A criança: incompreendida e ignorada

Casa, conta, carro, ônibus, faculdade, escola, trabalho, almoço, jantar, limpeza, banho, telefone, internet… Filhos. Crianças. Muitas coisas passam despercebidas a todo segundo nos nossos dias. Muitas coisas ainda passam despercebidas do conhecimento humano, da medicina, da pedagogia, da física, da química, da matemática. Há coisas que são quase um pecado por passarem despercebidas.

A criança passa despercebida por quase todos. Alguns médicos, alguns pedagogos, alguns filósofos: algumas poucas pessoas no mundo se atentaram verdadeiramente à criança, sua psicologia, sua fisiologia, suas necessidades. É claro, a ciência já lhe desvendou o corpo, a mente, as doenças que afligem e como tratar. Mas poucos desvendaram o espírito, o que a criança realmente precisa.

Perspectiva. Karigurashi no Arrietty (O mundo dos pequeninos) conta a história de Arrietty e sua família, seres muito pequeninos, que vivem escondidos sob o sótão de uma família.
Perspectiva. Karigurashi no Arrietty (O mundo dos pequeninos) conta a história de Arrietty e sua família, seres muito pequeninos, que vivem escondidos sob o sótão de uma família.

A criança é veementemente ignorada no mundo, que é um lugar de adultos. O próprio cenário é qualquer coisa próxima de um filme fantástico, análogo à Polegarzinha ou João e o Pé-de-Feijão. João é a criança no mundo do adulto, o gigante. As coisas não estão voltadas à sua perspectiva, os assuntos não são dirigidos pra ela, as perguntas não são pra ela e as respostas válidas não são aquelas dadas por ela. É como se não participasse ativamente no mundo. A criança não está no mundo?! Ou somente o adulto é considerado um ser ativo?

Mesmo a interpretação do seu comportamento é vista tendo o adulto como referencial – incapaz de se por no lugar do outro, ignorando a diferença abismal do estágio de desenvolvimento deste e daquele. Por exemplo, a criança que está fora do seu espaço conhecido, com gente desconhecida, está desconfortável e sente falta do domínio sobre um ambiente que conheça (mesmo que esse não esteja preparado para ela e sim, novamente, para o adulto): ela chora! Chora por quê? Porque tudo isso causa frustração, como nos causa também a impossibilidade de fazer algo que muito desejamos. Tentamos e simplesmente não podemos. Frustramo-nos ao ponto de chorar. Mas nós já domesticamos nossos impulsos, nossos instintos; aprendemos que devemos controlar quando estamos no convívio social. A criança não! Ela é transparente como água e dependente do adulto: então chora. Chora e alto, chora forte, soluça, fica vermelha… Porque ali não é o seu espaço, ali ela não pertence, ali não tem autonomia, ali a ordem das coisas não corresponde ao que sua memória gravou, com muito esforço, repetindo o olhar todos os dias. Para a criança, aquela aflição é enorme. E a resposta do adulto para esse comportamento é impaciência, raiva, voz grossa, autoritarismo (muitas vezes, também, violência e castigo). Culpa a criança porque é “mimada” e não a si mesmo, por coloca-la naquela situação, e a resposta é impor que “se comporte” (leia-se: fique quieta e imóvel). A frustração do adulto é compreendida, a frustração da criança é “mimo”. Aliás, para tudo aquilo que o adulto não compreende no comportamento infantil dá-se o nome de “mimo”, a efetiva falta de comunicação e esforço.

Frustração. Fonte: http://gracinhatristao51.blogspot.com.br
Frustração. Fonte: http://gracinhatristao51.blogspot.com.br

O movimento, a experimentação, o uso expressivo dos cinco sentidos é condição essencial deste pequeno ser – pois está ainda em desenvolvimento, conhecendo o mundo ao seu redor. Está se construindo através daquelas experiências: não conhece as texturas, os cheiros, os gostos, a imagem, a causa e o efeito. Para o adulto, este é um estágio já ultrapassado. Aqui o adulto atrapalha, quando deveria auxiliar, pois a movimentação e inquietude (próprias de um ser que está em descoberta e não porque é mal comportado) são inconvenientes ao seu conforto, exigem de si paciência, tempo e empenho. Novamente, a criança “comportada” e “boazinha” que o adulto deseja é a criança imóvel e muda, mas esta não pode se desenvolver naturalmente sob essas condições.

Outro exemplo, que acontece o tempo todo, é a seguinte cena: a criança está entretida fazendo qualquer coisa (abrindo uma porta, vendo um livro, usando um brinquedo) e o adulto, por alguma razão (pra mostrar a alguém, para ir a algum lado de seu interesse) simplesmente a pega e sai. Interrompe o que ela estava fazendo, como qualquer coisa inútil, e a leva consigo. Parece algo bobo, não é? Imagine-se nessa situação, onde você está trabalhando em algo ou fazendo o que quer e alguém simplesmente o interrompe e arranca bruscamente por motivos pessoais. Vou fazer uma analogia boba: é como se o adulto fosse um jogador de The Sims com total controle e poder de escolher, definir e cancelar as ações da criança quando bem entender como se essa estivesse unicamente sob sua vontade, uma sombra de sua existência.

images (1)

Acho que avancei demais, preciso voltar um pouco atrás. Pois essa almazinha é ignorada muito antes de tudo isso, começa antes até da sua chegada ao mundo.

