Não me chame de “mulher cis”

Se com isso você quer dizer que eu me identifico com o “gênero” que nasci, isso me soa meramente ofensivo. Eu nasci do sexo feminino, mas o papel que eu deveria desenrolar foi algo que me deram pronto.

Não foi escolha, nunca me deram opções. Não pesei na balança e percebi, após análise, que valia a pena fazer o papel de “mulher”. Foi me dito o que vestir e o que não podia vestir, como me portar e como não ne portar, com que brincar e com que não brincar, de quem gostar, do quê gostar. Menina não fala palavrão, menina senta de pernas fechadas, menina brinca de boneca (que é pra aprender seu lugar logo), menina não gosta de jogos de luta.

Eu fui muito chamada de gurizinho, sabe? A vida toda. Porque eu gostava dessas “coisas de menino”, daquele gênero que você pressupõe que eu não me identifico porque sou “cis”. Eu, que supostamente “me identifico” com o “gênero” que nasci (você quer dizer “mulher”?), era identificada como “gurizinho” porque gostava de roupas largas, skate, futebol, videogame, jogos de luta. Porque eu gostava de correr descalça na rua. Gostava de fazer atividades, como toda criança.

É que eles separam as atividades, os comportamentos e tudo mais, te dão uma caixinha fechada: para menino / para menina. O que você poderá fazer, dizer, usar, ser, gostar? Tudo depende do órgão que aparecer no meio das suas pernas quando você nascer.

Eu concordo que o órgão sexual não me define, nem te define. Mas eu discordo disso agora que pude realmente pensar tudo isso. Antes não! Me definiram por isso. É uma sentença nascer com vagina. Seria hipócrita não admitir que ter nascido com vagina foi determinante para “ser mulher”, porque isso não foi uma escolha minha, foi algo que já estava assim e me impuseram.

Eu sou mulher porque tenho vagina: não porque me reduzo a isso, mas porque me reduziram a isso. Disso tudo, a única verdade mesmo é que tenho vagina, não que sou mulher. Ser mulher é algo que me impuseram, me ultrapassa. O ser mulher foi a socialização que me deram, o modo que me socializaram porque quando nasci alguém viu: tem vagina. Nome feminino, cabelo comprido, maquiagem, boneca, saia, vestido, sandália, privações, correções, coerções. Assédio sexual.

Na sociedade, isso é ser mulher. O resto é ser gente. Ser alguém da espécie humana com determinadas características biológicas. E hoje eu integro e posso interagir para provocar mudanças na sociedade, mas quando vim ao mundo, ela já existia. Essa configuração já existia.

Não me diga que eu me identifico com o “gênero” que nasci. Eu que odiava rosa quando adolescente (que bobeira odiar uma cor, algo que não te faz nada, não é? Na verdade, hoje sei: eu odiava a imposição, não o rosa). Que usei roupas largas para fugir da regra que me enfiavam goela abaixo. Que fui diminuída em diversos âmbitos da convivência porque “ser mulher” é ser frágil, ter filhos, cuidar da casa, casar, ser delicada, gostar de maquiagem, não falar palavrões, ser sempre linda, é não ser boa “pra dirigir”, em “raciocínio lógico”, cargos diretivos, porque mulher tem TPM, é desequilibrada, histérica, não saber separar o emocional…

Eu não sou isso aí. Eu não escolhi isso aí. Eu não me identifico com isso. Eu não sou “cis”.

Eu nasci com uma determinada configuração biológica, com um aparelho reprodutor e órgão sexual feminino. Isso sim. E não posso relativizar isso, é um fato biológico em mim. Aliás, é a única verdade em mim. Quanto ao resto, fatores sociais determinaram as regras. Não eu.

Isso também é difícil de relativizar, porque as regras sociais não são convenções que quebramos instantaneamente porque “sim”. Você discorda e tem o direito de ir contra a maré, mas o que vai acontecer se você for um peixe isolado? Você muda a maré? Ou a maré te engole?

Convenções sociais não são convicções pessoais.

Eu digo isso porque mesmo com toda a noção que tenho agora, eu tenho um filho. Nasceu com pênis, aparelho reprodutor masculino. Configurações diferentes da minha. E não consigo fugir às regras sociais. O “mundo azul”, como chamam as mães. Roupas azuis, carrinhos, botas, legos, caixas de ferramentas de brinquedos, sem furo de brinco na orelha quando nasceu, sem laços gigantes na cabeça, sem bonecas – pior que ele tem algumas.

E se eu quiser ir contra esse padrão que me impuseram, não é socializando meu filho como menina que vou conseguir. Isso não vai mudar as convenções sociais. Meu filho gosta de carrinhos (porque os deram), de correr, de cantar. Será que isso faz dele um “menino cis”? Sinceramente, não comprei nada disso pra ele. Foi tudo dado. Ninguém quis dar um vestido, uma boneca, um kit de panelinhas, um fogãozinho, bolsinha igual da mamãe.

Eu vou contra esse padrão quando o deixo escolher suas roupas, quando deixo escolher suas brincadeiras, quando não limito suas possibilidades, condiciono seu comportamento e cerceio suas liberdades baseada no fato de ele ter um pênis.

Não me chame de cis
Meu filhote e eu. Duas pessoas. Cis? Trans? Gente.

Tudo bem se ele gostar de vestido. Tudo bem se ele gostar de meninos. Tudo bem se ele gostar de bonecas. Tudo bem se ele quiser passar batom. Tudo bem se ele quiser usar a bolsa da mamãe. E tudo bem se ele quiser tudo ao contrário. Ou quiser jogar bola enquanto veste uma fantasia de princesa Frozen. Tudo bem. Nada disso exige um pênis ou uma vagina.

E tudo bem se ele quiser ser chamado de Giovanna, não Giovanni. Eu só quero que ele saiba que ele pode ser o que quiser sem que isso o torne “mulher” ou “homem”. Basta ele saber que eu e ele somos humanos, com características específicas, com universos próprios dentro de nós. O resto é rótulo social.

Então, por favor, não me diga que eu sou “cis”. Não diga que meu filho é “cis”. E quero que você também entenda que não quero, com esse artigo, “deslegitimar” nenhuma pessoa “trans”. Nós estamos em acordo: eu não sou uma vagina, meu filho não é um pênis. Eu quero que as pessoas sejam pessoas: como elas são, como querem ser, sem precisar caber nas caixinhas pré-prontas de ser “homem” ou “mulher”, que são papéis tendenciosos em que um claramente tem mais vantagens e privilégios em relação ao outro.

Eu não escolhi um papel social para seguir e definitivamente não me identifico com o que a sociedade me diz que é “ser mulher”. E não sei porque alguém iria querer desempenhar esse papel cheio de desvantagens.

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