Uma entrevista com o Presidente de Bairro

Tudo começou com uma enquete que montei no facebook, perguntando à galera daqui e do resto do Brasil se onde moravam tinha presidente de bairro e associação de moradores, se sabiam quem eram e o que faziam. A resposta: a larga maioria não fazia ideia de nada, nem quem eram, nem o que faziam, nem como chegaram lá.

Movida por isso, fiz uma visita ao presidente do meu bairro (Dom Aquino, Cuiabá) para perguntar sobre isso tudo. Ele foi muito receptivo e respondeu tudo e mais um pouco. Essa publicação é o resultado da entrevista. Eu tinha intenção de postar o áudio gravado aqui, mas como estava constipada e não tenho todas as partes, vou escrever. Aqui vamos nós!

 

M.D: O senhor pode começar por se apresentar?

R.: Meu nome é Martinho Reis da Conceição, tenho 52 anos. E há praticamente 30 anos milito na Associação de Moradores. Numa como colaborador, noutra como diretor. Eu já fui vice-presidente do bairro Dom Aquino, tinha me afastado um pouco, fiquei só ajudando. Aí um grupo de moradores resolveu montar uma chapa e me encabeçaram; agora estou no meu segundo mandato.

 

M.D: Qual a função do Presidente de Bairro?

R.: A função do presidente de bairro é representar os moradores em toda instância: a nível municipal, estadual e até federal. É um trabalho voluntário, não é remunerado. Não tem nenhum auxílio financeiro. Pelo contrário: a gente deixa até de atender melhor nossa família para estar se dispondo aos anseios da própria comunidade.

 

M.D: Como funciona a eleição do presidente de bairro e da associação de moradores?

R.: No caso específico do Dom Aquino, nós somos regidos pelo Estatuto. Aqui, é por dois mandatos. Nós já fomos filiados à UCAMB (União Comunitária das Associações de Moradores de Bairo), hoje somos desfiliados, desde a gestão de outro candidato; por isso fazemos nossas próprias eleições. Como é feito isso? A gente chama eleição na véspera, publica em Diário Oficial, né, um jornal de grande circulação. Aguarda e monta uma comissão eleitoral dentro da própria comunidade, chamando quem quer participar do pleito; elege o presidente da comissão eleitoral e esse presidente é quem faz a eleição. Então nós temos uma eleição própria e, por sinal, o Dom Aquino é bem disputado, quase como se fosse pra vereador, assim como o Santa Isabel, que também é bastante disputado.

 

M.D: Quem é que monta as chapas pras eleições?

R.: Os próprios moradores que acham que têm tempo hábil pra concorrer. Então ele monta sua própria chapa, chama outros moradores, que têm que ser moradores do bairro, não pode ser de fora. E sai candidato, concorre, fala das propostas. Primeiro, ele passa essa proposta para a comissão eleitoral, de próprio punho, explicando por quê quer ser presidente de bairro.

 

Martinho acrescenta: Na minha opinião, o presidente de bairro tem que ser uma pessoa disponível, praticamente 48h para poder estar à frente de uma associação; porque pra gente fica difícil trabalhar. É muita coisa. Eu pensaria numa pessoa aposentada ou alguém que tem uma renda, que possa usufruir só dessa renda para a comunidade. Parece que não, mas é muito trabalho.

 

M.D: Como é que agem o presidente de bairro e a AM junto da câmara e da prefeitura, para representar os moradores?

R.: Participando, né? Eu mesmo quase não vou a audiências públicas, por exemplo, só quando é extremamente necessário. Mas fazemos requisições, intervenções, já estive em reuniões com o prefeito, com os vereadores pra discutir projetos e as necessidades daqui do bairro. Como foi o caso da base da ROTAM que tem aqui em cima, na antiga PROSOL. O Dom Aquino é um bairro enorme e, infelizmente, é muito violento, com as brigas de gangue aqui de determinados lugares. Na minha rua, na sua rua, por exemplo, é tranquilo; é calmo. Mas nesses focos (Aldeia, Morro, Copagás, Brejinho) são muito violentos e os moradores reclamam. Então o que eu fiz foi buscar na secretaria e na prefeitura apoio para trazer a base da ROTAM para cá e as rondas. Agora dá pra ver o policiamento aí sempre presente, já diminuiu bastante a violência, comparado ao que era antes. Também foi o mesmo com a base comunitária da Polícia Militar ali em cima. Isso tudo foi trabalho da Associação de Moradores.

