A importância da marcha nos movimentos sociais

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Muitas vezes vejo as pessoas questionarem a eficácia e a validade de uma marcha/protesto nos movimentos sociais – e não são só pessoas de fora dos movimentos, mas também as de dentro.

Escrevo isso porque ouvi ontem, no que devia ser o Dia do Basta à Corrupção aqui em Cuiabá, alguém dizer que “isso que estamos fazendo aqui, marchando nas ruas, não quer dizer nada”, que “não é isso que vai mudar o mundo” e ouvi também hoje do meu cunhado “você pensa que é você que vai mudar alguma coisa fazendo isso? Berrando na rua..”. É algo que ouvimos sempre e acho que sempre ouviremos de um ou outro. Não estou condenando e nem quero condenar aqueles que fazem essas afirmações. Pelo contrário: digo que é preciso uma reflexão mais clara sobre a importância e o papel da marcha e do protesto nos movimentos sociais que querem reivindicar alguma coisa. Pior que estar de fora e ser desinformado, é estar do lado de dentro e não estar certo do que está fazendo ali.

A mensagem e a construção do movimento

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Para mim está claro que esses são os dois pontos principais de se fazer uma marcha ou protesto: passar a mensagem e ajudar a construir o movimento.

Quando levamos cartazes, pintamos faixas, usamos apitos para chamar a atenção, pintamos o rosto, batemos tambores ou qualquer que seja a forma utilizada, não estamos chamando a atenção de quem está protestando. Estamos chamando a atenção de quem não está protestando. Afinal, a mensagem é destinada para aqueles que já compactuam com a sua ideia ou para aqueles que ainda não sabem? Para quem você quer levar a informação?

Não fazemos barulho para incomodar, mas sim para chamar e concentrar a atenção dos outros para aquilo que temos a lhes dizer. Para falar “ei, olha, estou lutando por nossos direitos; você sabia que estão te roubando?” ou “você sabia que tem gente morrendo por causa daquele político e que isso não passou na tevê?”. O objetivo do protesto não é só reivindicar, mas também conscientizar, mobilizar.

Quando você protesta, você está dando o exemplo. Quando o militante vai às ruas e atrai para si a atenção, ele tem nas mãos o poder de mostrar ao público que ele não é o “vândalo vagabundo” que a mídia disse que era, mas sim alguém clamando seus direitos e denunciando situações inadimplentes. Quando você protesta, você está quebrando o silêncio – não só o seu, mas de uma comunidade ou grupo – e mostrando que há quem se importe, há quem esteja observando, há quem lute.

Muitos deixam de protestar por causa da rotina, estão se autolimitando. Aqui está a importância do protesto: a mobilização. Manifestar os anseios, as necessidades, as omissões, os descasos e a participação do povo naquilo que chamamos “democracia”. É por isso que se chama “manifestação”.

Se não há o movimento, dificilmente se constrói a mobilização, pois não há o exemplo e a transmissão da mensagem fica muito limitada. É uma incoerência descomunal acreditar que existe movimento social sem participação popular.

Torna-se muito fácil, aliás é muito humano, ridicularizar algo que é estranho/alheio a si, e o mesmo se dá no caso das manifestações. Agora, se o movimento existe, e é comum, fica muito mais fácil para as pessoas aceitarem aquilo como natural e legítimo e também que façam parte dele.

A inspiração que atrapalha

O que move um militante é o desejo de mudança, sua indignação pelas coisas como estão, é a vontade de fazer algo e contribuir para mudar aquele cenário, ao seu ver, errado. Portanto, é muito natural que fiquem de peito inflamado vendo exemplos de outras manifestações que acumulam milhares e milhares de pessoas, com cartazes e gritos, enchendo as ruas. É uma inspiração.

Entretanto, é preciso saber delimitar as coisas e não permitir que a inspiração se torne um obstáculo. Muitos militantes de primeira viagem vêm com aquela conhecida vontade de mudar o mundo e abraçá-lo com as pernas e ficam completamente sem chão e decepcionados quando vêem seu movimento juntar de 10 a 50 pessoas. Até 200 é uma decepção.

Eles colocam à frente aquelas fotos de mobilizações, por exemplo, que estão acontecendo em Portugal e Espanha; a mobilização estudantil que aconteceu no Chile ou protestos inflamados na Venezuela. Magnífico, lindo, maravilhoso, que mundo espetacular! E pecam deliberadamente quando bradam aos quatro ventos palavras de ordem contra as mobilizações que ocorrem no seu próprio espaço. “Por que as pessoas aqui não se mobilizam como lá? Não têm motivos de sobra? É um bando de ignorante!” E ofende a tudo e a todos, grita com tudo e todos, e se decepciona a cada movimento que participa com a pouca aderência popular. Isso somente deslegitimiza, descredibiliza e desanima o próprio movimento. É uma desconstrução para si e para os outros. Grande trabalho que você está fazendo, campeão!

Não é errado ter esses movimentos bem-sucedidos como inspiração e exemplo. Errado é exigir que seja o mesmo no seu país, que tem outro quadro político, outra cultura, outra informação, outra educação, outro povo, outro tudo. Um país que sofre há 20 anos com crise financeira e perde seu glamour de primeiro mundo dia após dia, naturalmente terá uma mobilização gigantesca. Foram 20 anos de construção dessa mobilização, não foi da noite pro dia. Em vinte anos, houve tempo para aquela vizinha que chamava militante de vagabundo se juntar ao grupo para protestar também. É assim que se constroem as ideias.

Saber encarar as coisas com realismo é ter aptidão para construir a própria força. A crítica infundada não tem razão de ser e mata o movimento da forma mais contraditória, porém natural, possível. Todo militante deve ter isso em mente para não se tornar mais um daqueles que mais falam do que fazem e mais afastam do que atraem.

