O movimento cultural em Cuiabá e a amnésia do Poder Público

Dia 29 de abril, ontem, estiva passeando pelo centro quando resolvi passar, despropositadamente, pelo Museu de Imagem e Som de Cuiabá (MISC), acompanhada de meu namorado. Ele é português e está aqui há pouco tempo, então fui torcendo para que houvesse algo de importante e interessante que ele pudesse ver – pois até então não tinha tido muita sorte com isso.

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Lindo pra minha cara que mesmo nascida, criada e crescida em Cuiabá, nunca tivesse ido ao MISC. Entramos e dissemos ao pessoal da recepção: viemos visitar. Como já disse, eu não guardava muitas expectativas.

O responsável pelo museu veio ser nosso guia. Fomos observando as fotografias registradas da Cuiabá antiga, vimos o material de rádio/tevê/comunicação usado pela primeira rádio daqui, as câmeras e registros. O homem (que esqueci de perguntar pelo nome) foi nos mostrando e comentando tudo, depois nos contou a história do casarão onde agora funciona o museu e nos levou pra uma sala de projeção onde vimos um vídeo sobre o marco do “centro geodésico da América do Sul” (que, a propósito, é o de Cuiabá mesmo e não o de Chapada dos Guimarães) e um documentário sobre a arquitetura, a estrutura e o desenvolvimento do Centro Histórico de Cuiabá.

Pra quê esse relato? Porque com a vinda do meu namorado para cá, esse português, eu quis mostrar minha cidade e o que tinha por aqui. Infelizmente, fui ficando com a impressão que tinha pouca opção cultural: uns museus abandonados, o Cine Teatro fechado, outros pontos mal cuidados e muita falta de informação! Fiquei logo “de mal” com minha cidade, revoltada por não ter o que mostrar pra quem quisesse conhecer e, consequentemente, por isso significar que eu não tinha essas opções também como cuiabana.

Mas não só por isso: ao longo da estadia desse turista, como eu quis procurar por pontos que contassem nossa história e cultura, eu descobri que, SIM, minha cidade tem o que oferecer, tem opções de cultura, tem opções de lazer (mesmo que não sejam muitas). É que esses pontos estão abandonados, estão descuidados, esquecidos e jogados pra escanteio pelo orçamento do município e do estado, aparentemente. Pessoas como o nosso guia no MISC, que realmente querem ajudar e não estão ali só pra preencher vaga nas pastas da prefeitura, ficam desbaratinadas e à disposição de processos burocráticos e promessas de “daqui um ano, daqui 2 anos, daqui um tempo” para o planejamento que fizeram.

O problema de serem considerados “menos importantes” (pois é o que parece) pelo poder público é que acabam se perdendo ao longo dos anos. A população perde o vínculo com o lugar e não se identifica mais, ficando completamente no abandono e no esquecimento de uma vez por todas. Hoje o MISC só é visitado por grupos escolares ou um e outro acadêmico para fins de pesquisa – mesmo tendo uma exposição interessantíssima, atualmente, sobre a Revolta da Chibata, por exemplo, e um acervo bem legal da história da nossa cidade, que eu aposto que pouca gente conhece, mesmo entre os próprios cuiabanos. Funciona ali, também, um grupo belo de capoeira angolana; promovido por esse responsável pelo museu que buscou o evento de forma independente para manter alguma vida ali dentro.

Sim, fico incomodada de ver um dos nossos museus assim. Mas fico ainda mais por saber que ele não é o único: arrisco dizer que todos os pontos estão assim.

Há um projeto da prefeitura para revitalizar o Centro Histórico de Cuiabá: renovar e restaurar seus casarões antigos, por sinal muito bonitos, e deixar o centro com uma cara mais “turística” para a Copa 2014 (agora tudo é Copa, obviamente). Entretanto, pergunto eu: o que vai ser colocado ali dentro? O que vai funcionar nesses casarões revitalizados? Eles ficarão bonitos, sem dúvida. Apresentáveis, sem dúvida. Mas úteis?

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Não sou contra a revitalização, sou contra o gasto do dinheiro sem propósito, pois é dinheiro público. Cuiabá tem bairros em situações caóticas e precisa de muita atenção da prefeitura em tantos pontos que qualquer dossiê seria pouco para registrar. Ainda assim, não temos tido as atenções e cuidados devidos. Mas três dias de evento internacional conseguem a atenção que em duzentos anos não conseguimos.

