A luta “despudorada” das Vadias e o falso moralismo

Vai acontecer em todo o Brasil mais uma Marcha das Vadias. O movimento feminista que luta contra a discriminação, o sexismo, a violência e toda forma de autoritarismo – e do qual não participam apenas mulheres, para os mais desinformados.

A marcha, apesar das boas intenções, ainda tem alguma recusa de várias partes. Vejo o pessoal que está tentando divulgar e captar adeptos aqui em Cuiabá, por exemplo, passar por muita chacota, gente que quer criticar sem nada a adicionar, apenas entra com o intuito de ridicularizar e descredibilizar o movimento d@s feministas. Não sei com que intuito nem com que razão, mas dessas peças temos aos montes em todo canto, infelizmente.

Imagem

Essa imagem é um printscreen que tirei num grupo universitário no facebook, onde estão fazendo correntemente a divulgação da marcha. O nível dos comentários mostra a ideia que constrói muitas mentalidades por aí: a ideia é boa, mas a execução é quase um “atentado ao pudor”. O que gera a recusa.

Porque as manifestantes mulheres muitas vezes marcham com os seios à mostra, muita gente vaia a marcha e até chegam a ser comparadas com o grupo FEMEN – que, como é de conhecimento geral (espero), não é feminista, e sim femista/sexista. Elas estão errando na execução?

Não vejo assim. Ao meu ver, o movimento simplesmente tem uma atitude visionária. Sim, visionária. Isso porque a execução está à frente da mentalidade de muitos: como se o público ainda não tivesse maturidade ou conhecimento suficiente para compreender.

Ninguém nunca viu seios na vida? Ninguém tem seios? Só elas?

O propósito não é simplesmente chocar, é fazer refletir. Se a marcha se diz contra o sexismo e toda forma de autoridade, como não fariam esse quase “nu artístico”? O homem pode andar sem camisa, a mulher não. Não se trata de uma luta pelo “direito de ficar sem camisa” ou “pelo direito de mostrar os seios”. Se trata, antes, de dizer a todos: “Veja, seu moralismo não faz sentido. Somos todos iguais e da mesma espécie”.

Trata-se de concepções que foram alastradas sob uma máscara de falsa moralidade, até chegarmos ao ponto de a mulher “merecer ser estuprada pela roupa que veste”. E, por ter nascido mulher, ter que conviver com esse medo e ainda ser ensinada a “como não ser estuprada”, ao invés de ensinarem aos outros “não estuprarem”.

Imagem

O que tem os seios a ver com isso? Os homens andam com o corpo a mostra e não têm que se preocupar se serão estuprados por isso ou pela roupa que usam. E isto não é vitimização, é conscientização. A marcha não obriga ninguém à mostrar os seios. Mostra quem quiser e com todo o direito. Como bem dizem as vadias: “o corpo é meu, eu decido”.

Só pra engrossar a discussão: quando se fala em violência sexual, a culpa, não raramente, é relacionada direto à exibição do corpo feminino, e não à patologias ou problemas de diferentes ordens em relação ao agressor. Em 80% dos casos, no Brasil, as agredidas são mulheres.

Nessa notícia sobre a marcha, uma mulher questiona essa exibição do corpo dizendo “quem é que respeita mulher assim?”. E um empresário complementa: “A marcha aconteceu à luz do dia. Muitas crianças e idosos estão por aqui e as veem perderem o pudor em se despir, falando um bando de palavras de baixo calão. Que tipo de mulher busca igualdade e respeito desse jeito?”

Todavia, me pergunto se essas tantas pessoas, que criticam, fazem a seguinte reflexão: por que um cartaz com mulher de lingerie é aceitável e uma mulher sem camisa manifestando é “falta de pudor”? Por que mulher nua na tevê, à vista de crianças, jovens, adult@s e idos@s, é normal e uma mulher lutando sem camisa é “falta de respeito consigo mesma”? Alguém me explique a lógica, pois eu não encontrei uma linha de raciocínio que justificasse essa disparidade.

O caminho mais fácil e medíocre – e ao qual muitos recorrem –, para quem desconhece uma causa, é sempre ridicularizar para desconstruir o movimento. O que, infelizmente, demonstra uma ignorância em relação ao assunto e também de mentalidade, pois não se dando à capacidade de conhecer, opta por destruir. O problema é que isto não é destrutivo apenas para esse ignorante, mas contamina como a “fruta no podre num saco de boas frutas” e atrapalha a luta dos interessados.

Por fim, vou deixar abaixo dois links só para a) justificar uma porcentagem que usei; e b) mostrar os números de violência contra a mulher no Brasil.

1. Dados sobre violência contra a mulher no Brasil e no Mundo

2. Violência sexual contra a mulher e impacto sobre a saúde sexual e reprodutiva

3. Violência sexual no Brasil: perspectivas e desafios

Anúncios

3 comentários

  1. A LIBERDADE NO PROCESSO DEMOCRÁTICO, É FAUSTA POR IMPOR REGRAS DE MORALISMO. UM FALSO MORALISMO, TENDENCIOSO E INTENCIONAL. O MUNDO, PARECE TER SIDO MOLDADO PARA OS HOMENS, É MACHISTA E PERVERSO. CHEIO DE PRECONCEITOS E MORALIDADE ÉTICA, POR BAIXO DA CROSTA SUJA DAQUELE, VILÃO INCAPSULADO NA PRÓPRIA MÁCULA DA MALDADE…

  2. Poderia escrever também somos os homens agredidos e principalmente a quantidade de homens mortos muito superior a de qualquer mulher.

