O que é que o funk tem pra dizer?

O funk é daqueles gêneros musicais que não tem seguidor meio-termo: ou é funkeiro(a) ou é “hater”. Seja lá qual for o motivo – desde “não tem letra” até o estigma social –, eu não fiz esse artigo pra dizer que “sim, ele é tão bom quanto uma composição de Chico Buarque” nem pra por isso em questão. Eu fiz pra mostrar que, exceção ou não, o funk tem sim algo a dizer.

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Assim como o rap, o funk também é estigmatizado como “música das ruas” e está diretamente associado a um perfil sócio-econômico: pessoa de classe baixa morador de lugar com problemas sociais. Não raramente, o ouvinte de funk é associado com o perfilbandid@drogad@ e sem educação (não é “sem educação” de descortês, mas sim de ausência de estudos mesmo).

Ao funk vem associada a imagem do rapazinho aba reta, no mínimo usuário/traficantes de maconha e ladrão de celular ou batedor de carteira; para as mulheres, a imagem da jovenzinha “puta”, interesseira e, colocado como consequência, mãe adolescente.

Mas de onde vem isso? Será um ciclo vicioso? As letras de funk realmente não tem nada a dizer? Vamos ver.

É claro que todo gênero musical tem suas exceções: até Megadeth e Motorhead tem balada romântica! A música das ruas, seja o rap ou o funk, tão estigmatizada e alvo de preconceitos, traz um relato muito fiel e crítico de um quadro social. É só olhar com mais atenção. Peguei, pra exemplo, uma das músicas que foi tocada paulatinamente em cada carro de som e celular com mp3:

Só me dava porrada
partia pra farra
Eu ficava sozinha
Esperando você
Eu gritava e chorava
Que nem uma maluca
Valeu, muito obrigada,
Mas agora virei puta.
Se um tapinha não dói…
Eu falo pra você:
Segura esse chifre
Quero ver tu se fuder.
Eu lavava e passava
Tu não dava valor
Agora que eu sou puta você quer falar de amor.

 

O que essa música traz? Nem vou fazer a leitura sobre a noção das relações de monogamia, ideia de posse sobre o parceiro, etc. Vamos ser práticos: violência contra a mulher, (des)estrutura familiar, machismo. A mulher que apanha do companheiro, a ideia de que ela tem que cuidar dos serviços domésticos enquanto ele pode curtir a vida (submissão), a rotulação da liberdade sexual, enfim: está tudo bem explícito na música, não é difícil ver.

Nas classes “desfavorecidas”, como diz o eufemismo, aquilo que traz a música é só o reflexo da realidade desse povo. Eu vou por uns dados pra ninguém vir falar que é especulação.

Sobre violência contra a mulher e a pobreza

  • No Brasil, estatísticas apontam, que a cada quatro minutos acontece um caso de agressão física contra a mulher e o agressor é via de regra, ex-marido, ex-amante ou ex-namorado (Amnesty International Publications, 2004, p.2).

Segundo a Organização Mundial de Saúde (2002), características individuais, familiares e normas sociais fazem parte de um complexo conjunto de fatores predisponentes para que uma mulher torne-se vítima de violência doméstica. São eles:

(a) Individuais: Idade mais jovem, uso de bebida alcoólica, depressão, distúrbios de personalidade, menor grau de escolaridade, baixo status econômico e haver testemunhado ou sofrido violência na infância;

(b) Familiares: Conflito entre cônjuges, instabilidade no casamento, o homem deter o poder de decisão sobre os demais membros da familiastress econômico e pobreza;

(c) Comunitários: Cultura de tolerância da violência doméstica na comunidade; pobreza; menor capital social;

(d) Sociais: Normas tradicionais que perpetuam as diferenças de gênero, normas sociais que toleram a violência

Alguém mais reparou a presença constante do fator “pobreza”?

Funk além da violência

 Essa música tão odiada e rotulada por tantos – confesso que também faço isso às vezes –, não mostra só putaria, violência e drogas, como muitos trazem. Vou pegar outro funkeiro icônico e bem conhecido, o Mr. Catra. É, digam o que quiser, mas o cara é até poliglota, quebrando tantas concepções preconceituosas. A primeira música que peguei se chama “Casa na Favela”:

Em uma casa na favela, um jovem lá morava
Não tinha pai, não tinha mae
Não tinha familia para orientá-lo

Ele vivia no meio da perdição
ele era apenas um cidadão
que gostava de andar como os outros:
com roupa nova e dinheiro no bolso
e muito mal tinha cursado o primeiro grau
e a vida que levava não era legal
tinha vivido o passado no escuro
e o presente era sem futuro
independente de tudo, queria ser feliz
viver sem preconceito no seu próprio país
mas entre a sociedade não obteve respeito
e cada dia que passava, aumentava o preconceito
e se sentiu fracassado, perdeu a razão de viver
e já não se importava em ser feliz ou sofrer
e perguntava a si mesmo: onde foi que eu errei?
pra carregar na vida, han, o que herdei? (…)

Acho que não preciso colocar em negrito para perceberem a quê quero chamar a atenção: a) desestrutura familiar; b) desigualdade econômica; c) noção do preconceito e estereótipo vinculados à pessoa; d) segregação social. Essa música nem precisa de interpretação para mostrar a reflexão que traz bem explícita, uma moldura na qual cabe o retrato de muitos homens e mulheres que nascem nessa realidade social.

