Parto & Ativismo muito além do feminismo: uma questão de saúde pública

Há, por essa vocês não esperavam! Ou sim, sei lá.

Ainda tem gente que acha o feminismo exagerado ou inútil, ou ambos. Ainda tem quem ache desnecessário. Mas é adentrando nesses pequenos assuntos, delegados quase que exclusivamente à mulher, que vemos quanta coisa ainda existe de errada nos pequenos-porém-importantes assuntos e que nem todo mundo sabe – compreendo o motivo, já que os homens, embora um dia acabem sendo pais, não passam pela gravidez do mesmo modo que as mulheres.

Há quase um mês atrás descobri que vou ser mamãe (eba! hurra!), daí a conhecer esse novo mundo que é gravidez e assuntos de parto, gestação e todas as alegorias existentes em volta do assunto. Lendo, conhecendo, conversando com outras grávidas, com enfermeiras, com doulas, com parteiras, com aspirantes à mamães, feministas em geral e outras tantas envolvidas nesse assunto, descobri um universo militante entranhado nesse tema. Entre relatos, depoimentos e denúncias, uma cachoeira de desumanidades que é responsável por muito sofrimento desnecessário, por muitos erros médicos, por muita dor e, sim, por muitas mortes de mães e crianças. Do que diabos eu to falando?

Parto humanizado, cesárea e cartel médico

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Você talvez já tenha ouvido falar disso. O parto humanizado ainda é recente no Brasil: mais avançado numas cidades, mais atrasados em outras, “mais inexistentes” em algumas. Na minha região, em Cuiabá/MT, ainda não existe uma humanização de fato, mas algumas tentativas nesse sentido. Agora, o que é a humanização do parto e por que você deveria saber disso se não é uma grávida ou é um homem que nunca vai engravidar? E como é que isso pode ser uma pauta de militância?

“Vamos por partes” – ESTRIPADOR, Jack.

A humanização do parto se refere à muitas coisas: desde um parto com menos intervenção tecnológica (a não ser quando estritamente necessário, é claro), maior fortalecimento dos laços afetivos entre mãe e bebê, e até o direito de escolha da mulher, que não tem sido muito respeito nas máfias hospitalares.

Não raramente, logo que o bebê nasce, ele não é levado para a mãe; e sim retirado imediatamente para passar por todo o procedimento de ser limpo, pesado e blablablá. Muitos médicos não proporcionam o primeiro contato alegando o risco de hipotermia e respectivas consequências. Pesquisas indicam, entretanto, que o primeiro contato imediato pele-a-pele entre a mãe e o bebê é importantíssimo, além de ser um comportamento já observado há muito tempo nos demais mamíferos (constatação de muitos casos em que a fêmea acaba por rejeitar o filhote que foi tirado de perto dela nos primeiros momentos). Citando um estudo: “Este contacto proporciona benefícios, não só a nível do aleitamento materno, mas também a nível fisiológico do recém nascido, auxiliando-o na estabilização dos batimentos cardíacos e respiração, reduzindo o choro e o stress, aumentando os seus níveis de glicemia, diminuindo a sua dor no momento da administração da injecção intramuscular de Vitamina K e mantendo a temperatura corporal, através da transmissão de calor do corpo da mãe (Matos et al., 2010). A tudo isto, acrescentamos o facto de contribuir significativamente para o estabelecimento do vínculo entre a díade (Lamaze, 2003).” (Fonte aqui) Mesmo assim, ainda é muito comum nos partos hospitalares que as mães só façam a primeira amamentação muitas horas depois de já ter dado a luz. Lembrando que o primeiro aleitamento é onde vem infinitos níveis de hormônios e anticorpos do organismo da mulher para o filho, logo, é o mais importante de todos os procedimentos para deixar o neném “blindado”.

É por todo esse comentário aí acima que a humanização do parto é uma briga de muitas das mulheres (e não só delas, como é óbvio). Mas e aquele papo de escolha da mulher? Acha que é balela? Agora vamos ver porque é uma pauta de luta feminista e de ativistas em geral.

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Citando novamente: “No Brasil, cerca de 52% dos partos são feitos através de cesarianas, um percentual bastante elevado. Na rede privada, o número de cesáreas chega a absurdos 82%. No SUS, o parto normal ainda predomina, já que somente 38% dos partos foram por cesáreas em 2011. Porém, em 2010 este número no SUS era de 24%, o que mostra um preocupante crescimento. A OMS (Organização Mundial de Saúde) considera como limite aceitável até 15% dos partos por cesarianas.” (Fonte aqui)

E daí? O que tem de mais nisso?

Pois te digo que tem muito. Não é à toa que está rotulado de “cultura da cesárea”, uma consequência de desinformações e desrespeitos da classe médica (calma, médicos, não odeio vocês de modo algum: mas isso acaba por ser um erro perpetuado não só por parte das instituições como também dos indivíduos do classe).