    O feminismo continua com os mesmos problemas, já que visa ‘direitos iguais’ quando em 1945 foi reconhecido em documento pela ONU os direitos Iguais das mulheres e em 1985 uma reforma na constituição brasileira muda completamente o cenário no Brasil em relação aos direitos da mulher. Agora a Igualdade é protegida por Lei. O que implica que o movimento feminista moderno, não tem motivos para dizer que sua Luta é pela conquista de Direitos, os direitos já possuem. Então a luta é por Leis que protegem melhor esses direitos, porém com o antigo problema de ideologia de gênero e uma nova adição a sua Luta contra o patriarcado que diz ser ‘justificativa’.

    Além do mais a mulher não é a única a sofrer agressão em nosso país, mesmo que seja a maioria em diversas áreas como neste link de seu blog: http://www.cfemea.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3466:dados-sobre-violencia-contra-as-mulheres-no-brasil-e-no-mundo&catid=215:artigos-e-textos&Itemid=149, os homens também sofrem violência principalmente da mulher e não temos uma Lei como a Maria da Penha para defender esses homens que preferem não revidar as provocações e agressões femininas.

    Eu, como homem, entendo muito bem a importância do movimento feminista porém ignorar os piores problemas da sociedade como a violência em um aspecto geral, para utilizar apenas a agressão contra a mulher, é ignorar o real problema e resolver somente um lado. Devemos combater a violência como um todo, e não a violência somente contra a mulher. Querendo ou não, a mulher ou o homem serão agredidos. Ou seja, uma hora ou outra ou a mulher será a que mais sofre agressões ou o homem será o que mais sofre agressões. De qualquer forma o movimento feminista não oferece o equilíbrio adequado que uma nação precisa, ao invés de atacarem o problema da violência, atacam somente o problema da violência contra a mulher, e ignoram todo o resto. Isso é preocupante e o movimento feminista não se torna ideal para resolver os reais problemas de toda a nação, resolve somente os problemas para as mulheres.

    • Há uma diferença bem grande, Gabriel, que é: homens são agredidos por outros homens, mulheres são agredidas por homens. Homens são agredidos por envolvimento com droga, com brigas, com armas, enfim, por ações consequentes; mulheres são agredidas por: serem mulheres. Esse ano fiquei realmente surpresa com o número de manchetes que saíram do tipo “mulher assassinada pelo marido por não fritar poucas batatas fritas”, “mulher assassinada pelo namorado por ciúmes”… Entende? Homicídios justificados pela ideia de que a mulher é uma empregada doméstica por se relacionar com ele ou é propriedade dele por se relacionar com ele. Objetificação e subalternização. Não basta ver as estatísticas como fim, numa perspectiva positivista e quantitativa, tem que fazer uma pesquisa qualitativa e aí verá que as motivações e justificativas são absurdamente diferentes. Verá que o caso das mulheres está relacionado apenas ao fato de serem mulheres e os preconceitos que a sociedade criou sobre ela e dos homens está ligado às suas próprias ações. A igualdade é de lei, mas é cumprida? Basta criarmos leis? Basta criar lei sobre “não vai agredir o professor” e tudo se resolve? Os alunos vão parar de agredir professor? Vamos criar uma lei para que o trabalho doméstico não seja só da mãe na família, mas para que todos cumpram, já que todos moram e utilizam a casa? Isso resolve? Porque vemos nos presídios que a maioria que está lá é pobre e negro, não tem a ver com infringir a lei ou não (afinal, quantas pessoas da elite infringiram a lei de forma muito mais grave, derrocando na morte de muito mais gente e estão soltos por aí?). A luta do movimento feminista não é só por direitos, é por quebra de paradigmas, é por uma mudança sociocultural, uma mudança de pensamento também que tem perpassado gerações e sendo reproduzidos ainda hoje, apesar de qualquer reforma na constituição. Claro que combater a violência de modo geral é importante, mas somente combater? Precisamos identificar as suas causas. Por que o feminismo luta só contra a violência contra mulheres, biológicas ou trans, lésbicas e afins? Porque é um movimento pelas mulheres. Ainda assim, acaba englobando alguns direitos masculinos, como o prolongamento da licença paternidade. E não é nossa obrigação lutar pelos direitos dos homens, os homens podem fazer isso também – o que é bem diferente de dizer que não vamos lutar por isso ou apoiar a luta, mas simplesmente não é nossa obrigação. Entretanto, entende-se que há direitos de vocês que podemos pautar porque também nos afetam.
      É claro que o feminismo não vai solucionar os problemas do país. Porque essa não é a intenção. O feminismo luta pelas mulheres. Igualdade? Sim, equidade. Equidade para nós. Também há movimento negro, movimento LGBT, movimento anti-capitalista. São segmentos diferentes, entende? Para resolver os problemas do país, estão aí os movimentos sociais por reformas ou revoluções políticas e econômicas, que são contextos macros. O feminismo está inserido nisso, num contexto micro, dentro da esfera política e econômica tentando resolver essa parcela do problema. Isso não o faz menos importante ou secundário, é apenas parte de uma luta. Uma não apaga a outra e todas se fortalecem quando unificadas, por isso é que o movimento feminista frequentemente engrossa as manifestações e lutas de outros movimentos, como o movimento LGBT, negro, socialista, enfim… Que têm bandeiras diferentes, mas se unem na resolução de muiiiitos problemas do país, para mudar o cenário.
      Espero que tenha compreendido. Obrigada pela participação.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s