Jesus de calça bege: a máfia religiosa por trás das grades

A religião dentro dos presídios mato-grossenses há muito deixou de ser um escapismo ou apoio para os reclusos e passou a revelar-se como verdadeira máfia. Os três grandes nomes, dignos de botar Dom Corleone e demais italianos no chinelo, são a Universal, Assembleia de Deus e a Deus é Amor.

A maior concentração e também principal local onde estourou o escândalo é o famoso Carumbé – hipocritamente renomeado como Centro de Ressocialização de Cuiabá –, onde os presos são obrigados a pagar dízimo para não sofrer represálias.
O depoimento a seguir é retirado de uma notícia do site G1, e aponta o caso da exploração da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Segundo a mãe de um dos detentos, que não quis se identificar, o pagamento do dízimo é feito semanalmente. “Eles são obrigados a pagar dízimo todo domingo. O quanto a gente levar tem que dividir com eles”, ressalta a mulher. O dízimo, de acordo com ela, é pago para que o filho permaneça na ala evangélica da unidade prisional, e a arrecadação seria feita por representantes de uma igreja. “Lá dentro são os pastores mesmo. Lá dentro tem os presos que são pastores, que ficam responsáveis em arrecadar [dinheiro] de quem é aqui de fora”.

ALÉM DO DÍZIMO E DA CRENÇA

A última vez em que toquei neste assunto, alguém porcamente argumentou “o dinheiro é deles e eles dão a quem quiserem”. Sou obrigada então a mostrar porque o problema vai muito além de colaborar com o dízimo. Enumerando:

1. Dízimo não é só dinheiro
Da mesma mãe que deu o depoimento acima: “Ainda de acordo com a mulher, se ela levar roupas, produtos de limpeza ou até comida para o filho, alguns pastores pegam para pagar o dízimo. “Pegam para pagar o dízimo se não tiver o dinheiro vivo para dar na hora. Eles pegam na conta. Aí quando tiver, vai lá e paga e eles entregam”.”

2. Partilhar o pão com juros e dividendos
Conforme denúncias que já foram feitas ao Ministério Público de Mato Grosso, os pastores das igrejas retinham 40% dos alimentos levados aos presos e depois vendiam aos próprios reclusos por um preço bem mais alto, alimentando um comércio ilegal e vergonhoso em prol da própria empresa (digo, igreja…).

3. A crença do “Benefício em Nome de Jesus”
Fazer parte de uma religião traz benefícios aos presidiários. Não são benefícios de luxo, mas quem melhor que a igreja para pregar sobre a vida? Com a fé e os dízimos em dia, o preso passa a fazer parte da ala dos evangélicos – o que confere um diferencial perante os outros presos, pois deixa de frequentar as celas comuns e mais violentas. Pagar o dízimo e crer no “senhor pastor” para não morrer esfolado nas celas dos peixes grandes. Mais do que nunca se faz eficaz a máxima religiosa “Jesus Cristo é a VIDA e SALVAÇÃO”, pois só assim os presos conseguem se manter vivos.

4. O amor que redime culpa e desestrutura famílias
Outro grande problema são as pregações religiosas dentro dos presídios. Se conseguissem bastar em levar a palavra do senhor para os “novos convertidos” estaria tudo ok, o problema é que os instrumentos de Deus são, mais frequentemente, mulheres viúvas da igreja. Qual o problema?
O problema é que essas mulheres trazem consigo um contexto psicológico muito peculiar e curioso por parte de suas igrejas (seria coincidência que só as viúvas fossem escolhidas?): o de estarem sem marido há algum tempo. E essa maravilhosa coincidência encontra uma outra ainda mais bonita (acasos do amor!): os presos também estão sem mulher há algum tempo, acostumados com companheiras que são, na verdade, os novos reclusos que entram em suas celas dia após dia.
Eis que um homem sem mulher há tanto tempo é um poeta nato! E uma mulher sem homem há tanto tempo é carente, quando traz então, por seu próprio dom da palavra, um antigo criminoso para a redenção do Espírito Santo… só pode ser obra de Deus na vida de tais pessoas! Espero que estejam sentindo o sarcasmo proposital nestas palavras, senão escrevo em vão.
Desta incrível coincidência e obra do senhor, nasce um casamento entre presidiário e beata. Esta viúva visitará o presídio muitas vezes, até estar crente da transformação de seu novo parceiro – que será liberado mais rápido com ajuda da igreja e por bom comportamento.
Assim nascem, no seio da sociedade, mais uma vítima da Maria da Penha e um criminoso solto por uma artimanha divinamente inteligente. Eis a desestrutura familiar e o problema social.

VISTA GROSSA , OMISSÃO E CONIVÊNCIA

Compreendo o trabalho social da igreja dentro dos presídios. Compreendo também que neste contexto situacional, que envolve questões psicológicas de grande resistência e opressão, muitas vezes o presidiário necessita desse aparato espiritual, para ter forças de seguir em frente. E acredito piamente que de fato há aqueles que mudem. Louvável, donas igrejas, parabéns. Mas deveria ser concedido tamanho poder a essas instituições a ponto de chegarmos a este nível? Os agentes e diretores penitenciários não veem esta situação? SERÁ POSSÍVEL?
Que a igreja fizesse seu trabalho dogmático, espiritual e social ali dentro, isso compreendo eu. Mas compreender a vista grossa que fazem ao comércio, à máfia criada e a essas situações de humilhação, violência e opressão… Seria ignorância minha não compreender? Ou voltamos à idade média?
Presidiário é criminoso? É. Todos? Não sei. E por isso deixam de ser gente? Por isso tem de alimentar o tráfico religioso, a máfia dos pastores-empresários e aceitar o controle exercido em troca de suas próprias vidas?
Que Estado é este, eu te pergunto!

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