O parto! O parto é cercado de muitos mitos, muitas desinformações, muitos interesses políticos e econômicos. A desinformação da mãe – que não é culpa dela, insisto –, a falta de profissionalismo dos médicos e a desumanização do sistema prejudicam a criança. Ignora-se que ela tem seu tempo pra nascer e precisa passar por aquele ritual, a expulsão do corpo, passar pelo sexo da mãe de onde receberá toda proteção que a natureza poderia oferecer, precisa do contato com a pele da sua progenitora para acalmar os batimentos e reconhecer alguém nesse novo mundo. Mesmo quando é necessária intervenção cirúrgica, o correto seria um parto que respeitasse à mãe a o bebê. Idealmente, o parto deveria ser sem drogas, sem cortes, sem intervenções desnecessárias, respeitando o tempo e o corpo de ambos. Mas não é assim. A taxa de cesarianas elevadíssima mostra que a criança é ignorada por mais gente do que se imagina: retirada abruptamente de seu ambiente de proteção, onde se formou e viveu até então no escuro e conforto, e trazida (normalmente) para o local super-iluminado e frio da sala de cirurgia, ou qualquer ambiente hospitalar, sendo manejada indiferentemente pelos médicos, como se fosse mais um objeto e não um ser humano que inicia ali sua trajetória. Procedimentos invasivos são feitos, passa-se a criança de uma mão para a outra e essas são as primeiras horas de vida externa de um bebê. Para tantos objetos temos o cuidado imenso de manejar, até de esterilizar as mãos e usar luvas, mas para o bebê tanto faz. A lógica impressiona. Daí a necessidade de fortalecer os movimentos de humanização do parto: pelas mães e pelas crianças. Já se sabe que a vida psíquica da criança começa desde a barriga e que ela sofre com traumas trazidos desde o ventre por inúmeras razões. Não seria também o parto um momento para se pensar na vida psíquica da criança? Se o estresse da mãe, por exemplo, gera traumas na vida do feto que ainda reside no útero, não traumatiza também o parto antinatural e violento? Não é de se esperar que tenha consequências?

gritos-600x424

Não é que a criança seja um ser divino e todos tenham que abdicar de suas vidas para cuidar somente dela, mas, pelo contrário, que esse cuidar não significa termos que abdicar de nossas vidas e sim preparar-nos enquanto adultos e referências de seus mundos.

Agora que fiz esse recorte, podemos prosseguir.

Tenho usado a palavra “ignorar” quando isso, na verdade, não é realmente possível. Não é possível para o adulto simplesmente ficar assistindo a criança chorar, admiti-la explorar fora de seu campo de visão, vê-la descuidadamente quebrar algo enquanto descobre, vê-la tocar aquilo que não deve ser tocado, vê-la tirar do lugar coisas que ele quer que fique ali, vê-la comer o que não deve ser comido… O adulto não fica inerte às ações da criança. É preciso calar, aquietar, sossegar. Mas de que forma isso é feito? Invés de compreender a situação e tentar atender da melhor forma possível, sem prejuízos, o adulto tenta contornar da forma que lhe é mais conveniente. Daí tantas crianças, hoje, apresentadas tão precocemente à televisão, aos tablets, celulares, DVDs portáteis, aos brinquedos que brincam sozinhos. A criança é calada, imobilizada (assim, posta na condição de “bom comportamento”) com algo que a torne expectadora, que prenda sua atenção sem atender aos seus anseios e necessidades. Algo lá dentro ficou lacunoso, ficou incompleto, sem resposta, sem preenchimento.

Fonte: sounoticia.com.br
Fonte: sounoticia.com.br

Assim, sucessivamente, amortizando e sufocando suas necessidades mais básicas, vamos acumulando lacunas no espírito e na mente da criança. A parte complexa é que o ser humano não é unidimensional e atemporal. Ele não existe somente naquele momento e naquele espaço, sendo outro completamente diferente quando em outro instante e outro local. Ele é cumulativo, suas vivências se acumulam e formam aquilo que ele é, constroem sua identidade. Logo, todas essas lacunas, essas falhas, essas não-respostas e incompletudes um dia se traduzirão na personalidade da criança. Crescerá e se formará não somente, mas também sobre isto que o adulto criou sobre si. Ela será também um adulto. E que adulto será essa criança incompleta, proibida de se desenvolver sadiamente nas condições que seu corpo e mente exigem naturalmente?

Portanto, essas questões são do interesse de todos enquanto indivíduos sociais. Não somente dos pais, da família, dos educadores. Bem colocado está no artigo 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente que “é dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária”. Preocupar-nos não só porque integrarão a sociedade enquanto adultos construídos por ela própria, mas antes porque já integram a sociedade, ainda que crianças. Preocupar-nos porque se tratam de vidas, de seres humanos, e isso deveria bastar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s