Empoderamento infantil: o que, por que e pra quê

o-770x403

Diariamente, nos deparamos com grupos militantes das mais diversas causas: contra o machismo, contra o racismo, contra a homofobia, contra o militarismo, contra a indústria bélica, contra o neonazismo, contra os agrotóxicos… Enfim, contra uma pá de coisas e a favor de outras tantas.

São movimentos importantíssimos já que, se empenhando na divulgação de informações, ajudam a fomentar a reflexão e o pensamento crítico, chamando atenção para as mazelas atuantes na sociedade e que precisam ser transformadas. Mas há um público esquecido nisso e que não sofre menos com essas estruturas e problemas: as crianças.

As crianças deveriam ser o primeiro público-alvo de todo movimento, pois para mudar a estrutura de uma pirâmide, começa-se da sua base e não do topo.

Será delas a geração dos novos ideais, das novas lutas, das novas esperanças. Delas se espera que venha a geração que não segregue pela cor da pele, pelo cabelo, pela sexualidade, pelo gênero, etc, e que também não sejam reprimidas por isso em sua liberdade pessoal. Então por que os movimentos não lhes dão atenção?

A criança nunca fez parte do mundo adulto, é tratada como um objeto alienado, à parte da realidade que vivemos, pois não possui postura e participação política. Aqui está o erro.

Vou dar exemplos práticos: recentemente, a filha de uma amiga estava para fazer aniversário. O que ela mais queria de presente era uma princesa! Minha sobrinha mostrou algumas bonecas no Google, perguntando qual delas ela queria. Várias apareceram: a princesa arqueira e ruiva do filme Valente, a princesa morena de A Princesa e o Sapo, a princesa-sereia Ariel, também ruiva… entre tantas, uma princesa loira, a Barbie. Foi a que nossa pequena apontou: eu quero essa. Clássico. É a marca mais difundida, americana, loira do cabelo liso. Minha sobrinha insistiu: “e essa? Ela é linda não? Olha, o cabelo dela é cacheado como o seu” (ela é branca com cabelo cacheado preto), ao que a menina respondeu: “não, tia, eu quero essa; só a loira é princesa de verdade”.

Nem precisaria me debruçar muito sobre esse acontecimento, porque é auto-explicativo. As crianças estão à disposição da mídia e do mercado, que querem vender independente de reproduzirem arcaicos papéis de gênero e continuarem a perpetuar os preconceitos sociais que tanto temos. Crianças não nascem preconceituosas, mas adquirem isso socialmente, seja dos pais, dos amigos ou dos meios aos quais estão expostos. O empoderamento infantil atua junto às crianças e os pais para evitar que esse tipo de coisa aconteça.

A criança é naturalmente tratada como um empecilho no mundo do adulto: ela não pode tocar nisso, não pode ouvir aquilo, não pode opinar, não pode participar. Ela está no mundo da “gente grande” e não é bem-vinda para participar dos debates e partilhar aquele conhecimento ativamente. Subestima-se a capacidade e a inteligência da criança, legando a elas a reprodução daquilo que ouvem e negando a possibilidade de interpretarem os fatos, lidarem com problemas, refletirem e procurarem soluções. Elas precisam refletir sobre quem são no mundo e sua representação, como participam na conjuntura. Citando uma matéria da Revista Fórum sobre empoderamento infantil (disponível aqui):

Se as crianças vivem no mesmo mundo que os adultos, cercadas pelas mesmas informações e valores, é muito coerente concluir que elas precisam aprender o que é prejudicial a elas e aos outros desde cedo. Caso contrário, também reproduzirão machismo, homofobia e racismo na vida adulta. É importante lembrar que ideias preconceituosas não partem somente de casa, elas estão por toda a parte, da escola à televisão – por isso, embora seja fundamental contar com pais e cuidadores conscientes dessas questões, ainda é possível que essas crianças tragam para casa questionamentos da escola ou de um círculo de amigos. É aí que entra a necessidade de cooperação de todas as pessoas, mesmo aquelas que não são responsáveis por crianças; afinal, a mente infantil é surpreendente e uma criança pode desencadear mudanças em sua residência, dentro de sua própria família.

