Você se orgulha de ser um sobrevivente da violência?

Não quero puxar pelo lado filosófico-social da coisa e questionar de onde vem, o que motiva ou a razão da violência tão grande e brutal com a qual convivemos hoje. Quero puxar, sim, justamente por esse lado da “convivência”, do costume à violência, do comodismo – acho que posso chamar assim sem usar de licença poética – e o sentimento gerado dela (e não por ela).

A violência não se restringe ao agredido/agressor, àquele que morre e àquele que mata, não se restringe à questão de vida e morte, embora seja esse o ponto que mais pese no dia a dia, pois é o ponto final da linha, não é? Portanto, choca muito. Desde os furtos à educação, já é assunto da esfera violência. Mas vou ser mais específica, pois isto assim se aplica a qualquer lugar e quero focar no meu Brasil e meus compatriotas. Há algo de muito errado aqui…

Vou tratar exemplos bem próximos a mim, pois foi assim que surgiu a vontade de escrever sobre isso. Esses dias, estava conversando com meu namorado – que é de Portugal e está arrumando as malas para vir ao Brasil (detalhe: o rapaz nunca esteve aqui antes) – e ele me contou, bastante pasmo, como um brasileiro conversava com ele sobre a adaptação dele aqui. Especificamente no que toca à violência brasileira, na falta de segurança e outras coisas, comparado à segurança que tem em Portugal. Ele não ficou pasmo com essa comparação ou o fato de ter de se adaptar, isso já era um fato pra ele. O que pasmou esse portuga foi o tom de voz orgulhoso, convencido e de quem se VANGLORIA de sobreviver à violência cotidiana do lugar em que vive.

COMO ASSIM?

Isso é motivo para se vangloriar? Para se orgulhar? O fato de ter que sobreviver e de conseguir este “feito heróico”, de saber “exercer essa habilidade hercúlea”. Quem se orgulha de ser um sobrevivente experiente no cotidiano violento que temos no Brasil? Em que patamar chegamos?
Parece que esquecemos que isso é uma mazela social e não um treinamento da espécie. Não deveríamos conviver com isso e muito menos ficar orgulhosos de sobreviver à situação. Mas a violência não é um sentimento/acontecimento que cai como um meteoro do espaço sideral e se instaura na sociedade. Não! Para ela acontecer ou existir, alguém tem que executar. Quem é esse alguém? Não são os animais de estimação, nem aqueles do zoológico. A violência que assola a sociedade VEM da própria sociedade. Independente do que motiva, do que está por trás, quem comete é o ser humano. E ainda fica feliz de estar num meio desses? PORRA! Eu fico louca com uma coisa dessas! De ter que ouvir e engolir este espinho!
Já estava encucada para escrever sobre isso desde que ouvi essa conversa. Hoje fui ao mercado com minha mãe e quando voltei soube do movimento que tinha acontecido na minha rua. Dez carros de polícia, muitos prisioneiros e um cara espancado e quase morto no hospital. O que aconteceu? Lição de moral num potencial pedófilo.
O cara tinha convidado às filhas (crianças de 4 a 7 anos) das vizinhas para entrar em sua casa e “brincar com ele” em troca de 5 reais. As meninas se assustaram, contaram para as mães e o resultado foi esse. Hoje nem sei se ele sai daquele hospital. Não vou julgar se merece ou não, nem vou comentar esse evento. Quero comentar algo relacionado a ele:
Enquanto os policiais levavam os prisioneiros e a ambulância da SAMU levava o espancado, uma moça gravou e tirou fotos com o celular, de cima de uma das casas, e postou no facebook da seguinte forma: “ Aqui no Dom Aquino é assim: a gente é que faz a justiça! Bem feito kkkk”.

Onde está o erro?

O erro está em apoiar esse tipo de evento. Esse comportamento violento. Em ser capaz de rir numa situação dessas, que acontece na porta da própria casa. De incentivar o “aqui se faz, aqui se paga”. Quem sofre com isto?
Cresci acostumada a ouvir, diariamente, as vizinhas comentando sobre fulano que morreu com bala perdida ou balas que acertaram o endereço. Cresci ouvindo sobre brigas de gangues. Quando criança, corri muito em festas de ruas porque havia confronto marcado. Pegar na mão de um sobrinho ou de uma irmã e correr loucamente para não ser “encontrada” por uma “bala perdida”. Cresci vendo a polícia fazer vista grossa para que os bandidos se anulassem e “fizessem o trabalho deles”. Isto era tão comum, tão expectável, que não surpreendia ninguém. Não pensamos a respeito quando o assunto se torna tão corrente, tão normal.

Depoimento de vítima no Facebook

Por que normalizar a violência? Por que pensar que “aquel@ mereceu”, que é o melhor modo de se resolver? Brincamos com vidas, pensem nisso! E não são só vidas de outras, são nossas próprias que pomos em risco. E é sempre incentivado. Quem não incentiva, contenta-se em se omitir sobre o assunto. Uma palavra sobre isso: lamentável.
É preciso reaprender a viver em paz e também a espalhar essa coisinha esquecida, por mais hippie que isso possa soar agora. Perdemos, nessa realidade, muito de nossa humanidade, de nossa dignidade. Nos alegramos em dizer que somos sobreviventes, que vivemos num contexto de caos e desordem, como se falássemos de um apocalipse zumbi de quadrinhos. A falta de noção é impressionante. Reflitam qual a probabilidade e possibilidade dessa realidade mudar com o pensamento que, talvez inconscientemente, temos hoje.

Finalizo com uma música do grupo Paralamas do Sucesso, chamada “O Calibre”.

Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo
Sem saber o calibre do perigo
Eu não sei d’aonde vem o tiro…

Por que caminhos você vai e volta?
Aonde você nunca vai?
Em que esquinas você nunca pára?
A que horas você nunca sai?
Há quanto tempo você sente medo?
Quantos amigos você já perdeu?
Entrincheirado, vivendo em segredo
E ainda diz que não é problema seu

E a vida já não é mais vida
No caos ninguém é cidadão
As promessas foram esquecidas
Não há estado, não há mais nação
Perdido em números de guerra
Rezando por dias de paz
Não vê que a sua vida aqui se encerra
Com uma nota curta nos jornais

Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo
Sem saber o calibre do perigo
Eu não sei d’aonde vem o tiro…

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