Aspectos culturais nas crises do capitalismo

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Antes de desenvolver o assunto quero deixar claro o sentido que assumo quando uso a expressão “crises do capitalismo”. Ao dizer isto, me refiro a um sistema que tende a gerar mais dívidas que lucros; a geração ou progressão da pobreza; e os efeitos que isso produz ou perpetua na vida das pessoas e, consequentemente, nas sociedades.

Por ser um sistema baseado na exploração da força de trabalho visando o lucro, um dos alicerces do capitalismo é mesmo como diz aquela máxima “a propaganda é a alma do negócio”. Sim, é a propaganda. Digo isto porque é um sistema de compra e vendas, de concorrência, de competição. E se existe competição, concorrência e a intenção é vender, então é preciso fazer com que as pessoas queiram comprar. É preciso fazer as pessoas desejarem, precisarem ou necessitarem daquilo que você oferece. É preciso “vender seu peixe”.

Logo, é expectável que isso seja variável de lugar pra lugar, contexto pra contexto, de acordo com a cultura desses lugares e como aquela sociedade vai se desenvolver com isso: os prós, os contras, a estrutura que vai adquirir. Estes são os aspectos culturais. Somados com o capitalismo, geram diferentes resultados (embora a crise seja uma constante, pois a contração de dívidas é necessária para que esse sistema prevaleça).

Vou falar de alguns casos para melhor explicar o meu ponto de vista.

Começando pelo maior dos símbolos do capitalismo, o país do Tio Sam: Estados Unidos da América. Todos já ouvimos falar do “sonho americano”. A casa grande e bonita, com um jardim, boa vizinhança, um bom trabalho, os filhos na piscina depois da escola. Riqueza e prosperidade. Enfim. Apesar de todos os adornos em volta disso, o ponto principal (curiosamente, mas nada difícil de notar) é sem sombra de dúvidas o imóvel. Sim. Exatamente, a casa!

Por toda a história dos EUA, desde a sua colonização até os tempos de guerra e desenvolvimento industrial pesado, geraram essa “necessidade” ou essa “ideia de necessidade” de casa própria. Tanto que uma das crises pesadas que o Tio Sam passou foi a chamada “bolha imobiliária”, quando os americanos deixaram de pagar as prestações e começaram a devolver os imóveis, quebrando todas as empresas envolvidas nos empréstimos imobiliários. Não é à toa que o mercado imobiliário lá é quase uma referência, digno de outdoors e programas na TV (e como tem!).

As dívidas contraídas em busca do “sonho americano” são enormes. Pessoas que passam a vida toda pagando uma casa ou se afundam tentando pagá-la e acabam perdendo para os bancos. Sim, isso pode acontecer em todo o lado – mas lá, eu diria, mais aprofundadamente por essa cultura gerada em volta disso. Por que isso é uma crise do capitalismo? A ideia não parte da massa, parte da “propaganda”. Parte de quem vendeu essa ideia e, arrastando por tanto tempo, incrustou de tal forma que conseguiu transformá-la num aspecto cultural. Quem lucra com isso?

O tal sonho americano é tão exposto, é tão empurrado pra vida das pessoas, que faz com que elas se matem de trabalhar para passarem a vida pagando uma ideia que lhes foi imposta.

No Brasil o caso é outro. Embora eu veja, recentemente, o mercado imobiliário crescendo de forma assustadora (e com esse monte de programa de casa própria do governo eu vejo nosso país seguir os mesmos passos dos EUA), não é bem na parte residencial que “reside” o problema (se me perdoam o trocadilho barato). No país do Plim-Plim Carnavalesco temos as maravilhosas novelas! O melhor do mundo no que compete ao assunto, ouvi dizer. As novelas que ditam as modas: aparência, vestimenta, calçado, um milhão de outras coisas. Toda uma indústria criada em volta da aparência e do status. E todo um problema psicológico também.

Para as mulheres, vendem a necessidade de ser magrela como uma modelo, de ser branca do cabelo liso e dos olhos claros, ou negra do cabelo maravilhoso e do corpo sensual. Ou a branca da moda ou a negra do samba. Aquele é o padrão. Para os homens, fortões de academias, nada mais. Barriga tanquinho, cabelo do jeito que saiu no último cara da novela ou do jogador de futebol. Mas essa cultura de novela não para pelo corpo e os problemas psicológicos que isso acarreta: ela te diz que deve vestir, calçar e se perfumar com marca. Tudo deve ser marca. É como disse George Orwell, na frase mais lúcida que já li: “A massa sustenta a marca, a marca mantém a mídia e a mídia controla a massa”. Somos a massa consumindo a mídia, a marca e todos os problemas disso advindos.

