Escolas, inclusão social e a criança com deficiência

Essa publicação surgiu desse acontecimento aqui:

Eu estava cuidando da loja de minha mãe, quando uma cliente apareceu acompanhada de um rapaz de 17 anos muito agitado, falante pra caramba, mas que não articulava muito bem as palavras. A mulher me contou que esse menino era hiperativo e tinha um atraso mental de 11 anos. Ou seja, ele tinha a mentalidade de uma criança de 6 anos.

Ela comprou um anel e duas pulseiras pro menino, reclamando que não aguentava mais comprar essas coisas, porque os meninos da rua viam que ele tinha deficiência e tomavam as coisas dele.

Depois de perguntar como estava meu sobrinho, que também possui uma deficiência, ela contou como estava difícil arranjar uma escola para o neto. Que já o tinha colocado na APAE, mas o despreparo era muito grande: ele estudava numa sala com outras tantas crianças de variadas idades e deficiências, com níveis de dificuldade de aprendizagem e necessidades específicas muito diferentes das que ele tinha. Por conta disso e sem ver o desenvolvimento acontecer, a familia o tirou da escola especial e o matriculou na escola regular. Depois de muita discussão e briga, colocaram-no na 8ª série. Mas como manter na oitava série um rapaz que tem a mentalidade de uma criança de 6 anos e ainda não aprendeu nem a ler ou escrever?

“A nossa luta é que ele consiga, pelo menos, aprender a ler. Pra ler, no mínimo, o que tá escrito no ônibus e não se perder… senão é muito ruim, fica difícil”, disse ela.

Esse é só um caso dentre tantos que existem. Eu, que estudo para ser professora de língua e literatura portuguesa e que sou tia de uma criança com Síndrome de Dandy Walker, sei que a culpa não é do professor, nem dos pais quanto menos da criança. O professor de escola regular não é preparado para essa situação. Licenciatura em Letras, Matemática, Geografia, Educação Física, Biologia ou seja lá qual outro for não prepara professor para chegar à sala de aula e cuidar de um aluno que exige muito mais atenção, que precisa de métodos e cuidados diferentes das outras crianças. Se o ensino regular já está complicado para o aluno e para o professor, como acham que está o ensino especial?

Entretanto, as crianças especiais não têm menos direitos que as ditas “normais”. Seus pais são pessoas comuns que pagam impostos, votam e cumprem obrigações como todos os outros – mas tem uma luta a mais, dentro e fora de casa, para garantir direitos básicos dx filhx.

Escola regular x APAE x Escola inclusiva

Direito à educação

 

No Brasil, temos um problema que seria cômico se não fosse trágico. A solução que encontraram para transformar a escola em um ambiente “socialmente inclusivo” foi: colocar rampas e um ou dois intérpretes de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais). E voilá, somos inclusivos!

Mas espera aí: deficiência é só auditiva, comunicativa e motora? E os alunos autistas, alunos com hidrocefalia, alunos com síndromes diversas? Para eles basta a rampa e um intérprete de LIBRAS?

As APAEs são essenciais para o desenvolvimento da criança especial. Infelizmente, não recebem a atenção necessária para prover uma estrutura e organização adequada para todos os seus alunos. O recurso público, como sempre, é um impasse que atrasa a vida das crianças que dependem dessa ajuda e dos profissionais que têm que se virar pra fazer seu trabalho com aquilo que têm ao alcance.

Muitas crianças especiais frequentam, simultaneamente, a APAE e a escola regular. Outras só vão à escola regular – aqui entra determinadas discussões como: aceitação dos pais (muitos não conseguem aceitar que seu filho seja “imperfeito” e acabam negligenciando um apoio importante que a criança necessita), conscientização das demais pessoa que não compreendem, entendem ou convivem com as deficiências (os alunos, por exemplo, que comumente excluem e zombam da criança especial, indo completamente de encontro à proposta da inclusão social), preparação dos professores (um aluno com hidrocefalia que use válvula, por exemplo, pode ter um minuto de desatenção mal visto pelo professor, mas que seja um momento crítico em sua vida: à desatenção, seguem a tontura, a dor de cabeça, o vômito e provavelmente ele está tendo um ataque ou problema com a válvula. Como o professor saberia lidar com isso?).

A escola é um dos ambientes de desenvolvimento social mais importantes da vida da criança. É onde ela vai criar os primeiros círculos de amizade e aprender a conviver em grupo. Mas não é assim que acontece para a maioria das crianças especiais: a escola regular acaba sendo um obstáculo em sua vida, uma barreira social e a criança pode acabar criando repúdio e nunca mais querer voltar, ao invés de conseguir o tão almejado desenvolvimento.

A proposta de fechamento das APAEs

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Agora sim um assunto que está repercutindo, pondo muitos pais loucos e talvez você já tenha visto por aí: o fechamento das Associações de Pais e Amigos dos Especiais.

