Comentando as eleições de 2014

Precisava fazer uma publicação comentando isso, pois, ao menos para mim, essas eleições foram de importância significativa. É a minha primeira eleição de presidenciáveis com orientação política definida e melhor entendimento acerca do contexto econômico, histórico e social do meu país.

 

Imparcialidade midiática, pero que no

 midia

Num primeiro momento, tivemos 11 candidatos à presidência, entre esquerda, centro-esquerda, centro-direita, direita e direita-pra-caramba. Vale ressaltar que isso é só no papel, porque a mídia resolveu apresentar apenas 07 ou 08 deles à população, ignorando os demais com sucesso. Observação curiosa é que dos quatro candidatos marginalizados dos debates midiáticos, três eram da esquerda política (Mauro Iasi, Zé Maria e Rui Pimenta – respectivamente, PCB, PSTU e PCO).

A direita conservadora veio com tudo nessas eleições, apresentando candidatos quase cômicos como Levy Fidelix (que resolveria tudo com mais militarismo) e Pastor Everaldo (que resolveria tudo privatizando). Figuras da direita que chegaram disfarçadas, tentando captar votos dos dois lados, mas com políticas bem definidas (e com o lado bem definido!), como Marina Silva (e sua forte bancada evangélica) e Eduardo Jorge (que mesmo defendendo pautas progressistas, não escondia seu histórico e deixou claro que não mudara apoiando Aécio no segundo turno).

A esquerda, por sua vez, só encontrou representante em Luciana Genro (PSOL), já que Dilma está ali dançando entre centro-esquerda, centro e centro-direita. Os demais, como dito anteriormente, nem chegaram ao conhecimento da massa, ficando restritos aos militantes que já os conheciam.

 

Segundo round

 

Assim, com tantas boas opções apresentadas à massa votante, voltamos à belíssima polaridade PT e PSDB no segundo turno. Voltamos pr’aquilo que parece definir todas as eleições de todas as esferas que acontecem no Brasil: o mal menor. Prova disso é o fato registrado pelo TSE: votos nulos e brancos sempre tem números menores no segundo turno, quando são apenas dois candidatos, do que no primeiro; mas abstenções sempre são maiores.

De um lado, PT, com seu histórico contraditório: conquistas importantes seguidas de muita impopularidade proveniente de escândalos, alianças inescrupulosas, cadeiras cedidas para pessoas inaceitáveis, políticas econômicas não condizentes com àquela que o partido diz defender.  Do outro lado, PSDB, com seu histórico conhecido: direita por excelência, medidas impopulares, lista de corrupção tão grande quanto a do oponente, políticas neoliberais e de higienização social. Enfim: apesar de parecerem, à primeira vista, opostos, os partidos do segundo turno tinham mais em comum entre si do quem com seus eleitores. Ambos partilhavam, inclusive, o mesmo financiador/investidor de campanha, a empreiteira UTC – envolvida, aliás, em escândalos políticos enormes e até mesmo ligações com trabalho escravo.

E o eleitor fica como, hein?

 

Sobre campanha eleitoral

Para o eleitor, a campanha eleitoral começa em Julho. Para os partidos, começa assim que um novo candidato é eleito. Indiretamente, é claro. Vejo muitas pessoas dizerem, por exemplo, que “não se manifestaram em Junho (2013) para votar no PT”.  Pois digo que não há melhor momento para manipulações do que quando a massa se revolta. O sentimento de indignação, raiva, revolta e etc, se não for acompanhado de consciência política, é veículo de manipulação. E assim foi em Junho de 2013.

As pessoas saíram às ruas gritando por mais educação, mais saúde, melhores transportes, melhores condições de vida, menos corrupção. Entendiam que estavam sendo prejudicadas, mas não entendiam por quê. Sem entender por que, não entendiam por quem. Não sabendo por quem, qualquer um podia ser o culpado. Calhou que o governo é petista. Calhou que era Dilma a presidente. Era a vez da direita se apropriar da situação.

Chamo a atenção de quem lê: não estou, de forma alguma, isentando o partido de culpa. O PT não é o único partido envolvido em escândalos de corrupção, não é o único que desvia dinheiro, não é o único que tira direitos, que cria sub-empregos, que sucateia nossos serviços públicos. Não é o único mesmo. Mas privatizou nosso bem maior: o petróleo. Mas insiste em pagar a dívida externa, que consome quase 50% do nosso PIB, retirando assim recursos que poderiam suprir aquilo que exigimos nas manifestações: educação, saúde, transporte, moradia e qualidade de vida.