Como as crianças são afetadas por essas estruturas? Desde que nascem, começa a divisão binária: rosa para menina, azul para menino; para menina, bonecas e panelinhas; para meninos, carrinhos, ferramentas e bonecos de ação. Um não pode se interessas ou brincar com o do outro, porque “é coisa de menina” ou “é coisa de menino”. Reproduzimos os papéis de gêneros, cerceando a liberdade infantil de desenvolver suas habilidades, seus interesses e sua própria personalidade. É o que a educadora e médica Maria Montessori, visionária pedagoga do século XX, exemplificou em seu livro A Criança, apresentando a pesquisa de Charcot:

A substituição da criança pelo adulto não advém apenas do fato de este agir em lugar dela, mas também de ele infiltrar a própria vontade na criança, assumindo-lhe o lugar. Então, não é mais a criança que age, mas o adulto que age na criança. Quando Charcot, em seu famoso instituto de psiquiatria, demonstrou a substituição de personalidade nos histéricos por meio da sugestão, causou uma profunda impressão, pois suas experiências abalaram os conceitos fundamentais tidos como mais seguros: os de que o homem era senhor de seus próprios atos. Todavia, foi possível demonstrar experimentalmente que se podia sugestionar um indivíduo a ponto de suprimir-lhe a personalidade, substituindo-a por outra: a do sugestionador. (…) Existe um período da vida extremamente predisposto à sugestão: o período da infância, no qual a consciência infantil está em formação e a sensibilidade a elementos exteriores se encontra em estado criativo. Então, o adulto pode insinuar-se, quase penetrar sutilmente, animando com a própria vontade a sublime posse que é a vontade da criança e que constitui sua maleabilidade. Em nossas escolas ocorria que, se ao mostrar-se à criança como fazer um exercício, empregava-se demasiada paixão ou exageravam-se os movimentos com demasiada energia ou excessiva exatidão; em decorrência disso, desaparecia nela a capacidade de julgamento e de agir segundo sua própria personalidade. Percebia-se quase um movimento dissociado do eu que deveria comandá-Ia; era como se ela tivesse sido invadida por um outro eu, estranho e mais forte, o qual, embora com uma ação discreta, tivera o poder de arrancar, direi mesmo de derrubar a personalidade infantil dos tenros órgãos que a ela pertencem. Não é apenas voluntariamente que o adulto sugestiona a criança, mas também sem o querer nem saber – sem que tenha idéia do problema.

O adulto não vê a criança como um ser que tem uma vida psíquica independente dele: age como o todo poderoso que determina os horários, as vontades, os brinquedos, os pensamentos, enfim, a vida toda da criança, a fonte de todo seu conhecimento. Dessa forma, reproduzimos os mesmos padrões de sempre, as mesmas mazelas que assolam a sociedade desde as épocas tão conservadoras que não se ajustam mais à realidade do mundo plural atual, como uma peça de quebra-cabeças tentando ser encaixada à força noutro lugar que não o seu. Daí a necessidade de intervir junto aos pais, cuidadores e comunidade em geral, não só junto às crianças, para que o empoderamento infantil seja possível. Mais uma vez citando o artigo da Revista Fórum para finalizar:

Pensando em sintonia com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a responsabilidade pelas crianças é de toda a sociedade. Por isso, todos precisamos repensar a forma como enxergamos meninas e meninos. Oferecer possibilidades para que ambos se desenvolvam livres de machismo, homofobia, transfobia, racismo e outras formas de discriminação deve ser prioridade de todos os adultos, pois uma educação que promova a equidade é essencial. As mulheres da página “Empoderamento Infantil”, pelo menos, lutam com convicção para que essa seja uma realidade cada vez mais presente.

Página de Empoderamento Infantil no facebook, criada pela pedagoga Olívia Coelho.

Livro A Criança, de Maria Montessori, disponível pra download no link. (recomendo!!)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s