É óbvio que existem casos em que não há como evitar a cesárea: gravidez de risco, bebê não virou, má formação, etc. Mas é absurdo o número de vezes que isso não passa de uma imposição médica ou de uma “escolha não escolhida” por parte das mulheres. Como assim?

Criou-se toda a fantasia da dor surreal: que medo! é demais! você não vai conseguir! me acode, Odin! A dor do parto aumentada exponencialmente pela falta de informação e pela atuação teatral e sensacionalista nas novelas e filmes. As famílias desestimulam a gestante, afirmando que ou se é muito magra e não vai conseguir ou se está muito acima do peso e vai ser arriscado (muito embasado e refinado o argumento, não acham?). Tudo isso para um procedimento que acontece desde que o mundo é mundo, a mulher é mulher, mamífera, evoluída e nascida com útero. Toda uma preparação natural e milhões de anos de evolução para que a mulher esteja pronta para passar por esse processo natural (ou como as cristãs gostam de dizer: se Deus permitiu e nos fez assim é porque conseguimos), e vem um médico, homem, que nunca pariu nem vai parir, dizer que “é muito doloroso, você não vai conseguir”. Ou mesmo da própria família, impressionante e infelizmente. Criou-se uma infeliz cultura em volta disso e que se perpetuou de forma muito bem sucedida no Brasil.

As consequências dessa cultura te digo já. Segundo Volochko (2006), “reduzindo-se as taxas (de cesáreas) pela metade, estima-se que 297 mortes maternas não ocorreriam e haveria uma redução de 28,5% na mortalidade.”. Entendeu o que você tem a ver com isso? É uma questão de saúde pública, não só uma luta do feminismo ou puramente feminina.

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Quando disse também que se tratava de uma imposição médica é porque tenho visto em inúmeros relatos a seguinte situação: a grávida inicia o pré-natal, fase em que há o acompanhamento, aconselhamento e a troca de informações entre médico e paciente. O médico que faz o pré-natal, via de regra, é o médico que faz o parto (tirando os casos de partos pelo SUS, que não melhoram, já que quem faz o parto é um plantonista qualquer que lá esteja e que não acompanhou o histórico da grávida e com certeza não vai saber das escolhas e preferências dela); passado meses de acompanhamento, o médico sentencia: só faço se for cesárea. Se quiser ter parto normal, tem que trocar de médico.

E aí? Como trocar de médico assim do nada, nos últimos meses da gravidez? Como assim só faz cesárea? Como assim me acompanhou e não aceita a minha escolha? Ou pior, aquele caso em que nunca foi dada a informação sobre ambos os partos, somente a decisão do médico: a cesárea é melhor.

Querendo ou não, a cesárea ainda é uma cirurgia e que envolve riscos 3 vezes maiores do que um parto normal. Ainda é um corte de 7 camadas de pele, ainda é a perda de todos os anticorpos de quando o bebê sai naturalmente da mulher (!), ainda é a cirurgia que deixa a mulher 3 dias de cama sem poder fazer a primeira amamentação, que é um “detalhe” importante, como já coloquei aqui no texto antes.

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Já falei das consequências, das situações prévias e atenuantes, agora vamos falar das motivações médicas para que isso aconteça. Não que todos os médicos sejam “malvadões”. Eles salvam vidas, mas também condenam muitas vezes (voluntariamente ou não). É o preço de se trabalhar com um objeto tão delicado que é a vida humana. Mas então por que raios motivam e incentivam a perpetuação desta cultura da cesárea? Ei, somos um país capitalista, vamos fazer a pergunta óbvia: o que eles ganham com isso?

Pra ninguém dizer que sou a única a dizer isso e ficar o dito pelo não dito: “A questão é econômica, pois os médicos precisam atender no consultório (para sobreviver) e nem sempre conseguem dar assistência suficiente às parturientes que optam por terem parto normal. Sabe-se que os partos normais podem levar muitas horas para acontecer, e não são todos os médicos que conseguem se dispor a isso, considerando os valores pagos pelos convênios“, observa a psicóloga Cynthia Boscovich. (Fonte aqui).

Ora, vamos ser precisos: parto normal pode levar um dia inteiro, portanto demorado e tem um custo X. O parto cesárea é mais rápido e tem um custo Y. Se o médico, que tem uma agenda toda marcada, atender à vontade da paciente, ele vai ficar horas e horas num parto normal pra ganhar entre R$ 3.000 ou R$ 4.000 reais; isso quando pode fazer muitos outros partos que sejam cesáreas no mesmo dia e cobrar R$ 3.000 ou R$ 6.000. Ou seja, muito mais lucrativo num dia de trabalho, atendendo muito mais pacientes. Dever cumprido, dinheiro no bolso. Mamãe, dá uma medalha pra ele.

Para a mulher isso significa apenas uma recuperação mais lenta, os riscos 3 vezes maiores (de vida, de infecção, pro bebê…), a voz reprimida com a falta de escolha… Quase nada, hein?

E agora, José? Entendeu por que é este um motivo de militância e uma pauta para todos? Fica o convite à luta, à discussão e à propagação da informação!

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