Não tem culpa o PT? Ora, tem sim. Ele e todos os outros. E tendo começado se dizendo da esquerda política e feito reformas importantes para a classe pobre e trabalhadora, a direita encabeçou o movimento de “Fora PT”, jogando toda a culpa no partido da presidência. Demonizou a esquerda, tão corrupta e inimiga de todos, que queria transformar o país em “Cuba”, alimentando “vagabundos” com seus assistencialismos – só não disse quão aliados à própria direita estava o PT. Com os indecisos de Junho, cresceram candidatos como Marina Silva (que se dizia nem direita nem esquerda e depois apoiou Aécio e baixou a cabeça para a bancada evangélica conservadora), Eduardo Jorge e o próprio Aécio Neves, pois era este o adversário “de oposição” do PT.

A frase “FORA PT” virou um mantra. Tudo era culpa do PT. E a solução estava no outro partido, no maior, no “melhor”… à direita: o PSDB. Na direita que atacou tantos direitos dos trabalhadores, que fustigou tanto aos pobres e sempre reprimiu manifestantes. Isto porque o mantra ainda maior que “FORA PT” é este: “os outros partidos não vão ganhar mesmo”, eliminando todo e qualquer outro plano de governo, ainda que melhor que esses dois que revezam toda eleição.

Assim, o eleitor se viu mais uma vez entre a cruz e a espada. E os votos que surgiram não foram votos de confiança, de quem está votando convicto por saber-se bem representado. Não! Como a polarização PT/PSDB, surgiu a polarização dos votos: votos anti-PT e votos anti-Aécio. Votos de quem estava cansado e desiludido com o partido que se dizia “dos trabalhadores” e votos de quem estava cansado e desiludido com o partido tucano. Votavam Aécio para castigarem o PT. Votavam Dilma para fugir do PSDB. Nunca verdadeiramente representados.

Diz-se que os eleitores de Aécio são classe média e/ou alta, pois é pra esses que o partido governa. Mas Dilma safou-se no segundo turno com menos de 3% de diferença. O que isso quer dizer? Por mais otimista que fosse, não posso acreditar que 48% do Brasil seja classe média/alta, elitistas votantes do Aécio, beneficiados por sua política para ricos. Aí estão muitos trabalhadores, muitos pobres, muitos miseráveis até. Muita gente cansada de PT. Isso mostra o tamanho da culpa que o partido carrega por sua degeneração, por se vender e aliar ao dinheiro e não ao povo.

E os votos nulos? Foram fortemente desencorajados, uma vez que independente do número de votos nulos e brancos, um dos candidatos seria eleito da mesma forma. E se o que fosse eleito fosse muito mal, a culpa certamente seria daquele que votou nulo/branco. Eu quero falar um pouco mais disso, vamos pruma conversa específica.

 

Se não o mal menor, o que fazer?

 

No primeiro turno, com 100% das urnas apuradas, o número de votos em branco na disputa pelo Planalto foi de 4,4 milhões e o de nulos, de 6,6 milhões (5,8% do comparecimento), enquanto pouco mais de 27,6 milhões de eleitores deixaram de comparecer às urnas, gerando uma taxa de abstenção de 19,39%. Juntos, esses eleitores somam 38,7 milhões de votos (27% de todos os aptos a votar), uma quantidade superior à votação de Aécio Neves (fonte aqui). No segundo turno, 6% dos eleitores anularam ou votaram em branco, mas o número de abstenções cresceu de 19% para 21% (fonte aqui). São cerca de 40 milhões de brasileiros que não se sentem representados pelas opções que têm.

Se por um lado o voto nulo é desencorajado por não ter nenhum efeito prático, creio que ¼ do país não representado é muita coisa. Muita coisa mesmo. E que seria muito mais se as pessoas realmente expressassem aquilo que sentem e pensam em relação aos candidatos, às eleições e ao próprio sistema eleitoral. E sendo mais, duvido que não surtisse efeito. Imagine que chegássemos à marca de 50% (ou número aproximado) de votos nulos, brancos e abstenções. Ainda assim um candidato seria eleito, certamente, mas não reagiria o país vendo metade das pessoas não representadas? Metade, sério?

Obviamente, estou falando de uma hipótese. Entretanto, é uma hipótese provável, quase palpável, e me arrisco dizer que ainda não aconteceu não só por conta da persistente ilusão na democracia eleitoral que as pessoas têm, mas principalmente no desencorajar do voto nulo como política viável aos cidadãos.

Quem mesmo querendo não vota nulo porque “não anula eleição” porque “ainda assim um candidato será eleito” está sendo legalista. E o problema de ser legalista é que as pessoas que criam as nossas leis são as mesmas pessoas que você diz “não me representam”.

Toda essa conversa para dizer, enfim, que sim, pessoas têm poder; que sim, o voto nulo pode surtir efeito, desde que bem pensado; que não, você não precisa escolher o “mal menor”; e que não, democracia e política não se praticam apenas nas urnas, mas principalmente nas ruas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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