Ridicularização e o pensamento medíocre

Segundo o dicionário de língua portuguesa, “ridicularização” é o ato de tornar ridículo, escarnecer; é uma achincalhação. E a palavra, por sua vez, é resultado de um processo de derivação do verbete “ridicularia”, que tem a seguinte entrada no Houaiss:

Houaiss

É onde eu queria chegar. A ridicularização é o ato que mais vejo repetido nas conversas atualmente, como se fosse um argumento de base muito poderoso. Ignoram-se fatos, estatísticas, dados, pesquisas e qualquer tipo de contra-argumentação quando a ridicularização entra em jogo. Ela é o fim de um debate e o começo de uma discussão, se bem percebem a diferença entre esses dois.

Esse ato é bastante medíocre, pois na maioria das vezes revela apenas a falta de informação, a ignorância e falta de domínio em determinado assunto. Substitui-se a informação pelo caçoar e toda a argumentação é feita usando apenas o senso comum ou qualquer “verdade generalizada” sem se preocupar em assegurar a legitimidade das fontes que forneceram essas mesmas verdades afirmadas.

OBS: Aqui tem uma discussão num grupo do facebook que exemplifica esse uso, veja: parte 1, parte 2, parte 3.

Isso tudo é tão recorrente porque o riso acaba descredibilizando o objeto. É mais fácil zombar do que explicar, bem como é mais fácil aceitar uma conclusão do que pesquisar para formar a sua própria. Tornando o assunto risível, também o torna não aceitável ou indigno de seriedade. Como observado na entrada do verbete no Houaiss, vira algo “sem importância”. Como poderia alguém aderir ou concordar com aquele objeto tão ridículo? Assim se desconstrói a imagem e relevância de determinado assunto, sem qualquer argumentação plausível.

Vamos a exemplos mais palpáveis.

A ridicularização não é novidade pra ninguém. É isto que fazem, por exemplo, muitos cartunistas e caricaturistas. Eles ridicularizam determinado objeto (podendo ser uma situação, pessoa ou corrente de pensamento) para fazer uma denúncia e, assim, influenciar o julgamento de valor da pessoa que lê/vê o seu trabalho.

Certa vez vi um cartoon fazendo troça do MST, Movimento Sem Terra. Achei engraçado e compartilhei em rede social, marcando um amigo meu que faz parte do movimento. Ele foi muito tranquilo, mas disse não ter gostado. Eu defendi “calma, Fulano, é só humor”, ao que ele me respondeu “Eu sei, né, Mica; mas também sei que esse tipo de coisa só ajuda a desconstruir o movimento, não acrescenta nada além de associar uma imagem negativa”. Àquela altura eu não tinha consciência o suficiente para entender essa resposta e agora, que mastiguei e digeri, faço esse post.

Outro exemplo claro da ridicularização para desconstruir mentalidades e influenciar julgamentos de valores é já bem conhecido no facebook. A página “ATEA – Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos” algumas vezes traz informações e denúncias, mas na maioria delas se ocupa da ridicularização de correntes teístas (que incomoda tantos os cristãos, obviamente). É um ato que acaba tendo muita relevância na formação dos novos ateus, mas também perigoso, pois – se não for bem dosado – arrisca a criar mentalidades vazias de argumentação e base e com muita ofensiva fútil.

Imagem da ATEA

Muitos movimentos têm passado por isso também. Tipo o feminismo:

Cavalheirismo

Acho digno por a resposta dessa imagem:

Boa-troca.

Movimentos políticos de esquerda:

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A política de modo geral:

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São ridicularizações bastantes perigosas, pois podem chegar a um nível de descrença tamanha que as pessoas simplesmente se bastem à rir e deixam de refletir, pensar, argumentar e acreditar naquele assunto. A política brasileira é um exemplo muito claro disso. Tamanha é a descrença do povo, que a maioria dos ataques que vemos não tem qualquer argumentação ou rigor no que afirma, fazendo aumentar o número de “indignados conformados”. Daí vem aquelas frases tipo “acorda Brasil” (e que ninguém faz nada, só repete), ou “aqui o palhaço é você” e outras como aquela da imagem acima. Claro, o quadro político brasileiro colabora para que sejam criados (e sempre mantidos) os pré-conceitos e estereótipos. Mas a interpretação e debate das pessoas acerca dos acontecimentos é fator fundamental para o desenvolver de mentalidades e ações. O ridicularizar, entretanto, que tem se tornado cotidiano, transforma esse cenário e movimento numa completa piada, além de instituí-lo como algo indiscutível, inquestionável e, pior de tudo, imutável independente de quem quer que seja.

 Para finalizar, deixo aqui a frase do grande escrito Johann Wolfgang von Goethe: “Nada descreve melhor o caráter dos homens do que aquilo que eles acham ridículo“.

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3 comentários

  1. Bem, vou me limitar aos exemplos do facebook. Aquilo ali foi sacanagem né Aline, este tipo de discussão em que um quer enfiar no “adversário” guela a baixo seu idealismo chega a ser comico. Seriam ótimos ditadores rsrsrs. Esqueceram o principal ingrediente para que qualquer sociedade prospere, respeito e liberdade.

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