Quem se importa com a violência contra as mulheres?

Esse não é um texto como todos os outros que faço, com suas partes bem delimitadas. Esse será feito de relatos e reflexões, não preciso buscar muitos depoimentos pra falar de violência contra mulheres, porque eu própria sou parte desse círculo. Num dos posts sobre feminismo aqui do blog, alguém comentou que “o feminismo só quer resolver o problema das mulheres, não resolve os reais problemas do Brasil”. Então a violência e opressão contra as mulheres não é um “real problema”? É um problema menor, mínimo, secundário? Vamos lá pensar sobre isso…

Quando eu era criança, andava com meus sobrinhos – já que minhas irmãs eram muito mais velhas que eu. Lembro que meu ex-cunhado, pai de três dos meus sobrinhos, nos levava pra passear e, no carro, ensinava os filhos e seus primos a mexerem com as mulheres e meninas na rua. Chamavam de “courinho” (de “couro”; como se fosse um pedaço de carne andando e eles animais babando prontos para atacar). Eu, na minha criancice, não questionava isso. Não me perguntava se aquelas mulheres gostavam ou não disso, não perguntava por que eles faziam aquilo. Eu ficava quieta, porque menina não mexe com ninguém na rua. Ninguém me ensinou a chamar meninos de “courinho”, de “gatinhos”, de “gostosos”. Ainda bem, mas é um pormenor curioso. Hoje sou eu quem não gosta desses caras que mexem comigo na rua e converso muito com meus sobrinhos para que não o façam também.

Esse ex-cunhado me assediou sexualmente durante quase uma década. Quando começou, eu tinha apenas sete anos. Lembro de ele me por sentada no seu colo, com meus dois sobrinhos por perto (todos mais novos que eu, um dos irmãos ainda não tinha nascido), minha irmã lavava a louça no outro cômodo. Ele passava a mão no meu cabelo e fazia carícias que me deixavam desconfortável. Eu me perguntava, bastante confusa, se adulto fazia carinho assim, se era porque ele era da família, mas meu pai não fazia e nem minha mãe… Isso me confundia e me fazia calar. Mas os anos passaram e os carinhos não paravam: passava a mão na minha perna quando estava dirigindo (porque eu era a mais velha e ia na frente, embora tentasse não ir por causa dele), ficava passando a mão no meu cabelo, nos meus braços… Lembro de uma fase em que comecei a falar palavrões, muitos palavrões, sempre que ele se referia a mim. Isso não é normal na minha família, que era muito conservadora: eu detestava palavrões! Tão feios, custava muito a sair! Mas fazia isso porque acreditava e me baseava naquelas repreensões que ouvia: “ninguém gosta de criança mal educada que fala palavrão”. Então esperava que ele, por causa da minha “má educação”, ficasse bravo e saísse de perto de mim, desgostasse de mim. Nunca fui estuprada, mas ir me deitar já foi um dos momentos mais medonhos da minha vida. Porque eu tinha medo, e sabia, que ele viria à noite. Que eu acordaria com ele me apalpando à noite e que não conseguiria gritar, porque o medo e o sentimento de impotência travavam meus dentes – e poucas vezes, com um esforço hercúleo, conseguia dizer “sai daqui”. E eu não podia contar pra ninguém, não queria acabar com o casamento da minha irmã e deixar meus sobrinhos sem pai (não sabia o favor que faria, mas felizmente o casamento acabou há uns anos). Não queria carregar essa culpa. Esse cara fazia a mesma coisa com minha outra irmã, minha sobrinha, a amiga da minha irmã (nossa vizinha). Era pedófilo mesmo. E eu tinha que conviver com sua presença dentro de casa, conversando e respeitando como crianças devem fazer com adultos, como se nada tivesse acontecido. Ele era sócio do meu pai, ainda tinha mais essa. Tudo amarrado para eu me sentir culpada demais pra falar qualquer coisa e estragar tudo isso. E quem se culpava por estragar minha infância e adolescência? Por não me deixar desabrochar a feminilidade, descobrir minha sexualidade e me manter afastada de meninos e homens, como potenciais parceiros, por muito tempo? Quem seria culpado por eu ir dormir com medo e, até hoje, olhar cuidadosa e amedrontada para brechas de portas para ter certeza que ninguém está me espionando?