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7 comentários

  1. Esse negócio do “Você acha que vai mudar o mundo gritando na rua?”. Já percebeu que não há resposta correta?

    A pergunta é uma afirmação. Ela é uma ridicularização que não pede uma resposta. O desdobramento dela é: “você não pode mudar o mundo com tal ação, pois ela é uma gota no meio de um oceano”. Essa pergunta é um lição que o sujeito tenta dar: você só pode mudar o mundo se for extremista.

    Mas o que é extremo para o tipo de pessoa que costuma soltar este tipo de enunciado? Matar PM seria um.

    Daria pra construir um linha de pensamento assim: Protestar na rua não é válido porque é um ato pequeno, não irá mudar o mundo. Um ato grande o bastante para isso é matar policiais, roubar bancos, destruir parte da civilização e etc.

    Por incrível que pareça, pro senso-comum, um ato válido é um ato extremo (o que eu concordo), mas um ato extremo é um ato imoral ou ilegal. Se um ato extremo é um ato imoral ou ilegal, então ele não deve ser praticado. Se for praticado haverá sanções sobre o sujeito que o praticou.

    Não há resposta correta por que qualquer ações válida pela lógica é invalidada pela moral. No fim, mudar o mundo se trata de algo impossível…

    • Ótima colocação, Vinicius! É bem isso mesmo.
      Neste mesmo dia, estive conversando com outro rapaz que também procurava apoio pra outra marcha, na cidade dele. Mas tinha intenção de jogar ovos nos representantes que iam estar presentes. Ele fez essa colocação similar bem parecida, dizendo que esses movimentos “positivistas”, como é a marcha pacífica, não arrecadam tanta participação popular porque não transmitem a ideia de eficácia, de estar fazendo algo. Disse ele que acreditava mesmo que ás vezes o que as pessoas precisavam era aquele “mau exemplo”, porque era isso que queriam ver. Parecia radical, mas acho que entendi o ponto de vista meio anarquista dele.

  2. Wow, calma lá. Eu jamais pensei em eliminar marchas. Só quis dizer aquele dia que naquela situação a marcha não seria tão viável. Oh god me sinto marretado .-.

    • Huahauhauhauhau sem problemas, sr. Mimimi. Eu entendi que era isso que quis dizer na hora, só não quis que as pessoas continuassem com essa visão ou entendessem como um “fato”, válido, portanto, pra qualquer ocasião. É importante estimular o próprio movimento!

  3. Ótimo tema Aline,
    Gostaria de participar com o meu ponto de vista sobre o assunto começando pela pergunta/afirmação “voce acha que vai mudar o mundo?” Definitivamente voce não pode mudar o mundo, porém todos podemos mudar nossos mundos. Acredito que aqueles que “criticam” estes protestos acreditam que, muitas, talvez a maioria das pessoas que participam destes eventos são fogo de palha e fazem um pouco de barulho na hora mas não levam as atitudes necessárias para mudança a frente, e outras vezes os protestantes não tem conhecimento real do problema. Um exemplo disto que teve grande repercussão foi o movimento Occupy Wall Street, assisti várias entrevistas com os participantes do movimento, os quais estavam protestando apenas contra os grandes bancos e o capitalismo, mas não tinham a minima idéia de que: 1. quem possibilitou, ou melhor, incentivou tudo que aconteceu, e continua acontecendo, foi Washington, wall street é apenas uma consequência; 2. foi justamente a falta de capitalismo que permitiu tudo isto acontecer.
    Não tiro o crédito dos protestos pois eles são importantes para iniciar um movimento, porém acredito que o condicionamento de nossas atitudes para cultivarmos hábitos e espalharmos conhecimento seja ainda mais eficiente, pois com isto podemos iniciar aos poucos, unindo as mentes alinhadas, a desobediência civil, idéia que foi iniciada em 1849 por Henry D. Thoreau. Alguns dos casos de sucesso desta abordagem incluem a independencia da Índia com o Mahatma Gandhi, e os direitos civis dos negros com Martin Luther King nos USA.
    Sem dúvida a desobediência civil é um movimento difícil, mas extremamente eficiente em devolver o poder ao indivíduo, mas é preciso conhecermos o sistema para buscarmos as alternativas. O que fazemos aqui com nossos blogs, é um grande começo para discutirmos idéias, explorarmos possibilidades, desenvolvermos pensamento crítico, questionar o sistema, e acima de tudo reunir os protestantes…. Penso que hoje devemos espalhar ao máximo estes questionamentos, popularizar, é um processo lento, mas precisa ser feito. Ainda somos poucos, mas estamos crescendo. Ainda não podemos mudar o mundo, mas estamos mudando o nosso…

  4. Meu comentário vai não só para Aline, mas também para todos que comentaram acima: é reconfortante ver que existem pessoas como vocês que pensam de maneira civilizada e, acima de tudo, conseguem discutir sobre isso de maneira coerente. A meu ver é justamente isso que precisamos para juntos construirmos um país melhor: diálogo, reflexão e bom-senso. Quanto à minha contribuição para a continuação do debate, deixo: com determinação, estratégia e pé no chão é possível chegar aonde quisermos, sobretudo, se nos unirmos para isso.
    No mais só para acrescentar que muitas vezes senti vontade de xingar aqueles que não se importam com o que acontece com o cenário político, mas vocês me mostraram uma explicação plausível e completamente apaziguadora para esses ânimos inflamados que me acometem toda vez que vejo manifestações contra a corrupção terem cada vez menos manifestantes.
    Obrigado a todos pela excelente abordagem de todos. Vou tentar acompanhar mais o blog, anyway. Força!

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