É a música ou o público que deixou de ser bom?

Dia 11 desse mês aconteceu o Rock Day aqui em Cuiabá. Segunda edição de um evento com apresentações de bandas de rock regionais para comemorar o aniversária da Universidade Federal de Mato Grosso. Só estou citando esse acontecimento porque foi ali, apesar da desconfiança vir de longa data, que consegui provas de que estava certa.

Ouço pessoas falarem “não existe mais banda de rock boa”, “o rock tá morrendo”, “os melhores já morreram” e outras frases super inflamadas e, ao mesmo tempo, vazias. Só tem três coisas que preenchem esse discurso:

  1. Música boa é sempre só o que marcou a adolescência ou juventude daquela pessoa. Porque é algo marcante, é uma fase especial e ela vai sempre falar daquilo. Como pessoas de 40 anos falam de Roxette e Abba; como os que quase tem 30 falam de boy bands; como os de 20 falam de Green Day, Linkin Park e Blink 182. Etc. Nada supera os clássicos, mas cada um tem sua própria visão do que é “clássico”.
  2. Ignorância do público, na medida em que desconhecem ou nem sequer procuram conhecer as bandas novas. Esse tipo de pessoa acha que a “banda nova e muito boa” vai passar no rádio ou na tevê. Ah, fala sério! O rock ultimamente tem tido que ser independente e autosuficiente porque o apoio, tanto das produtoras quanto do público, quase inexiste. Na rádio e tevê só vendem massa: axé, sertanejo, melodrama…
  3. E, por fim – já pedindo desculpa pela expressão fajuta –, por conta do público pau no cu, que vai em show e fica pedindo couvert ao invés de apoiarem o trabalho de bandas independentes que produzem material próprio e estão ralando pra manter viva a cena musical da região. Ninguém quer ouvir a música deles, porque não sabem cantar, só querem ouvir os “clássicos”. Pombas, todo mundo nasceu sabendo a letra de todas as músicas dos “peixes grandes”?

 

Esse último ponto é o que mais pega. É um certificado de ignorância para o público que repete aquelas frases e um baita obstáculo para o artista que não consegue mostrar seu potencial nem crescer. Fico um pouco frustrada pelas bandas boas que são sufocadas pelo próprio público, fadadas à cantar couverts em bares pequenos e pubs para saudosistas pés-no-saco.

Comentário à parte? Fiquei muito feliz de ver o vocalista da banda Lord Crossroad, que se mostrou uma das melhores bandas do festival, dizer à alguém do público: “Eu gosto muito de Led, Beatles e esses caras todos. Mas eu to aqui pra cantar minha porra. Esses caras grandes não tão nem aí pra você”. Bem feito.

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Quem não lembra do desabafo do Edu Falaschi, vocalista do Angra? Foi a maior polêmica, o vocal rasgou o verbo, chamando brasileiro de “chupa pau de gringo”. Atraiu muita negatividade pra banda, pois o público ao invés de interpretar o discurso, chamou o artista de ganancioso pra baixo. Acho que esse foi o adjetivo mais bonito que recebeu.

Não adianta chamar o cara de “ganancioso”, é a pura verdade. Não é porque o cara é músico que trabalha de graça, que não precisa de dinheiro, que não merece dinheiro. Ele faz o trabalho dele, ele ajuda a tal da cena musical que todo mundo diz estar morrendo. Não existe incentivo, não existe participação e o cara supostamente ainda está errado por querer cobrar pelo trabalho que faz. Acho que eu também xingaria, Edu.

Enfim, além da crítica, fica um apelo ao público, às pessoas que curtem e às pessoas que reclamem: busquem, conheçam, fuxiquem, mexam. Procurem! Banda boa é sim uma jóia rara e deve ser bem procurada. Não é qualquer banda de garagem que vai te surpreender, mas não é na mídia que você vai achar as novas bandas, independentes e boas – na mídia nada mais passa além dos clássicos e dos “artistas de massa”.

Pra fechar: artista não é relógio pra trabalhar de graça. Reconheçam o trabalho daqueles que merecem, porque você também se beneficia disso!

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2 comentários

  1. Quanto a pergunta do título, acredito que não é falta de qualidade do publico tampouco da música (na maioria das vezes, mas é algo muito subjetivo).

    Quanto ao recheio de discurso:
    1 – Tenho trinta e um e nunca curti boyband (tirando o Iron Maiden), mas curti muito Roxette.

    2 – A questão do publico não procurar novas bandas é mais abrangente. A industria de entretenimento oferece mais do mesmo há um bom tempo (filmes com várias continuações, discos ao vivo sem novas canções, arte do remix ,covers, enfim…)

    O que em primeiro momento parece ruim (e muitas vezes até é), pode ser explorado, como por exemplo ao invés de fazer um simples cover, apresentar uma reconstrução da música, descaracterizando-a e atribuindo novas qualidades autorais na música.

    Ai o “3″ entra de gancho, para quer conhecer o novo se o velho é comprovadamente bom. Não há como culpar o publico, trata-se de um desafio aos artistas. Não basta apresentar material autoral, tem que ser algo no mínimo tão legal quanto ouvir um clássico.

    Aqui em Cuiabá mesmo há um histórico de bandas com essa capacidade, de Strauss, passando por Vanguart, Macaco Bong e últimamente o BBiMB.

    Abraços,

    Gabriel Lucas
    http://factoide.com.br

    • Oi Gabriel!

      De fato, esqueci de colocar um pormenor importante no texto e o “completar” acabou sendo feito no face, onde outros amigos (também participantes de bandas locais) participaram da discussão. Nesse contexto, eu quis falar especificamente das bandas autorais. Só a falta dessa palavra já desconfigurou tudo! rs
      Quanto ao cover, concordo com o que disse. Ele pode ser importante para caracterizar a banda, o novo estilo, a interpretação, entre outras coisas.

      PS 1: coitado do Iron Maiden!
      PS 2: desculpe a demora, só hoje descobri seu comentário perdido no painel!

      Abraços e obrigada pela visita 🙂

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