Às vezes ouço da minha colega de trabalho que mulher que engravida de cara novo ou desempregado é muito burra, porque devia saber que vai ser mãe solteira. Eles não vão mudar e vai sobrar tudo pra ela. É um tom de “realista, mas determinista” como se nada pudesse mudar, sempre foi assim e sempre será. Culpa nossa porque engravidamos, culpa nossa porque ele nos deixou, culpa nossa porque ele não vai ser pai, culpa nossa porque devíamos saber disso e seremos mães solteiras. Por culpa nossa, teremos que trabalhar dobrado para arcar com as despesas, porque o pai é jovem e desempregado (ou ganha pouco) e não vai dar pensão óbvio. Culpa a nossa que por causa do trabalho dobrado, tenhamos pouco tempo pro filho e ele cresça sem pai. Culpa nossa por engravidar e não poder abortar porque “escolhemos” engravidar, mesmo que não planejado. Existe remédio, afinal. Mas o aborto dele tudo bem, porque ele não carrega sobre si o peso do ideal romântico de “mãe” que tem que amar incondicionalmente ainda que isso custe sua vida e muitas dores…

Às vezes ouço de muitas mulheres as coisas que ouviram quando foram ter filhos: “na hora de fazer não gritou, né?”, “se continuar gritando, vou te deixar aí até amanhã”, “não faço parto com dor” (fala de um médico que não faz parto sem aplicar injeção de analgesia na mulher, mesmo que ela não peça… poxa, a dor não é dela? Ou ele é que sente?), “não tenho o dia todo” (dizem os médicos que fazem cortes com bisturi no períneo – região entre a vagina e o ânus – para o bebê descer mais rápido; ou o que forçou com o braço (manobra de Kristeller), às vezes subindo em cima da barriga da mulher em plena fase de expulsão do parto, para empurrar o bebê para fora).

Nada disso importa a ninguém, só vejo mesmo as próprias mulheres pedirem por mudança – e muitas vezes são taxadas de vitimistas e tratadas como quem faz tempestade em copo d’água. Porque os homens também sofrem violência, então tudo bem sofrermos também…

Ontem acompanhei um colega de trabalho, motorista do sistema penitenciário, até duas unidades prisionais da minha cidade. Ele precisava levar de volta às unidades, três reeducandos que trabalham aqui para redimir a pena. No carro, falamos da situação dos presídios, dos agentes penitenciários e dos presidiários. Ele criticava meu discurso, dizendo que sou muito idealista: “É porque você não conhece as figuras; eu que fiquei lá na tranca quantos anos… só ouvindo ameaça, insulto, palhaçada de preso. É porque esse aqui (disse ele se referindo ao preso sentado atrás de mim) não dá trabalho nenhum. Não é que nem esses outros que tem lá, que mexe com droga, assalto e não sei o quê. Ele é gente boa, trabalhador que caiu nos caminhos da vida, mas não dá trabalho nenhum. Porque o resto… humpf!”. Quando deixamos o preso na unidade dele e voltamos para o carro, perguntei qual era o delito daquele homem trabalhador. Por que ele estava preso? “Incesto”, me disse ele. Um eufemismo pra dizer que o cara abusava e estuprava as próprias filhas. Fiquei pensando na construção daquele pensamento e discurso: os presos que traficam e assaltam são Satanás na terra, mas o estuprador não. Porque ele é honesto e trabalhador, que caiu “nos caminhos da vida”.

Um estupro tão diminuído. Estuprar as próprias filhas não era quase nada. Aliás, não é nada comparado a um assalto. Roubar bens materiais ou vender drogas é bem pior que estupro. Será que meu corpo vale menos que um celular ou o caixa de um supermercado? Quanto vale minha integridade, meu psicológico, minha vida, minha autonomia, minha sexualidade, meu respeito? Menos que um furto. Menos que alguns quilos de maconha ou pasta-base.

Amanda Bueno, funkeira brutalmente assassinada pelo noivo depois de ter descoberto traição do mesmo. Os vídeos registram quando Milton pega a vítima pelo pescoço, bate com a cabeça dela 11 vezes em uma pedra do jardim e dá 10 coronhadas na cabeça dela. Em seguida, entra em casa, veste o colete à prova de balas e se arma com um revólver, três pistolas e uma espingarda calibre 12. Ao passar pelo corpo, dá tiros com a pistola e com a espingarda no rosto da vítima. Fonte: G1
Amanda Bueno, funkeira brutalmente assassinada pelo noivo depois de ter descoberto traição do mesmo. Os vídeos registram quando Milton pega a vítima pelo pescoço, bate com a cabeça dela 11 vezes em uma pedra do jardim e dá 10 coronhadas na cabeça dela. Em seguida, entra em casa, veste o colete à prova de balas e se arma com um revólver, três pistolas e uma espingarda calibre 12. Ao passar pelo corpo, dá tiros com a pistola e com a espingarda no rosto da vítima. Fonte: G1