 

Ações da AM e do Presidente de Bairro

 Imagem

Perguntei, então, ao presidente Martinho sobre as ações como presidente e o que a Associação já tinha feito pelo bairro (vou ter que descrever, porque meu celular não gravou essa parte e acabei perdendo a conversa ao pé da letra para poder redigir tim-tim por tim-tim).

Martinho me contou que ser presidente implica fazer das coisas mais pequenas até as mais complexas. Por exemplo, quando há lâmpadas quebradas nos postes de rua, as pessoas nem sequer ligam mais para a prefeitura, vão direto à casa dele informar do ocorrido. Disse que várias vezes já teve ele mesmo que pegar o próprio carro e ir trocar a lâmpada de uma rua ou socorrer algum morador, levando até o hospital. E de quadros maiores, como foi trazer a ROTAM para o bairro e intervir pela revogação de outros projetos que prejudicavam os moradores, como a retirada do Fun Park da ACRIMAT e a doação da área do Ginásio Dom Aquino para o centro comercial dos camelôs.

 

A sede da Associação de Moradores

 

Perguntei a ele sobre a sede onde se reunia a Associação de Moradores, pois, um dia antes, eu tinha ido visitar (para pedir pela entrevista) e encontrei o prédio abandonado, depredado, habitado apenas por um gato, um rodo e umas cadeiras velhas. Por que estava abandonada? Eles não recebiam recursos públicos para mantê-la?

A resposta: não. Não recebiam recursos públicos. O novo gestor da associação, e os próprios membros da mesma, já tinham “herdado” o prédio depredado pelo outro presidente de bairro. E sendo aquele um trabalho voluntário, sem auxílio financeiro e qualquer ajuda de custo, cabia a eles a manutenção daquele espaço. Tinham que pagar as contas de luz e água, inclusive as que estavam atrasadas, e esse dinheiro, quando podiam, era angariado em festa ou tirado do bolso da própria AM e do Presidente de Bairro.

No prédio já tinha funcionado outras atividades que eram oferecidas aos moradores, também trazidas pela Associação por meio de parcerias (sem recursos públicos, frisando outra vez). Atividades como: cursinho pré-vestibular, curso de salgados, curso de informática, curso de auxiliar de departamento pessoal, entre outros profissionalizantes.  Hoje é apenas um espaço abandonado que está a disposição dos moradores para quando querem fazer uma festa ou um velório, por exemplo. Com a única de exigência, que muitas vezes não é cumprida, de deixarem limpo depois.

 

Do lado de fora

 

Está rolando, entretanto, um projeto proposto pelo vereador Hermes da Silva Filho, do PDT, que confere “ajuda de custo” (antes era salário, mas pelas críticas ele modificou a nomenclatura) aos presidentes de associações sem fins lucrativos, incluindo presidentes de bairro. Conforme o projeto, o salário dos presidentes de bairros será pago com recurso descontado dos salários dos vereadores. Seriam 5% de desconto no ordenado de cada parlamentar. (Fonte: clique aqui)

Não sei, sinceramente, como está o andamento deste projeto (embora tenham me dito que foi aprovado, não me deram fonte alguma dessa informação). Mas posso imaginar que os vereadores estão muito desgostosos com a proposta. O o vereador Deucimar Silva (PP), por exemplo, ex-presidente do Legislativo, disse: “É ilegal reduzir salário, e temos outras formas de arrecadar uma quantia para apoiar o trabalho nos bairros”. (Fonte: clique aqui)

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