A estereotipação não passa despercebida pra ninguém, é lugar comum pra quem rotula e pra quem é rotulado. E, quer queiram quer não, o funk e o rap estão entre os principais representantes das músicas populares para falar bem sobre o preconceito social. Veja lá, outra música do Mr. Catra:

Favela não é só crime, favela também é arte
Isso está provado ouvindo em toda parte.
Por isso hoje eu digo com pureza no coração
Mister Catra, amigo, é paz, saúde e união.

Ao Justo sou fiel e canto pro país inteiro
Lutando contra injustiça, covardia e o desespero.
Eu estou pedindo para acabar com a violência
A fome, o desemprego e qualquer tipo de carência.
Fé em Deus para todas as comunidades
E força aos irmãos que estão sem liberdade.
Já chega de massacre, o pobre não aguenta mais
Só queremos liberdade, saúde, justiça e paz.
Enquanto se come bem na casa de um bacana
O pobre agradece a Deus, quando tem pão com banana.
E a elite escuta isso e diz que é exagero
Pois não vive o dia-a-dia à beira do desespero.
Aqui na favela, doutor, se tu não sabe
A grande maioria passa por necessidade.
Só pedimos consciência pra mudar a situação
O negócio, gente boa, é paz, saúde e união.

A consciência das desigualdades sociais não poderia ser melhor retratada do que por aqueles que estão no lado mais fraco da corda: contra muitos dados “positivistas” das subidas de classes sociais, de desenvolvimento e evolução na erradicação da pobreza no Brasil, vem aqueles que participam dessa realidade e relatam a real situação, ignorada por muitos e mascaradas por outros tantos. E pra não dizerem que estou sendo exclusivista em utilizar um único cantor para enfatizar meu ponto de vista, vou colocar outra que ficou muito famosa depois de lançar músicas “chulas”: Tati Quebra-Barraco. A letra da música “Punk da Periferia” vai ao encontro do que afirmei ali em cima, junto das letras do Mr. Catra:

Das feridas que a pobreza cria
Sou o punk
Sou o que de resto restaria
Aos urubus
Punk por isso mesmo este blusão carniça
Fiz no rosto este make-up pó caliça
Quis trazer assim nossa desgraça à luz

Sou um punk da periferia
Sou da Freguesia do Ó
Ó, aqui pra vocês!
Sou da Freguesia

Ter cabelo tipo índio moicano me apraz
Saber que entraremos pelo cano satisfaz
Vós tereis um padre pra rezar a missa
Dez minutos antes de virar fumaça
Nós ocuparemos a Praça da Paz

Sou um punk da periferia
Sou da Freguesia do Ó
Ó, aqui pra vocês!
Sou da Freguesia

Transo lixo, curto porcaria
Tenho dó da esperança vã da minha tia, da vovó
Esgotados os poderes da ciência
Esgotada toda a nossa paciência
Eis que esta cidade é um esgoto só!

E acho que ninguém se esqueceu ainda do “Rap das Armas”, que fez muita fama quando lançaram o filme Tropa de Elite, nem do “Rap da Felicidade”, mais conhecido como “Eu só quero é ser feliz”, que pedia às autoridades “um pouco mais de competência”.

Por fim, é difícil, não tenho intenção e não vou conseguir desfazer a imagem auto-denegrida do funk sobre suas afirmações de cunho sexuais e a perpetuação desse comportamento, principalmente nas adolescentes. Sim, existe toda essa promoção da mulher-objeto; sim, existe o machismo perpetuado pelo funk (mas também existe feminismo, acredite!); e, sim, existe a perpetuação da indústria sexual. Mas devemos lembrar que isso não é assim tão espontâneo é uma construção psicológica e, consequentemente, comportamental que também é promovida e alimentada pela realidade social em que estão inseridos. O funk não tem exclusivamente esse lado negativo, tem também sua função social de denúncia, de exposição, de clamor, enfim: de transparência daqueles que foram “esquecidos” por muitas autoridades e marginalizados pela própria sociedade.

Finalizando, para quem quiser mais sobre esse assunto, recomendo a leitura do artigo “Não me bate doutor: funk e criminalização da pobreza”.

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4 comentários

  1. Me parece que você é um alienado, também, amido.

    Se as pessoas que promovem este tipo de som (não posso chamar de música) quiserem criticar algo, que estudem e escrevam teses, porque musicalmente esta estupidez que os alienados, como você chamam de funk é terrível.

    • Você está colocando um gênero demasiadamente grande numa suposição reducionista. Obviamente não é todo funk que é bom, como também não é todo rock, não é todo pop, não é todo samba. Para tudo há exceções e o funk não escapa disso. Entretanto não quer dizer que não há boas mensagens, não há letras carregadas de realidade e denúncias sociais. Não generalize todo um gênero musical por simples apatia, pois também não sou muito chegada ao funk e nem por isso deixo de reconhecer quando boas mensagens aparecem desse nicho 😉

  2. Funk é cultura lixo, né?
    Cultivar degradação, apologia ao crime.
    Né preconceito não. É conceito posterior ao que se vê, ao que se ouve.
    Lixo purinho.

    • Eduardo, um ritmo musical não tem capacidade, per se, de fazer apologia ao crime ou cultivar degradação. Por que não se faz a mesma crítica, por exemplos, ao rock? Há muita música no rock, no metal e até no consagrado samba e MPB que faz imagens super degradantes, especialmente de mulheres.

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