Quem tem medo dos partidos?

Isto é sobre o tal do Gigante que acordou e comeu as bandeiras partidárias no café da manhã. Vamos dialogar?

Se vamos falar de partidarismo, apartidarismo e anti-partidarismo (que são bem diferentes) teremos que saber, primeiro, o que é um partido político. Segundo meu dicionário amigo de todas as horas, o Houaiss:

n substantivo masculino

4          organização social espontânea que se fundamenta numa concepção política ou em interesses políticos comuns e que se propõe alcançar o poder

5          associação de pessoas em torno dos mesmos ideais, interesses, objetivos etc.; liga

 

Portanto, um partido é uma entidade formada pela organização social de livre vontade dos indivíduos (ninguém é obrigado a participar dum partido), que pretende chegar ao poder para exercer e colocar em prática seus ideais e objetivos. O ideal é importantíssimo num partido, pois suas práticas (teoricamente) concordarão com esse pensamento.

Cada partido tem uma postura frente às coisas, uma estratégia diferente, ideais diferentes. Como partidos de esquerda são contra as privatizações de determinadas coisas (saúde, por exemplo, que no ideal da frente de esquerda deve ser garantido pelo Estado) e partidos de direita tendem a ser bem mais favoráveis às privatizações (pois consideram um investimento e significativa de melhoria colaborando com o setor privado). Como partidos de direita tendem a ser contra o aborto e partidos de esquerda a favor do aborto; enfim, entre outras coisas – que, não se esqueça, vão ditar sua vida de certa forma se este ou aquele estiver no poder e sancionar suas leis ideológicas.

 

PARTIDOS E MANIFESTAÇÕES

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Há partidos que estão sempre em manifestações porque acreditam no poder da marcha e dos protestos, porque apoiam esse tipo de expressão política; há partidos que nunca estão nas manifestações porque acham desnecessárias, inexpressivas ou qualquer outra justificativa; e há partidos que só aparecem em manifestações em ano eleitoral.

A presença deles é uma tática de auto-construção? Com certeza. É puro oportunismo? Respondo duas coisas: nem sempre e depende. Por que?

Como disse, há partidos que têm a manifestação como parte de sua ideologia. São partidos militantes, que acreditam na força e importância do protesto e na mobilização social. E querem construir a mobilização social. Portanto, quando vão às manifestações, eles estão sim se auto-construindo, mas também estão agindo de acordo com aquilo que dizem e defendem. É uma organização social, uma entidade, é claro que ficam satisfeitos de recrutar mais pessoas que concordem com a postura deles! É claro que querem chegar ao poder, pois acreditam que sua ideologia é a mudança que aquele país precisa. E pra chegar ao poder precisam das pessoas, precisam que acreditem nele.

Unem, então, o útil ao necessário: a ideologia e a tática de construção.

Por exemplo (e sem defender ninguém, não sou filiada a partido algum, antes que me acusem!): aqui em Cuiabá/MT houve o fechamento de uma clínica de recuperação de dependentes químicos por falta de repasse. O caso não repercutiu muito além das pessoas que são da área e o povo nem ficou sabendo (a não ser quem utilizava). A única entidade que se dispôs a fazer uma manifestação contra isso foi o PSOL, um partido político, em diálogo com sindicatos médicos. Duvido que tenha sido oportunismo, porque só tinha eles ali. E foram os únicos que, oportunistas ou não, botaram a cara para lutar pela volta do centro de atendimento!

Por outro lado, e essa é uma observação muito particular, eu acharia bem estranho ver militantes do PSDB numa manifestação levantando bandeira. Porque nunca os vejo em manifestação nenhuma, porque nunca vi esse partido como uma entidade militante. Nem por isso vou queimar ninguém, né? Mas, AOS MEUS OLHOS, seriam vistos como oportunistas do momento.

 

O HISTÓRICO BRASILEIRO

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Esse apartidarismo não é só no Brasil não, tenho visto amigos de Portugal a brigarem pela mesma causa (bandeiras versus sem-bandeiras). Vou focar no meu país, porque aqui tenho propriedade pra falar.