Não é problema investir na copa, o problema é investir numa fachada para turistas quando os próprios cidadãos – que estão pagando pela fachada –ainda precisam de reparos básicos.

Há a intenção, por parte da prefeitura, de fundir a Secretaria de Turismo e Cultura. Percebo a ligação entre os dois setores, mas vendo o setor de cultura jogado tão ao acaso, percebo também a luta e indginação dos artistas da capital. Precisamos de mais investimento, precisamos valorizar mais a nossa história e nossa cultura – que está às traças. Anexar outro departamento para concorrer pelo mesmo fundo de recursos não é a solução para resolver as situações.

Sei que a população se importa, mesmo que não se movimente – é que nunca foi ensinada a lutar pelo que é seu. Está na hora de mobilizá-la para apoiar aqueles que estão na briga pela nossa própria história, nosso próprio movimento.

Tive o prazer de ver, no aniversário de Cuiabá, os artistas se mexendo para SOZINHOS construir o evento “Aniversário de Cuiabá: Os Excluídos”,. Com seu próprio trabalho, de seu próprio bolso; um evento que foi lindo de se ver. E fizeram pois foram trocados pela nossa prefeitura que, no aniversário da capital, resolveu financiar todo a sorte de cantor, dupla, trio ou banda sertaneja, mas deixou os artistas regionais de lado. Isso serviu para mostrar ao povo: o movimento existe, mas anda esquecido pelo poder público!

Os artistas brigam com unhas e dentes, mas sua militância pela cultura não passa no rádio ou na tevê, nem sai nos jornais. Sozinhos fazem o que podem, mas não sei se é o suficiente para pressionar aqueles que, lá em cima, só se importam com números e massas (pois é isso que garante sua eleição). Nós, o povo, somos beneficiados, somos clientes e somos parte dessa cultura e desse movimento: por que não lutar por isso?

Que este seja não só um desabafo, mas também um convite à luta.

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3 comentários

  1. Sem dúvida é no mínimo revoltante o que acontece com o patrimônio cultural em nosso país. Gostaria de aproveitar o ensejo e relatar o que eu vivenciei aqui em Curitiba, minha cidade natal e tão conhecida pelo “””planejamento””” urbano. No bairro onde moro, vizinho de Santa Felicidade, tem uma grande concentração de italianos, consequentemente, ainda restam algumas casas construídas por estes imigrantes a partir de 1880. Dois terrenos, muito bem localizados, com casas antigas as ruínas estavam a venda a algum tempo, fui me informar o valor e as restrições por conta desta casa quase ruína (eu sabia que estes imóveis eram problemáticos, mas talvez seria uma boa oportunidade de negócio). Foi então que descobri a legislação sensacional de conservação do patrimônio cultural da cidade, e consequentemente porque ninguem ainda havia comprado o terreno. De acordo com esta legislação se o proprietário quiser construir qualquer outra coisa no terreno ele precisa restaurar a casa e mais….. não poderá usar o imóvel restaurado para fins comerciais, ou seja, quem em sã consciência irá investir uma quantia considerável (pois restaurações não são baratas) em um imóvel que não poderá usar, exceto para moradia.
    Com isto, algumas incorporadoras simplesmente compram estes tipos de imóveis, quando a localização e tamanho valem a pena, derrubam a casa antiga, pagam a multa e acrescentam este valor no seu produto final, ao menos por aqui não faltam exemplos disto. Tambem tem alguns casos pontuais, que a empresa restaura o imóvel para poder se estabelecer no local, mas no fim, que paga a conta são os consumidores com o repasse destes custos (Brasil) adicionais…
    Não é atoa que ainda existam tantos imóveis como estes sendo deixados a ruína…

    • Uia! Conheço bem tua capital e tive o prazer de passar muitas vezes por Santa Felicidade e o desprazer de ver uns casos assim! Aqui acontece o mesmo, também atrapalhado pela lei de uso do solo e de patrimônio. Muitos dos casarões que o poder público quer comprar ou retomar pra poder restituir vem, de brinde, com problemas de familia: pertencia a fulano de tal, que já morreu, ninguém sabe dos outros membros, mas não podem desapropriar porque ainda tá no inventário da familia. E aí fica aquele bloco arquitetônico monstruoso bem no centro da cidade: lindo, porém caindo aos pedaços, exalando mofo e transpirando tétano!
      É triste.

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