Outro dia, meu sobrinho voltou do hospital depois de um tombo de moto. Sentou e me contou, chocado, ter encontrado uma mulher que estava toda ferida. Ela estava lá porque um cara, numa caminhonete 4×4, estava mexendo com ela e ela não lhe deu atenção. Como somos sempre ensinadas: não retruque, fique calada e deixa falar (sempre baixe a cabeça…). O cara não gostou, continuou mexendo. Como ela não parecia “ceder aos seus encantos”, ele a fechou. Ela, que estava numa biz, foi encantoada no meio-fio, caiu e quebrou uns tantos ossos, se ralou toda e foi parar no Pronto Atendimento do hospital com ajuda de outros, já que ele saiu sem prestar socorro.

Essa semana, no ônibus a caminho do trabalho, o veículo parecia empacar a cada freada. Aquela maravilha de transporte coletivo, pelo qual ainda pagamos caro. Duas senhoras do meu lado riam entre si “é igual mulher de bandido, só funciona na porrada”. A violência tão naturalizada, tão diminuída, nem parece que é agressão a alguém, que mata, que traumatiza, que aprisiona, que causa traumas… É tão comum, tão aceitável, tão corriqueira que dá pra comparar até com um ônibus velho e rir.

Ainda esse mês vi a notícia de um cara que matou sua esposa a facadas porque ela fritou poucas batatas fritas; outra notícia, do mês passado, contava de um cara que fez a mesma coisa com a esposa grávida porque ela se recusou a fazer o jantar (afinal, é obrigação dela enquanto mulher, né? Nasceu pra isso).

Bárbara Richardelle, assassinada no canteiro de uma obra em Vila Velha no dia 17 de março de 2014 pelo namorado. Teve o corpo abandonado às margens da Rodovia Darly Santos. Encontrada com sinais de estrangulamento, com o olho roxo e uma lesão na cabeça. O assassino, Christian Cunha, contou que se alimentou de churrasquinho e guaraná ao lado do corpo. Fonte: G1
Bárbara Richardelle, assassinada no canteiro de uma obra em Vila Velha no dia 17 de março de 2014 pelo namorado. Teve o corpo abandonado às margens da Rodovia Darly Santos. Encontrada com sinais de estrangulamento, com o olho roxo e uma lesão na cabeça. O assassino, Christian Cunha, contou que se alimentou de churrasquinho e guaraná ao lado do corpo. Fonte: G1

Minha irmã, em Sinop, em fevereiro veio me pedir ajuda porque uma irmã da igreja estava desesperada. Ela morava com o marido e os três filhos deles, mas ele estava tirando tudo de casa para vender e comprar droga, além de ameaça-la. Ela não tinha família na cidade, era sozinha com os filhos. Foi até a delegacia denunciar e, lá, o policial lhe disse que não podia fazer nada, porque eles moravam juntos, então as coisas também eram dele; e se ela achasse ruim, que “botasse outro macho dentro de casa” (nessas palavras).

Talvez eu seja muita ingênua, talvez pense assim por ser mulher e estar na reta da vulnerabilidade (talvez homens não consigam se por no meu lugar ou imaginar como é isso), mas muito me choca ainda ouvir tanto a expressão “crime passional”. Afinal, o que há de passional em matar alguém, espancar alguém, violar alguém? “Passional” vem de “paixão”. Estamos assumindo que é possível eufemizar o crime, torna-lo mais leve e romântico, por que foi por “amor”? Não é só ilógica essa configuração, mas assustadora que ela seja aceita e perpetuada no judiciário. Aliás, pensar que até pouquíssimo tempo era considerado legítimo que um homem matasse uma mulher “em defesa da honra”, me faz pensar que a lei do feminicídio demorou até demais pra ser criada.

Quando eu vejo que tantas amigas do meu círculo próximo assumem ter sido estupradas ou assediadas sexualmente por homens da família ou amigos da família; quando eu lembro dos quase 10 anos que sofri na mão de um pedófilo e sei que escapei de um estupro por muita sorte; quando eu ouço gente dizendo que estupro é “cair nos caminhos da vida” e um crime mais aceitável que assalto ou tráfico; quando leio que uma mulher é morta a cada 1h30 no Brasil; quando leio que uma mulher é estuprada a cada quatro minutos no meu país; quando me dizem que eu estou lutando por privilégios e não direitos; quando bradam que estou exagerando e querendo diminuir os homens; quando me comparam a um nazista… Eu me pergunto: quem se importa com a violência contra as mulheres?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s