 

Eu compreendo a atual aderência do apartidarismo nas manifestações brasileiras, porque isso tem explicação na nossa história. Vou começar a análise, claramente, a partir da nossa famosa e ferrenha Ditadura Militar de 64. Citando o texto do jornalista Paulo Victor Melo:

Não podemos esquecer que o fechamento ou a ilegalidade dos partidos políticos sempre foi uma das principais marcas de regimes anti-democráticos. Uma das primeiras medidas de Hitler na Alemanha nazista e de Mussolini na Itália fascista foi a extinção dos partidos políticos.  Aqui no Brasil, em 1937, Getúlio Vargas também acabou com os partidos e, mais recente, a Ditadura Militar os colocou na ilegalidade. (FONTE: clique aqui)

 

Que interesse tinham os ditadores para proibir os partidos? Pense bem:

As eleições no Brasil são feitas através da disputa entre partidos, que podem fazer alianças entre si ou não. Independente da aliança ou coisas afins, é necessário que o candidato político seja filiado a um partido. Ele necessariamente, expressamente, obrigatoriamente DEVE ter um partido político que esteja no seu plano de fundo como candidato.

Portanto, em toda eleição, apartidários, partidários ou anti-partidários, escolhemos um candidato de um partido (com suas ideologias, com suas práticas concordantes ou não com essa ideologia, com suas táticas e discursos, etc). Mesmo que você vote em branco ou nulo, será eleito o candidato de um partido.

A conclusão é fácil: se não tem partido, não tem concorrência. Se não tem organização, não tem oposição. Quem se interessa que o povo não tenha organização ou representação?

Tirada as conclusões, quem emergiu da ditadura foram alguns partidos como o PT. Foi aí, por exemplo, que cresceu Lula: o presidente pobre, vindo das ruas, semi-analfabeto e que lutava nas manifestações e sindicatos pelos direitos do povo! Com essa imagem conseguiu se eleger. E o que fez? Merda. Muita merda. Lula, que se dizia socialista, fez um governo capitalista. Isso não são palavras minhas! Antes que os petistas me ataquem, vejam aqui nesse vídeo como ele mesmo afirmou isso (é uma entrevista que deu a um programa famozérrimo norte-americano que falou sobre como o Brasil era visto):

Brazil’s rising star: 60 Minutes (legendado)

         Não é que não tenha acertado uma bola dentro, visto que teve trabalhos importantes também, mas deu tanto bola fora que ficou manchado, manchou o partido, manchou a esquerda e, atualmente, com o escândalo do mensalão, manchou todos os outros juntos. Com tanta corrupção nesse país e tanto mal exemplo, o povo cansou e criou uma repulsa natural contra qualquer partido e qualquer político. Não se preocupam mais em saber se existe algum que corresponda às suas expectativas, que tenha uma ideologia parecida, que possa ser edificante para seu desenvolvimento político: eles simplesmente, pelo desenrolar das coisas e pelo sentimento de repulsa, jogam todos no mesmo saco, generalizam e se afastam!
Qual o problema disso?

 

A DIFÍCIL TAREFA DA ORGANIZAÇÃO SOCIAL

As pessoas cada vez mais se conscientizam dos problemas ao redor delas: a corrupção é uma coisa escancarada no Brasil, exposta em vitrines à vista de quem quiser. Todos estão cientes, todos detestam e sentem tanta repulsa quanto dos próprios partidos (uma coisa alimenta a outra, no fundo).

Essas pessoas indignadas estão prontas para protestar, querem se mobilizar, querem agir. Não sabe como o fazer e sozinhas desanimam. Mesmo o maior militante pode esmoecer quando sozinho e sem incentivo ou apoio de grupo.

Você pode conseguir 100 mil indivíduos que vão à luta nas ruas. Cem mil indivíduos indignados. Se fizer outra luta, eles possivelmente estarão lá. Mas só. Acabou o movimento, acabou o grupo. Ali é a unidade, não tem estrutura por trás daquilo! O movimento tem fortes tendências a minguar e morrer, como é óbvio.

Como disse antes num artigo aqui do blog, a manifestação (ou protesto) é uma ferramenta importante, mas não é um fim: é um meio. Ela é uma forma de expressar aos políticos e à população uma mensagem e é importantíssima para a construção do movimento, mas sozinha não faz nada. É preciso alguém lá dentro, com poder pra leis, pra brigar, pra sancionar, pra botar em pauta, pra que o negócio funcione de fato. Foi assim com as tão famosas Diretas Já, não sabiam? Se por um lado havia os militantes caras pintadas, do outro havia políticos controlando esse movimento e com voz representativa para fazer aquela reivindicação valer. Nossa democracia é representativa, nunca se esqueçam disso! É preciso que um representante assine embaixo!

 

CONCLUINDO

 

Só pra finalizar, agora que já refletimos quem é que tem interesse em não ter oposição partidária e em deixar a massa desorganizada, lembrem-se que a mídia (a sempre mídia) que têm apoiado sim o apartidarismo das manifestações, mostrando vídeos das bandeiras sendo queimadas, dizendo que as pessoas estão se unindo por um ideal suprapartidário e unificado… essa mesma mídia tem um partido e não abre mão. Enquanto vocês abidicam dos seus e não se organizam, movimentando-se sem estruturas por trás da luta, eles têm esse background.