Daí temos o brasileiro e a brasileira que não tem o que comer dentro de casa, mas anda de salto alto e camisa Lacoste. Não tem onde estacionar, mas andam de carro 0km modelo do ano. Gera uma cultura de status e de aparência para se mostrar aos outros e que pouco garante a si mesmo. Contração de dívidas, que sequer te permitem evoluir, para manter uma imagem de atriz ou ator global. Difícil, hein? A perpetuação da pobreza, por meio da contração de dívidas incentivada pelas marcas e mantida pela mídia. Mas as novelas já são um nosso aspecto cultural.

“As brasileiras são muito mais vaidosas”, ainda ouvi um amigo de Portugal dizer. Claro, meu bem, com essa pressão de ser capa da playboy fica difícil lidar até com o próprio corpo.

Vou me ater mais um pouquinho no Brasil, já que é meu país (e possivelmente da maioria que vai ler meu texto). Já que falei anteriormente da repentina expansão – ou antes, explosão – do mercado imobiliário, vou discorrer mais um pouquinho sobre isso.

A explosão imobiliária aqui se dá de forma diferente dos EUA e se trata de mais um aspecto cultural ou mesmo uma característica do nosso desenvolvimento histórico. Ao pé estrutural que anda a terra do Tio Sam, o Brasil ainda engatinha. Enquanto os EUA já são uma potência, o Brasil tem “potencial”. Logo, é compreensível que o mercado imobiliário lá já seja voltado para a população e para novos ricos e aqui seja voltado mais para o comercial (não-residencial, quero dizer; não sei qual termo usar pra isso), ou para a formação dos novos ricos.

Como assim? Como o caso que está ocorrendo no Maracanã agora, por exemplo. Espere, deixa eu voltar ainda mais atrás. Espero não começar a ser chata.

Meu namorado veio de Portugal pra Cuiabá. Eu já de cara estava um pouco assustada sobre as minhas limitações, o que poderia oferecer de tão bom ou convincente para alguém que vinha de um lugar com melhores condições e estruturas do que o meu. O fato é que descobri que na minha cidade eu não tinha quase nada pra mostrar ou oferecer! Não tinha museus decentes, não tinha espaços culturais, não tinha monumentos e ainda precisava mexer em muita coisa básica.

Enquanto as outras cidades que sediariam a Copa estavam preocupadas em adornar e torná-las mais atrativas para o turismo, a minha tinha virado um canteiro de obras gigante porque precisava mexer em coisas básicas que deviam estar resolvidas há tempos para a própria população. A vinda da Copa, que não durará mais que 3 dias por aqui, exigiu que minha cidade fosse reestruturada para não passar vergonha. A explosão imobiliária comercial por aqui foi enorme, dada a nova estruturação. Construção de prédios, instauração de novos edifícios, começou a surgir imóveis gigantes e lindos para todo lado. É dessa expansão que eu estou falando.

A especulação e a expansão imobiliária criadas em torno desse súbito “desenvolvimento”, exponenciado pela vinda de um evento mundial, tem seus reflexos bem visíveis: quem não se lembra dos incêndios “casuais” que aconteceram no Rio de Janeiro, nos terrenos que eram muito bem localizados, mas abrigavam favelas e pessoas de baixa renda? Era muita coincidência acontecer tantos num ano só e todos em locais visados pelo mercado imobiliário. Ou podemos usar um exemplo mais atual, o Maracanã. Quem não está acompanhando a repressão e violência bárbara imposta aos ocupantes que querem manter o espaço em contraponto aos que querem derrubá-lo para fazer um novo edifício?

E onde diabos está a crise nisso? Nas pessoas desabrigadas, nas famílias que perdem tudo o que tem, naqueles que se matam de trabalhar e no final não tem nada, nem sequer respeito. Tudo com que propósito? Alimentar um mercado imobiliário para gerar “economia” atraída por um evento global.

Muito curioso, não? Eu não vou me estender muito sobre o assunto, porque foge ao meu domínio e não quero cair em falácias. Mas vou deixar um vídeo para complementar o que disse até aqui:

RSA Animate – Crises do Capitalismo (legendando)

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