciso responder? Não há como se abster da política, ela é o teu meio, a sua vida e a vida dos seus. Não existe alguém apolítico. Como diz um amigo meu: “A política existe e você é um ser político. Você só escolhe assumir isto ou não.”. E mesmo assim, mesmo a política estando em tudo, fazendo parte da nossa vida e influenciando a nossa vida, não existe alguém que nos ensine isso. Por que? Será que ninguém sabe também?
É difícil se envolver quando não há conhecimento. E é da falta de conhecimento que surge o jargão “eu não gosto de política”. Reação comum de quem tem medo do que não conhece e prefere negar. Mas isso estrutura a nossa sociedade. E assim formamos eleitores que não pensam e recebemos em volta aquelas vergonhas todas de um governo que se aproveita do povo mal instruído. Por sua vez, o governo que se aproveita é o mesmo que proporciona esse ensino.
É muito comum que a maioria das pessoas chegue à universidade (ou ao fim da vida) sem saber nada concreto sobre o funcionamento da política. Da construção dos partidos, da participação deles no Brasil, dos direcionamentos e dirigências. E o movimento estudantil hoje é muito forte e talvez o movimento de maior expressão e combate político que temos, principalmente no Brasil.
A falta de instrução levà negação ou ao extremismo mal-fundado, de aceitação de fatos sem questionar. Essa disciplina é fundamental e deveria estar presente em todas as escolas. Não basta uma disciplina de sociologia ou uma de ética, ambas com áreas de assunto específicas que abrangem muito mais do que só a “política” como aqui apresento. Há que existir uma disciplina específica, com um objeto específico e objetivos concretos. Ponto final.

Eu ia falar ainda de uma proposta para o ensino superior, mas isso fica para outro post. Esse aqui já tá bem grande! Bom dia pra vocês!

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