Olhando por outro prisma, as pessoas que carregam bandeiras em manifestações não estão dizendo que estão todos sob a mesma bandeira. E uma manifestação que tenha várias bandeiras pode ser um bom sinal, pois evidencia que independente dos lados, estamos nos apoiando e formando alianças para ter maior representatividade. Mostra que lutamos juntos sem segregar, como desejam aqueles que não querem ser confrontados!

Revelando um receio pessoal, tenho medo do que possa significar isso, essa aderência não ao apartidarismo, mas ao anti-partidarismo. Em eleições futuras, se a maioria resolver anular o voto pra não apoiar ninguém, a minoria partidária irá eleger seus representantes na mesma. Perderemos expressão. Existe política além do voto, mas nem por isso devemos fugir à política do voto. São dois pilares de uma mesma casa, que um sozinho não sustenta.

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7 comentários

  1. Fantástico! Não existe clareza de conceitos nessa onda de manifestações….É muito perigoso isso,essa negação da “política” quando se está nas ruas fazendo política XD E o pior é que esse discurso de ódio a organizações sociais de uma maneira geral torna o movimento despolitizado, sem discussões, sem base mesmo..e isso não é problema só de Cuiabá, na verdade só vi um exemplo mais animador nos atos de BH, que tiraram assembleias populares pros próximos atos..

  2. Gostei! Só acho que ter um representante dentro dos protestos e desnecessário, pois gera populismo não desejado, porém termos um que concorde conosco dentro do poder é sim, como é o caso da pec 37 e corrupção pra crime hediondo.

  3. Pois é…é democracia, cara. Não é propaganda. Os partidos de esquerda constroem o movimento pela tarifa zero há anos, e vários outros movimentos. Oportunismo de quem chega agora com as pautas prontos e quer mandar abaixar bandeira. O partido não está falando POR todos, e sim COM todos. Esses partidos de esquerda só quer lutar junto, e não ditar a luta.

  4. “As eleições no Brasil são feitas através da disputa entre partidos, que podem fazer alianças entre si ou não. Independente da aliança ou coisas afins, é necessário que o candidato político seja filiado a um partido. Ele necessariamente, expressamente, obrigatoriamente DEVE ter um partido político que esteja no seu plano de fundo como candidato.”

    O problema hj é que os partidos políticos não representam nenhuma ideia e sim são meios estratégicos de concentrar poder, aliado isso ao nosso sistema de votação o partido tem mais poder que a pessoa eleita, assim mesmo que entre uma pessoa que queria mudar alguma coisa de dentro nada pode fazer, Não sou contra a existir partidos mas o problema é o poder que tem o partido hj, se os partidos não fossem obrigatórios e não tivessem poder nenhum sobre os seus candidatos, ai sim poderiam representar uma ideia já que cada aderia por ser ou não a favor dessa ideia e não por conveniência politica como acontece hj.

    “A conclusão é fácil: se não tem partido, não tem concorrência. Se não tem organização, não tem oposição. Quem se interessa que o povo não tenha organização ou representação?”

    Aqui vc se engana muito, se não houvessem partidos as ideias dos candidatos seriam de maior importância e portanto o candidato deveria trabalhar de forma melhor pois não haveria mais a influencia de seu partido por trás dele, alguém se eleito adquiria menor poder e portanto teríamos uma melhor distribuição do poder ou seja teríamos uma melhor representação.

    Os partidos podem continuar a existir, mas os partidos tem que representar somente uma ideia e ser um jeito mais fácil de se organizar qualquer movimento, não podendo em hipótese alguma concentrar poder para si mesmo.

    Sempre que houve concentração de poder, quem o tiver vai usar para o seu próprio bem e esse é nosso cenário atual

    • Não creio que ainda assim minha conclusão seja enganosa, Fábio, sabe por que? Porque você mesmo diz “se houvessem”, é uma situação ideal. Ainda não estamos nessa situação ideal, ainda precisamos dos partidos. Mesmo para que essa situação “ideal” seja posta em prática, antes seria necessário que alguém eleito através de um partido para colocar esse projeto em votação. Portanto, no sistema em que temos agora, não ter partido opositor ou diferentes partidos (que seja, apesar das diferenças nessas qualificações) é sim não ter concorrência. Isso é um perigo!
      Os partidos se formam através de movimentos organizados anteriormente (na maioria, pelo menos), e eu acredito que ainda haja movimentos e partidos sociais que ajam de acordo com suas ideologias! Os furos todos terão, infelizmente, graças a esse corporativismo fdp** que existe.

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