Como deu pra ver no depoimento da mulher que deu início a essa publicação, as APAEs não são as escolas de melhores condições – mas o problema é muito claro: a falta de recursos, que desencadeia outra série de problemas estruturais, organizacionais, materiais, etc. Com todos os seus problemas, entretanto, em muitas cidades as APAEs são a única alternativa das crianças especiais. São, muitas vezes, as únicas instituições a que podem recorrer os pais que não conseguem ver seus filhos se desenvolverem ou encaixarem nas tais escolas regulares e/ou inclusivas.

A tal proposta de fechamento das APAEs, de autoria do Deputado Angelo Vanhoni, vêm da modificação da meta número 4 do Plano Nacional de Educação. A META 4 do PNE original diz:

 “Meta 4: Universalizar, para a população de 4 a 17 anos, o atendimento escolar aos estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação na rede regular de ensino”.

A META 4 modificada e em votação no senado:

“Meta 4: Universalizar, para a população de quatro a dezessete anos, o atendimento escolar aos alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, preferencialmente, na rede regular de ensino, garantindo o atendimento educacional especializado em classes, escolas ou serviços especializados, públicos ou comunitários, sempre que, em função das condições específicas dos alunos, não for possível sua integração nas classes comuns.”

Aparentemente, a ideia não é tão má. Ao invés de criar escolas especiais, prepararia escolas regulares para, de fato, receberem alunos especiais. Mas mesmo nossas escolas regulares têm problemas estruturais e ultra básicos (e não só: muitas nem sequer tem intérprete de LIBRAS), prepará-las para os alunos especiais é um passo enorme, mas é muito maior do que as pernas do atual Estado consegue dar.

Ao fazer essa proposta, o Deputado Angelo parece cair num erro que muitos pais também cometem quando descobrem que seus filhos têm necessidades especiais: ao invés de encarar o problema e fazer de tudo para propiciar o melhor para seu desenvolvimento, fingem que o problema não existe e que são todos iguais, com necessidades iguais e podem viver comumente no seu mundo paralelo de paz, amor e idealismos.

Mas não é assim! Alto lá!

Essa proposta, ao analisar em seu núcleo duro, insiste na inclusão radical, que vai exatamente no caminho oposto da inclusão social. O aluno especial precisa de atenções especiais, condições especiais e métodos diferenciados. Não adianta colocá-lo numa rede regular se também os outros, alunos e funcionários, não estiverem preparados para lidar com o novo membro. inclusao

Infelizmente, a realidade é que só temos campanhas de conscientização para um número limitado de problemas: crianças com câncer, síndrome de down e autismo. É o máximo do máximo que chega a aparecer em panfletos, televisão e rádio. Mas o problema é muito além disso! O quadro é muito mais amplo e complexo.

Está a escola regular – inclusiva quando possui rampas e intérpretes de LIBRAS – pronta para receber todos os alunos com necessidades especiais? O fechamento das APAEs, ao invés de seu melhoramento, é legítimo?

Vou deixar a reflexão com vocês, que talvez nunca precisaram se preocupar com esse quadro por não ter vivenciado isso como parente, aluno ou professor.

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Um comentário

  1. Como você disse ate parece boa a proposta se não fosse ousada demais para um governo obsoleto demais, ignorante e passivo.
    Criar emendas, propostas, projetos,e modificaçoes arquitetonicas é facil, dificil é fazer a teoria se tornar literal, monitorar, garantir, dar segurança.
    É claro que existe uma importancia na aceitaçao por parte das pessoas sem deficiencia, para com os deficientes. E tamb’me importa essa socializaçao e quebra de paradigmas, afinal as pessoas deficientes merecem sair da sombra, e do esconderijo a que foram submetidos como aberraçoes da natureza. Contudo discute-se onde pretende-se fazer essa inclusão acontecer? em escolas que professores são ameaçados? em escolas onde alunos entram armados? onde as janelas tem que ter grades e policiais nas entradas?em escolas que falta merenda escolar, quadro, teto, banheiro dentre tantas deficiencias fisicas e profssionais que existem? que garantia esse governo nos dá que todas essas escolas tem condiçoes de serem ~”adaptadas” ao ponto das apaes serem extintas?
    Meu filho ainda não estuda, mas eu teria uma imensa preocupaçao e talvez ate preferisse não coloca-lo numa escola regular quando ele tiver idade e condiçoes para isso, pois imagino eu que o bulling seria ainda o menor dos problemas me preocupo mesmo é com sua violaçao fisica, quantos nao poderiam tirar proveito de sua condiçao para lhe fazer abusos? meu filho é um garoto, e as meninas que terão corpo de mulheres e a mentalidade de crianças, sera que os demais com plenos hormonios brotando em seus rostos entenderão essa diferença?
    acho que ainda ha mto que se discutir, pesquisar antes de se IMPOR essa teoria, que na pratica vai ser bem diferente.

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